terça-feira, 15 de novembro de 2011

As Monstruosidades Vulgares - José Régio

Joaquim levou-a nos braços para o quarto de dormir, ajudou-a a mudar de roupa. Sentindo a delicada lascívia dos seus cuidados, já ela se fazia mimalha. Ninguém suporia, conhecendo-o de certos momentos, como, noutros, ele era capaz daquele requinte de voluptuosidades ternas.

A Velha Casa, Volume IV, José Régio

terça-feira, 31 de maio de 2011

O Elogio da Madrasta - Mario Vargas Llosa

Seria possível que Lucrécia lhe fizesse confidências daquela índole, que falasse ao menino do que faziam à noite? Desde logo que não, que palermice. Eram fantasias de Fonchito, algo muito típico da sua idade: descobria malícia, aflorava a curiosidade sexual, a líbido nascente sugeria-lhe fantasias a fim de provocar conversas sobre o fascinante tabu.

Sin noticias de Gurb - Eduardo Mendoza

Sin noticias de Gurb relata a busca de um extraterrestre que desapareceu, depois de adoptar a aparência da vocalista Marta Sánchez, na selva urbana de Barcelona. O protagonista da narração não é Gurb, mas outro alienígena que vem em sua busca e cujo diário constitui o esqueleto da narração:
09.45            "Después de un examen detenido del plano de la ciudad, decido proseguir la búsqueda de Gurb en una zona periférica de la misma habitada por una variante humana denominada pobres. Como el catálogo Astral les atribuye un índice de mansedumbre algo inferior al de la variante denominada ricos y mui inferior al de la variante denominada clase media, opto por la aparencia del ente individualizado denominado Gary Cooper."

Kronk - Edmund Cooper

Ultimamente, nas suas visitas ao monumento de Alberto, Gabriel habituara-se a trazer consigo dois copos de plástico. Já não  conseguiria recordar-se de quando iniciara a corrupção do corvo, mas era agora evidente que o bicho enveredara, decidido, pela estrada do alcoolismo.
...
O corvo bebeu mais uma golada. Depois cambaleou e acabou por falar. Muito claramente, proferiu uma palavra:
- Kronk!
- É verdade, tens razão! Exclamou gabriel, levantando o seu copo.

Sexta-feira ou a vida selvagem - Michel Tournier


        Robinson apressou o andar. Dentro de poucos instantes, ir-se-ia estender sobre estas terra feminina. (...) Sentiria, então, uma nova força a penetrá-lo ao contacto com esta fonte primeira, voltar-se-ia e colaria o ventre no ventre desta gigantesca e ardente fêmea para rasgar com uma relha de carne.
        Parou na orla da floresta. Seria ali que Robinson iria hoje amar. Conhecia já aquele ninho de verdura e, aliás, as mandrágoras suas filhas faziam-lhe sinais de boas-vindas.
        Foi então que viu sob as folhas duas pequenas nádegas pretas. Estavam em pleno trabalho,...

A Espuma dos Dias - Boris Vian


- Esta empada de enguias é notável - disse Chick. - Quem te deu a ideia de a fazeres?

- Foi o Nicolas quem teve a ideia - retorquiu Colin. - Há uma enguia - ou antes, havia - que todos os dias vinha ter ao lavatório dele pelo cano da água fria. Punha a cabeça de fora e esvaziava o tubo de pasta dentífrica, fazendo pressão com os dentes. Nicolas só usa pasta americana, de ananás. Isso deve tê-la tentado.
- Como é que ele a apanhou? - perguntou Chick.

- Pôs um ananás inteiro no lugar do tubo. Quando engolia a pasta conseguia deglutir e depois recolher a cabeça, mas com o ananás, quanto mais ela puxava, mais os dentes se enterravam no ananás.

A ESPUMA DOS DIAS - Boris Vian

The Importance of Being Earnest - Oscar Wilde



A Importância de um Título
Um dos primeiros títulos que conheci de Oscar Wilde, A Importância de se Chamar Ernesto, que considero, em português, uma obra-prima dos títulos e um dos mais apelativos que conheço,  depois de alguns anos, chegou-me às mãos.
Fui lendo as outras obras, sempre agradado, e preparava-me, agora, para pedir emprestada uma edição espanhola, quando me apareceu a minúscula edição em inglês, da Penguin Popular Classics, por um euro e meio.
Li, por isso, The Importance of Being Earnest.
Provavelmente todos o sabeis já, mas eu, apenas depois de ler o título, distraidamente, uma terceira ou quarta vez, percebi que nele não está o nome Ernest, mas o adjectivo Earnest. (sério).
A descoberta confundiu-me consideravelmente. Senti a curiosidade que tinha alimentado ao longo dos tempos, subitamente, duplicada e irreprimível e vi-me a entrar no livro com uma vontade muito superior ao habitual noutras leituras.
 

Será assim tão importante que alguém se chame Ernesto?

 É, indubitavelmente! Basta ler este opúsculo dramático, luminoso e iluminado. Dividido em 3 actos, que se estendem por 67 escassas páginas, faz desfilar factos e revelações vividos por personagens tão ricas e interessantes que certamente não desdenharíeis conhecer e tomar como amigos, apesar de poderem, por pertencerem à alta sociedade aristocrática do final do século XIX, não comungar da vossa classe social.
Não deveria nomeá-las porque vos estarei a revelar dados essenciais para a compreensão da peça, mas reparai nos exemplos que passo a transcrever, representativos da personalidade de algumas personagens.
 
Primeiras falas da peça, entre um criado e o seu amo:
- Did you hear what I was playing, Lane?
- I didn’t think it polite to listen, sir.
 
            Diz Lady Bracknell, perto do fim da peça:
            - To speak frankly, I am not in favour of long engagements. They give people the opportunity of finding out each other’s character before marriage, which I think is never advisable.
 
            Falas entre as duas nada estouvadas personagens femininas principais, acerca dos pretendentes a quem espreitam e com quem estão zangadas:
            - They have been eating muffins. That looks like repentance.
            - They don’t seem to notice us at all. Couldn’t you cough?
            - But I haven’t got a cough …
             A peça critica muito e diverte mais e, confesso, o mistério da importância de alguém  se chamar Ernesto é um leitmotif  singelo e perfeito. 
             The Importance of Being Ernest, obra-prima da comédia moderna, de Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde,  representada pela primeira vez em 1895, no St James’s Theatre, de londres, estudada ao longo dos tempos e passada a filme em 1952, realizado por Anthony Asquith, e em 2002,  por Oliver Parker.
 
  

As Afinidades Electivas - Goethe

        Os elementos que até ali estiveram unidos dois a dois, logo que postos em contacto, abandonam a anterior união e tornam a unir-se de nova maneira. Procuram-se uns aos outros, atraem-se e repelem-se.  Neste dar e receber, neste fugir e procurar, pode ver-se uma inspiração superior; estes elementos são assinalados por uma espécie de vontade e de eleição, e essa denominação artificial de “afinidades electivas” encontra-se plenamente justificada.

Em Busca do Unicórnio - Juan Eslava Galán

 
- Sabes que animal é este?
E eu, não querendo parecer rústico, não sabia o que havia de responder-lhe porque em toda a minha vida nunca tinha visto um cavalo assim guarnecido de um corno.
- Cavalo é, meu amigo, mas de uma espécie de cavalos como nunca se viu pelos nossos reinos. Estes cavalos unicórnios nascem nos pastos de África, para lá das terras dos mouros. El-Rei nosso senhor quer que tu e outros ides até lá e que lhe tragais um destes cornos. El-Rei necessita dele para que os seus boticários retirem certos pós de virtude que são muito salutíferos e necessários para o bom serviço de El-Rei nosso senhor. Mas disto importa muito que ninguém saiba nem uma palavra nem que embaixada levais, e por isso ireis sob o disfarce de outro negócio que vos será explicado.
E foi assim que me vi embarcado em busca do unicórnio.

Contos mágicos - Remy de Gourmont

De alma nula e carne ávida, Don Juan adolescente já se preparava para consumar a sua vocação e o seu papel lendário. A presciência dos hábeis revelou-lhe o que ele devia ser, e entrou na carreira armado e ornamentado com esta divisa:
Para agradar temos de tomar o que agrada àquelas que agradam.
A uma loura desmaiada tomou então o gesto que apertava, com a mão perita, dolorosas batidas de um coração ausente;
A outra o estremecer irónico das pálpebras que dava a ilusão de impertinência mas não passava do sofrimento de um olhar fraco perante a luz;
A outra o gesto do mindinho erguido e atentamente olhado como descoberta rara;
A outra um bonito bater de pé com subtil impaciência;
A outra ...
Remy de Gourmont
O segredo de Don Juan

O Estrangeiro - Albert Camus

        O gatilho cedeu, toquei na superfície lisa da coronha e foi aí, com um barulho  ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo principiou. Sacudi o suor e  o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excecional de uma praia onde havia sido feliz. Voltei então a disparar mais quatro vezes contra um corpo inerte, onde as balas se enterravam sem se dar por isso.
O Estrangeiro, Albert Camus

O Livro de Areia - Jorge Luís Borges

Disse-me que o nome do livro era o Livro de Areia pois não tinha, como a areia, princípio nem fim.

A Bela do Senhor - Albert Cohen

            E agora, ouça a maravilha. Farta de se sentir misturada com os ignóbeis, ela fugiu da sala tagarelante dos sequiosos de relações , e foi, voluntariamente banida, para o pequeno salão deserto, ao lado. Ela é você. Voluntariamente banida como eu, e não sabia que por trás das cortinas eu a espiava. Então, ouça, aproximou-se do espelho do pequeno salão, porque como eu tem a mania dos espelhos, mania dos tristes e solitários, e então, sozinha e sem saber que era vista, aproximou-se do espelho e beijou os próprios lábios no espelho.
...
            Eu mesmo, Solal, e do pior mau gosto, sorriu ele mostrando os dentes todos. E com botas! Mostrou ele, e de alegria chicoteou a bota direita. E há um cavalo à minha espera lá fora! Há mesmo dois cavalos! O segundo era para ti, idiota, e teríamos cavalgado para sempre um ao lado do outro, jovens e com os dentes todos, eu tenho trinta e dois, e impecáveis, podes certificar-te e contá-los, ou eu até te levava na garupa, até te levava em glória em direcção à felicidade que te falta! Mas agora já não ma apetece, e de repente o teu nariz é grande de mais, além disso brilha como um farol, e mais vale assim, e eu vou-me embora! Mas antes disso, ó fêmea, escuta! Fêmea, vou-te tratar como fêmea, e vou-te seduzir da forma mais reles, como tu mereces e queres. No nosso próximo encontro, e não vai demorar muito, seduzo-te em duas horas e pelos meios de que todas gostam, os meios reles, e tu hás-de cair num grande amor imbecil, e assim vingo os velhos e os feios, e todos os ingénuos que não vos sabem seduzir, e tu hás-de partir comigo, extasiada e de olhos perdidos! Entretanto, fica com o teu Deume até me apetecer assobiar-te como a uma cadela!
ALBERT COHEN

O Pintor de Retratos - Luiz Antonio de Assis Brasil

Do outro bolso tomou seu retrato feito por Nadar, olhou-se. Ficou minutos em contemplação.
E então, com vagar e método, rasgou o retrato em quadrados, em triângulos; depois em partes muito pequeninas. Abriu a janela e foi jogando fora, pedacinho a pedacinho.
De manhã, os meninos que jogavam bola às margens dos trilhos recolheram algumas fracções avulsas da foto de Sandro Lanari. Levaram-nas a seu velho professor. Ajudado pelas crianças, ele ensaiou uni-las sobre o assento do banco.
Após várias tentativas, disse:
- É o retrato de um homem, mas é impossível formá-lo por inteiro. Faltam muitos pedaços, muitos … – Fez um gesto envolvendo toda a paisagem – devem estar por aí… – e com olhos de sábio, olhos que tanto viram e tanto amaram, percorreu a solidez terrestre dos campos e o devaneio infinito das nuvens.

O Pintor de Retratos, Luiz Antonio de Assis Brasil

La Amigdalitis de Tarzan - Alfredo Bryce Echenique

Qué le pasará a la gente?
Parece que sólo quieren lo que ya no tienen, o lo que no pueden tener. Y lo peor es que una quando se entrega es tan entregada que tal vez les arruina todo eso del misterio y lo dificil, o a saber que cosa rara. Y sólo recuperan esse amor cuando una ya se pone misteriosa y com ganas de irse. Lo malo es que en lo personal, cuando tengo ganas de irme, es bien de verdad. No hay ningún misterio. YA NO QUIERO MÁS.
 
La Amigdalitis de Tarzan, Alfredo Bryce Echenique
 
Llegaré a tu pueblo el 7 de Abril, y regreso el 15, domingo de Pascua florida, o sea los dias de Semana Santa. Si acaso vas a salir en esse tiempo, por favor avísame, ya que realmente mi turismo es exclusivamente sentimental, y tal vez se pueda arreglar otras fechas se veo que hay una ausencia tan maiúscula como la tuya y la semana corre peligro de ser excessivamente santa.
 

Los cuadernos de Don Rigoberto - Mario Vargas Llosa

Ahí donde estés, yo estoy.
Quietecita y enamorada.
Yo soy el puntito sobre la i
El rabito de la g
Y el cuernito de la t.
Soy la burbujita que te refresca el paladar.
Quando pronuncio tu nombre, me corre una culebrita por la espalda.
Quién soy? Alguien que te quiere como la espuma a la ola.

M. V. Llosa, Los Cuadernos de Don Rigoberto

O Jardim fecha às 18h30 - Jorge Listopad

            Um amigo meu, que vocês não conhecem, mas conheço eu, tem uma caixa, dentro da caixa, maior, dentro desta ainda outra caixa, maior, e Frederico, que é como se chama o meu amigo que vocês não conhecem, não pode continuar por mais tempo a abrir caixas porque cada caixa maior é tão grande que já não lhe pode mexer, ultrapassa-lhe os braços, é tão grande como todo o andar, tão grande como o prédio onde o Frederico mora no terceiro esquerdo, onde eu o visito de elevador ou pela escada, como calha.
Nem toda a gente tem uma caixa assim, que tenha dentro as caixas sempre maiores. Recebeu-a do tio José Eduardo, grande viajante pelo mundo, não vagabundo mas vagamundo, muitas aventuras, alguma caça, algum tesouro, muitas Africas, muitos Orient-Express.
Cada qual não tem o tio que merece mas o que há, o Frederico tem um, já se sabe. Eu tenho outro. O meu tio é sorridente, está de acordo com a mãe, com o pai; até comigo, pois não tem opinião própria, gosta francamente das opiniões dos outros porque gosta das pessoas e acha que ter opinião não é uma coisa muito importante.
- Tio, vamos a Monsanto!, digo eu.
- Vamos.
- Tio, mas o tempo não está bom.
- Então não vamos.
Um dia perguntei-lhe:
- Quantos anos tens, tio?
- Como quiseres – respondeu.
Gosto do meu tio. Talvez preferisse o tio do Frederico, mas ele anda sempre a viajar por fora. Gosto do meu tio porque às vezes me dá uma nota e diz: - Não digas a ninguém e compra uma coisa inútil; ou porque me põe a mão na cabeça e me acaricia timidamente os cabelos, ou porque, visto não ter opinião, ouve a minha que ninguém quer ouvir. Se me tivesse dado uma caixa, dentro dela haveria uma mais pequena, que esconderia outra mais pequena, e ainda outra mais pequena, até chegar a uma miniatura de caixa, e talvez nela houvesse uma surpresa. Não digo qual, porque então já não seria surpresa.

in   O Jardim Fecha às 18.30h
Jorge Listopad

Middlesex - Jeffrey Eugenides

ESCREVER
            As Braceletes Douradas não estudavam. Nunca punham o braço no ar durante as aulas. Ficavam sentadas lá atrás, espojadas sobre as mesas, e iam para casa passeando aos seus cadernos. (Embora talvez as Braceletes Encantadas entendessem mais da vida do que eu. Desde a mais tenra idade souberam reconhecer o papel insignificante que os livros têm neste mundo, pelo que não perdiam tempo com eles. Ao passo que eu, ainda hoje, insisto em acreditar que estas marcas pretas no papel são da maior importância, que, se continuar a escrever, conseguirei talvez guardar o arco-íris da consciência num vaso.)
 
PERIFESCÊNCIA
        O estado de perifescência designa a primeira febre do vínculo de acasalamento. Provoca tonturas, júbilo, cócegas nas paredes do peito e uma vontade de trepar a uma varanda através de um cabelo da pessoa amada. A perifescência constitui o primeiro período de inebriamento químico e felicidade conjugal em que uma pessoa é capaz de sentir o perfume de uma papoila durante horas a fio. (…) Para Desdemona, a perifescência era como uma vaga de calor que lhe afluía desde o abdómen até ao peito, alastrando como um aluvião de um licor de menta finlandês com mais de 50 graus. Com o bombear eficiente de duas glândulas do pescoço, afogueava-lhe o rosto. A seguir, a vaga de calor mudou de ideias e começou a espalhar-se por sítios impróprios para uma rapariga como Desdemona, que assim pôs fim à troca de olhares e virou costas. Caminhou até à janela, deixando a perifescência para trás, e a brisa do vale refrescou-a um pouco.

in Middlesex
Jeffrey Eugenides

Se Numa Noite de inverno um Viajante - Italo Calvino

Estás prestes a começar a ler um novo livro?
Descontrai-te. Recolhe-te. Afasta de ti todos os outros pensamentos.
Deixa que o mundo que te rodeia se esfume até ficar indistinto.
É melhor fechares a porta.
A televisão está sempre ligada. Di-lo já aos outros:
- Não, não quero ver televisão!
Levanta a voz se não te ouvem:
- Estou a ler! Não quero ser incomodado!
Toma a posição mais cómoda: sentado, estendido, enroscado, deitado. Deitado de costas, de lado, de barriga para baixo. Na poltrona, no divã, na cadeira de baloiço, na espreguiçadeira, no pouf. Na maca, se tiveres uma maca. Podes pôr-te também de cabeça para baixo, em posição de yoga. Com o livro ao contrário, naturalmente.
Bem, de que é que estás à espera? Estende as pernas, estica também os pés numa almofada, em duas almofadas, nos braços do divã, nas orelhas da poltrona, na mesinha de chá, na escrivaninha, no piano, no mapamundo. Descalça primeiro os sapatos. Se é que queres ter os pés levantados; se não, torna a calçá-los. Agora não fiques aí com o livro numa mão e os sapatos na outra.
Que é que há mais? Tens de fazer chichi? Bem, tu é que sabes.

"Se Numa Noite de inverno um Viajante..." Italo Calvino

                             Tipos de livros                                                                                                                              Livros que leste.

Livros que não leste.
Livros que não podes deixar de ler.
Livros que podes deixar de ler.
Livros feitos para usos diferentes da leitura.
Livros já lidos sem sequer ser preciso abri-los.
Livros que se tu tivesses mais vidas para viver certamente também os lerias.
Livros que tens intenção de ler, mas antes devias ler outros.
Livros demasiado caros que esperas poder comprar em saldos.
Livros que podes pedir a alguém que tos empreste.
Livros que todos leram, portanto é quase como se tu os tivesses lido também.
Livros que há tanto tempo planeias ler.
Livros que há tantos anos procuravas sem os encontrares.
Livros que tratam de algo de que tu te ocupas neste momento.
Livros que queres possuir para os teres à mão em todas as circunstâncias.
Livros que poderias pôr de lado para leres talvez este Verão.
Livros que te faltam para pores ao lado dos outros livros da estante.
Livros que fariam muito jeito para equilibrar a perna do sofá.
Livros que te inspiram uma curiosidade repentina, frenética e não justificável.
Livros lidos há tanto tempo que seria hora de os releres.
Livros que fazes conta que leste e que seria hora de te decidires a lê-los de facto.

"Se Numa Noite de Inverno um Viajante..."  Italo Calvino

Lourenço é Nome de Jogral - Fernanda Botelho

Gosto de fazer corpo com a noite e solidarizar-me com a sua sinistra mitologia. Enrolar-me em trevas, para que as trevas do meu corpo ressurjam multiplicadas e eu deixe de saber onde começo, onde acabo – densa e ilimitada – ,  eu e os gnomos das sombrias florestas, alegres oficiantes das minhas cerimónias nupciais.


A meu ver, foi essa tua desinibição que intrigou Luzinha: esperta como era, adivinhou em ti um exemplar duma espécie para ela desconhecida; e tu bem sabes como era ávida de novidades.

Eu esperava este momento de exaltação, desde o dia em que me mandaste embora. Eu esperava talvez que me mandasses embora – eu ou os meus diabos, – por isso contei tudo ao Luís. Exijo o sofrimento com a mesma fúria com que procuro a exaltação, quero que a vida a cada momento se abra em cratera ou em lagoa, e eu saiba que em mim todas as vibrações da terra deixaram marca, e é um mapa estranho, cravejado de alfinetes e desdobrando-se em cores, aromas, música. Compreenderás isto? Claro que compreendes. A minha vocação era a de te encontrar para me esclarecer. Eu andava, malograda e desnorteadamente, à procura duma nascente de sabedoria. Não foste a nascente. Eu receava da minha juventude a incapacidade e o erro. Não me desmentiste. Eu aspirava a certezas, e tu eras a dúvida. Por isso mesmo. Nós estávamos certos. E, por isso mesmo ainda, ao ver-te pela primeira vez, reconheci-te.

- É um bocado confuso, não é? E, no entanto, eu vejo tudo com a maior clareza. É como se eu andasse à sua procura, sem saber como, nem quem, sem saber mesmo que procurava. E então vejo-o, e penso: ei-lo! Assim, sem mais nem menos.


Agarro-me ao teu pescoço e enrosco-me em ti: nasci com esta vocação de me adaptar ao teu corpo.

BOTELHO, Fernanda. Lourenço é Nome de Jogral

La Velocidad de la Luz - Javier Cerca

Eufórico, con la última cerveza se la expliqué a Marcos. Le expliqué que iba a publicar el libro con un nombre distinto del mío, con un seudónimo. Le expliqué  que antes de publicarlo lo rescribiría por completo. Cambiaré los nombres, los lugares, las fechas, le expliqué. Mentiré en todo, le expliqué, pero sólo para mejor decir la verdad. Le expliqué: será una novela apócrifa, como mi vida clandestina e invisible, una novela falsa pero más verdadera que si fuera de verdad. Cuando terminé de explicárselo todo, Marcos permaneció unos segundos en silencio, fumando con expresión ausente; luego se tomó de un trago el resto de cerveza.
- ¿Y cómo acaba? – preguntó.
Abarqué de una mirada el bar casi vacío y, sintiéndome casi feliz, contesté:
- Acaba así.

CERCA, Javier. La Velocidad de la Luz

A Imortalidade - Milan Kundera

Bettina pensa como Santo Agostinho quando escreve a Arnim:
 
"Descobri um belo provérbio: o amor verdadeiro tem sempre razão, mesmo quando erra. Lutero, pelo seu lado, diz numa carta: o amor verdadeiro é muitas vezes injusto. O que não me parece tão bom como no meu provérbio. Noutro lugar, Lutero dizia, porém: o amor vem antes de tudo, antes até do sacrifício, antes até da oração. Daqui concluo que o amor é a virtude suprema. O amor faz-nos perder a consciência (macht bewusstlos) do terrestre e enche-nos do que é celeste; é assim que nos liberta de toda a culpa (macht unschuldig)."


A Imortalidade, Milan Kundera