terça-feira, 11 de agosto de 2026

Mentiras de mulher - Ludmila Ulitskaya

Maio: Génia e o filho Sachka, de 3 anos, numa casa grande de férias, pertencente a Dora Surénovna.

Génia passa os inícios de noite no terraço da ruiva inglesa Irene Leary, mãe de Donald, de 5 anos, e filha da velha Susie. Conversam e bebem portwein! Irene gosta de ler as cartas!

Numa noite, Irene conta que teve dois filhos que morreram: o primeiro bebé com o cordão umbilical; a segunda menina, Diana, com cerca de 5 anos, com febre, quando a própria Irene adoeceu, durante meses.

Noutra noite, conta que depois casou com o professor de música Gueorgui e teve 2 gémeos, Alexander e Iákov: morreram os 3 num acidente, abalroados por um camião, quando iam a caminho do hospital, porque Irene estava com as suas enormes crises de alergias. Viviam em Moscovo.

Chegaram de Moscovo ao hotel Vera com Valentin, a ex-mulher deste, com o filho mais velho. Com Vera vinham o filho dela com Valentin e outra criança, mais velha, filha do seu primeiro marido.

E, num passeio, Vera, que foi sempre vizinha de Irene, conta a Génia que Irene teve muitos amantes, mas que nunca teve qualquer filho.

Génia, atordoada pelas mentiras de Irene, agarra em Sascha e partem para outra casa de férias, em Nóvi Svet.

Em Novi Svet, Génia toma conta de 4 crianças, incluindo o filho. Uma delas é Nádia, de 10 anos, que parece inventar que tem um irmão, Iura, que descobriu quem era um criminoso através do retrato robô, e que viu um disco voador que queimou um bocado de terreno, atrás da horta.

A mãe de Nádia, Anna Nikitichna, revela que não existe nenhum Iura, mas que é verdade que Nádia desmascarou o criminoso. Quanto ao disco voador…

O fim do argumento

Génia está com os dois filhos, Sachka e Grichka, e escreve. Tem 35 anos. Está na Rua Povarskaia,em Moscovo. Expulsou há muito tempo o segundo marido de casa, porque se apaixonou por um encenador inacessível. Meados dos ano 1980.

Uma das suas sobrinhas, Liália, de 13 anos, filha de Stella e de Konstantin Mikháilovitch, apaixonou-se pelo tio pintor, primo de Génia. Visita-o quando Mila, a mulher dele, ginecologista, está a trabalhar e Dacha vai para a escola. E Liália falta à escola para se encontrar com o tio e por vezes para vir desabafar com Génia.

Génia confrontou Arkádi, o pintor, e este confessou que tinha uma amante, mas que não era Liália, nem tão nova…

Génia confronta Liália com a verdade e ela desaparece durante vários anos.

Um fenómeno da natureza

A jovem Macha conhece a velha professora Anna Veniamínovna. ESta convence-a de que também escreveu poemas e lê-lhos). Macha, depois da morte de Anna, graças a Génia, descobre que aqueles poemas pertencem a poetas famosos.

Um caso feliz

Génia foi à Suíça entrevistar prostitutas russas para que o seu amigo Michel fizesse um documentário: Tamar, Lada,… todas contavam a mesma história, menos Liúda! No final, Michel acabou por morrer sem nunca fazer o documentário.

A arte de viver

Desde a infância que Génia detestava a farmacêutica Lília Apothekmann. Viviam na mesma praceta. Agora Lília tinha um AVC e Génia tomava conta dela, porque ela tinha encontrado um medicamento que ajudara a aliviar a doença da mãe de Génia, há uns anos. E depois Lília nunca mais a largou nem à mãe, que entretanto foi levada pelo cancro.

Havvah farta-se de pedir dinheiro a Génia e nunca o devolve.

Génia já tem mais de 50 anos. Vive com Kirill, o segundo marido, de quem esteve separada duas vezes, e com os 2 filhos, Sachka e Michka.

Génia tem um acidente e…



sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A Paixão Segundo G. H. - Clarice Lispector

A principal mensagem de A Paixão Segundo G. H., de Clarice Lispector, é a confrontação do ser humano com aquilo que existe de mais primitivo e essencial em si mesmo, quando todas as suas certezas — identidade, valores, estatuto social e racionalidade — começam a desmoronar.

G. H., uma mulher de classe alta, entra no quarto da empregada e encontra uma barata. O encontro, aparentemente banal, transforma-se numa experiência quase existencial: ao observar e finalmente entrar em contacto com a barata, G. H. é obrigada a confrontar uma forma de vida que lhe provoca repulsa, mas que também lhe revela algo sobre a sua própria natureza.

O que a barata representa?

A barata simboliza uma existência anterior às distinções humanas: não é bonita nem feia, não é moral nem imoral, simplesmente existe. G. H. percebe que também ela é, no fundo, matéria, vida, corpo — e que a identidade sofisticada que construiu para si mesma é apenas uma camada superficial.

Por isso, a experiência é tão perturbadora: para se encontrar, G. H. precisa primeiro de perder a imagem que tinha de si própria.

E o sentido da "paixão"?

O título remete para a Paixão de Cristo: há uma espécie de morte e sofrimento, mas também uma transformação. G. H. passa por uma experiência de "morte" simbólica do seu antigo eu e aproxima-se de uma espécie de renascimento.

Mas Clarice subverte a ideia tradicional de transcendência: G. H. não encontra Deus simplesmente "acima" dela. O absoluto está justamente na matéria, no corpo, na vida mais elementar.

Em resumo

Eu diria que a mensagem fundamental é:

Para descobrir quem somos verdadeiramente, talvez tenhamos de abandonar a identidade que construímos e aceitar aquilo que em nós é mais primitivo, corporal e inexplicável.

E é precisamente isso que torna o livro tão desconfortável: G. H. não vence a barata; ao aproximar-se dela, descobre que aquilo que rejeitava como "inferior" também faz parte dela.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Contos de Clarice Lispector


Gostei dos seguintes:

OS DESASTRES DE SOFIA

Aos 9 anos, Sofia, fascinada por um professor gordo e grande e antipático, que ela provoca porque isso lhe dá prazer, aprende que é possível ser amada mesmo sendo mentirosa e imperfeita: inventou num texto que um tesouro pode ser descoberto do nada, o professor valorizou a sua capacidade de imaginar e disse que ela era uma menina muito engraçada e sorriu, pela primeira vez, mas, para ela, imaginar era mentir e sentiu que o tinha enganado.

A LEGIÃO ESTRANGEIRA

A narradora, quase no Natal, recebe um pintainho, do marido e dos dois filhos. E lembrou-se de Ofélia e da família dela, que viveu no passado no seu prédio.

Um dia num banco do parque, enquanto as crianças brincavam, a mãe de Ofélia confessou que gostaria de tirar um curso de enfeitar bolos. Mas nunca mais mostrou simpatia, chegando mesmo a dizer-lhe no elevador:  “nunca me meto na vida dos vizinhos”.

Mas Ofélia ia muitas vezes a casa da narradora: não sorria, dava conselhos: “Comprou legumes a mais!” “Comprou legumes a menos!” 

A mãe de Ofélia ralhava com ela e dizia que não queria que ela a visitasse.

Um dia, a narradora comprou um pintainho para os filhos. Ofélia apareceu, viu o pinto e finalmente se transformou na criança que era e que até aí não mostrara ser. E acariciou o pinto e foi para a cozinha brincar com ele, entusiasmada. E foi-se embora, de repente. E a narradora foi à cozinha e o pinto estava morto.

Ofélia matou o pintainho sem querer ou de propósito?

Essa dúvida é deliberadamente impossível de resolver. A minha leitura é que Ofélia não parece matar o pintainho com uma intenção fria e previamente decidida. O conto sugere antes um gesto que nasce da mistura de fascínio, medo, desejo de posse e incapacidade de lidar com aquilo que está diante dela. Ela aproxima-se do pintainho, quer conhecê-lo, talvez dominá-lo, e nessa aproximação acaba por destruí-lo.

Mas também seria demasiado simples dizer que foi “sem querer”. Ofélia age. Há uma responsabilidade no gesto. O que fica ambíguo é precisamente a sua intenção: ela queria matar? Queria tocar? Queria possuir? Queria descobrir o que era aquele ser?

É isso que torna o final tão inquietante: o pintainho pode morrer no momento em que Ofélia tenta aproximar-se dele. O desejo de conhecer e o desejo de destruir ficam quase indistinguíveis.

E há ainda um detalhe importante: a narradora também não consegue oferecer uma explicação moral clara. Em vez de dizer “Ofélia matou-o porque era cruel”, ela parece compreender que há nela — e talvez em todos nós — uma zona obscura em que a curiosidade, o amor, a posse e a violência podem tocar-se.

Por isso, eu diria: provavelmente não foi um assassinato planeado, mas também não foi um acidente completamente inocente. Foi um gesto ambíguo, e Clarice deixa-nos precisamente presos nessa ambiguidade.


FELICIDADE CLANDESTINA

A filha do dono da livraria era gorda, baixa, com um busto enorme… e cruel: comia gomas e não emprestava os livros, que também não lia: tinha “As reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato, não o lia e prometeu-me que mo emprestaria ao fim do dia, mas nunca o fez. Todos os dias ia a casa dela, mas ela dizia sempre que o tinha emprestado exatamente antes de eu aparecer. Até que um fim de tarde fui lá e estava lá a mãe dela e disse que o livro nunca saiu de casa e que ela também não o leu. E obrigou-a a emprestar-mo. E eu demora a a abri-lo e sentia uma espécie de felicidade clandestina cada vez que o abria e lia.

GERTRUDES PEDE UM CONSELHO

Tuda, com 17 anos, vai a uma entrevista para pedir conselhos, um trabalho, um rumo, e sente-se nervosa, angustiada, insegura,… tinha escrito uma carta, a explicar o que pretendia. E a doutora que a recebe hesita, dá-lhe conselhos que a irritam, faz com que se sinta como se estivesse num duelo… cansa-a…

OBSESSÃO 

Cristina casa com Jaime e vive uma vida simples com ele e com os pais, até que adoece e vai passar dois meses a Belo Horizonte, para se curar. Na pensão onde se instala, conhece Daniel, que a domina e educa para ser complexa, forte e intensa… 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Quem lixou Isidro Castigo - João Paulo Videira


 Quem lixou Isidro Castigo?

Isidro Castigo caminha para a rotunda da Toyota. Ao chegar ao Mimmos, ouve, por uma janela aberta, um casal a fazer amor! Quem serão?

São um rapaz português de 15 anos chegado há 15 dias de Gaia, a Maputo, e a empregada negra, que o consola das saudades de Portugal.

Isidro encontrou a esposa, Mónica, na rotunda do Toyota e juntos veem desfile de 227 camiões do lixo, 35 camiões com contentores, 24 camiões com máquinas e peças, 27 camiões com catenárias e material elétrico: a forma como o gestor de projeto, Isidro Castigo resolveu o problema do lixo em Maputo.

Tardia foi violadíssima pelo gangue do lixo, os Ninja Mambe. Isidro ajudou-a a sobreviver.Matou um dos que a violaram, com uma garrafa partida, na goela, e tornou-se chefe deles. Dominavam a gigantesca lixeira em busca das sobras valiosas. Um dia ela entregou a liderança ao Ratinho e tornou-se apenas catadora de vidro.

O Senhor Florindo Souza, conhecido por Só Uma, por um camião lixo lhe ter cortado uma perna.

Tardia e Isidro fizeram-se amigos. Um dia apareceu um cartaz na lixeira: “REQUALIFICAÇÃO DO ATERRO SANITÁRIO DO HULENE” e depois constou que iam cercar a lixeira com um MURO.

Quando Isidro foi à escola já não era novo. Tornou-se guia de estrangeiros no mercado para comprarem fruta boa e contratou miúdos para o ajudarem. Quando fez a nona classe, o pai fez dele eletricista.

E tornou-se também canalizador. 

Vivia no Polana Caniço, deixara o Hulene, com a noiva Mónica N’zualo.


O PLANO é mostrado a Mónica e ela aprova e diz para pedir dinheiro a Mubarak Jamal.

Mubarak enriqueceu a arranjar telemóveis avariados. Tem 30 anos, vive com a segunda mulher (a primeira traiu-o com o melhor amigo dele) e duas filhas do primeiro casamento. Gostou do plano de Isidro.

E foram falar com Yazid e ele pediu a aprovação da mulher Faira Abdul e conseguiram investidores ricos para iniciar o projeto. Falaram com Fadil Hassan e com Rossana, a mulher deste.

O projeto é de erradicação do lixo de Maputo: recolher, processar e converter em energia cada quilo de lixo a um custo de 1 dólar. 

Fadil acede a que o seu colaborador sobrinho Mikhail reúna com Yazid para ver se o projeto é atrativo.


Sházia Ibrahimo vai ao hospital de Maputo visitar o filho Mahomed, diretor do hospital para ele ir falar com o pai. O pai fala-lhe de Fadil e marca um encontro entre eles. Mahomed pertence ao partido do poder e quer subir por mérito. Fadil diz-lhe que ele tem de apresentar propostas na área do ambiente e do lixo… O pai de Mahomed, sem ele o saber, promete a Fadil que financiará o projeto.

Fadil liga a Mikhail para se encontrar com Yazid.

O Neves, o Cunha e o Boeur fazem uma pescaria num iate do Cunha e combinam envolveu-se num projeto de 9 algarismos.

O Boeur é casado com a Geninha Pimenta, filha de portugueses construtores que foram para Port depois do 25 de abril e voltaram para Moçambique e fizeram fortuna. Têm 2 filhos: a jovem Ariana e Miguel, o rapaz de 15 anos de que se falou no início da história, que foi convencido pela empregada negra Elisa a ficar em Moçambique. O Boeur decide investir no projeto de Isidro, nem que para isso tenha de comprar um presidente.

O Cunha esteve só uns dias em Portugal e voltou a Moçambique no ramo das linhas e das instalações elétricas que estendeu até à África do Sul. Teve 3 filhos rapazes do primeiro casamento. A primeira mulher não quis vir com ele. A segunda deu-lhe 2 meninas e deixou-o quando ele começou a passear na rua com catorzinhas. Tem agora 4 ou 5 empresas geridas por ele e pelos filhos. E vai ser pai novamente. E decide alinhar no projeto do Isidro.

Nos churrascos do Neves padeiro cheio de dinheiro, vai muita gente e também a Funcionária das Finanças que diz aos homens com quem vai para a cama que os seus lençóis não são para estacionar; vai para a cama com Jacinto Chitembe professor de Engenharia Civil na Universidade. Mónica N’Zualo noiva de Isidro há de apresentar-lhe o futuro amante, um ex-professor da faculdade.

Um churrasco em que todos se reúnem para preparar a ascensão de Mahomed Ibrahimo a presidente da República para aprovar o projeto.

Vota Mamede: e chegamos ao desfile inicial do livro: para convencer o povo de que o investimento do Estado se justifica.


O avô do rapaz, com ciúmes por a empregadora Elisa não ceder aos seus avanços, esconde-se e apanha-a na cama com o rapaz depressivo.  O pai dele, o Boeur, despede-a. Como ela é irmã de Mónica N’Zualo, esta esbofeteia-o e diz que Isidro poderá parar o projeto. E a seguir vai queixar-se ao partido, que retira a candidatura de Mahomed Ibrahimo a presidente de Moçambique. O projeto fica em perigo!

E os camiões do desfile e todo o material foi vendido a um comprador estrangeiro e regressaram à Tanzânia.

Ernesto Samo, o professor primário, foi aconselhar-se com a Funcionária das Finanças, para saber o que fazer com o terreno que herdou, que já não vai servir para o projeto do lixo. Ela convenceu-o a montar lá um empreendimento de habitações e ficou com uma casa que arrenda.

Mubarak e Yazid dedicaram-se a outros negócios.

 O rapaz e Elisa mudaram-se para Nelspruit, na África do Sul. Ele convenceu a Funcionária das Finanças a ajudá-los neste reencontro.

Isidro vendeu o projeto ao Estado e continua a sonhar em resolver os problemas do lixo e acabar com a fome em Moçambique.

No final, Isidro contou a sua história a um português e este escreveu este livro.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Explicação dos Pássaros- António Lobo Antunes



EXPLICAÇÃO DOS PÁSSAROS (António Lobo Antunes)

Quadro de Ligações, Metáforas e Destino Final de Rui S.

PROTAGONISTA E O SEU FIM

 Rui S. - Depois de visitar a mãe no hospital, decide desistir de ir para o congresso em Tomar e vai com Marília para Aveiro, com a intenção de terminar a relação com ela.

Consumido pelo fracasso existencial, suicida-se deitado e preso na lama da Ria de Aveiro, transformando-se num dos pássaros empalhados da coleção do pai.

faca pode sugerir o instrumento físico do suicídio. Mas, sobretudo, funciona como símbolo da análise e da dissecação de Rui enquanto ser humano.

Rui sente-se observado, julgado e “explicado” pelos outros durante toda a vida — pelo pai, pelas mulheres, pela família, pelos colegas, pela sociedade. 

Tal como os pássaros são abertos para serem classificados, também ele sente que foi reduzido a um objeto de observação

O AMOR E AS RELAÇÕES ATUAIS

Marília (Namorada atual) - Exausta do silêncio sufocante de Rui na Pousada de Aveiro, toma a iniciativa de terminar a relação e vai-se embora, deixando-o no isolamento total.

O PASSADO MATRIMONIAL

 Tucha (Ex-mulher) - Cansada do vazio emocional de Rui, (casou com ele porque o amante casado a abandonou)termina o casamento, desferindo um golpe fatal no orgulho e na sanidade do protagonista. Rui depois disso continua a considerar que é dela que sente falta.

O NÚCLEO FAMILIAR CENTRAL

Personagem A: O Pai - Conflito central. Figura patriarcal, autoritária e caçador de pássaros, cujo julgamento esmaga a sanidade do protagonista.

Personagem B: A Mãe - Gatilho da tragédia. A sua agonia e morte por cancro no início do livro quebram o último laço afetivo de Rui, precipitando a sua fuga.

A EXTENSÃO DA FAMÍLIA (O CONFORMISMO BURGUÊS)

Personagem A: Ana e Maria Clara (Irmãs) - Representam a submissão e o conformismo às regras da alta burguesia exigidas pelo Pai, em total contraste com Rui.

Personagem B: Carlos (Cunhado) - Uma voz cínica na mente de Rui, que ridiculariza a sua aparente fraqueza e incapacidade perante a vida.

Personagem C: Os Filhos - Alienação. Frutos do casamento com Tucha, completamente distantes e alienados do mundo do pai após o divórcio.

ELEMENTOS METAFÓRICOS E SIMBÓLICOS

Personagem A: O Cego - A Morte / O Destino. Senta-se ao lado de Rui no momento final na lama da ria. Simboliza a escuridão e a indiferença cega do mundo.

Personagem B: O Circo - Metáfora do Fracasso. Imagem recorrente que transforma a vida de Rui, a política e a sua família num espetáculo grotesco de palhaços.

domingo, 10 de maio de 2026

O Manual dos Inquisidores - António Lobo Antunes


RELATO

O engenheiro protagonista vai ao tribunal em Lisboa para uma audiência de divórcio. Foi a filha mais velha que lhe arranjou o advogado caro.

A ama Titina, que se considerava mais mãe do Joãozinho, vê o pai e a mãe dele, Francisco e Isabel, constantemente a discutir violentamente, ele a acusá-la de ter um amante.

Na infância e juventude João viveu numa quinta em Setúbal, que agora está quase abandonada. E onde vive agora, contra a vontade da filha, que não compreende como ele consegue viver naquele pardieiro.

Aos 15 apanhou o pai a foder a cozinheira por trás no altar da capela e a filha do caseiro na manjedoura. A cozinheira é amante do pai desde que a mãe morreu.

A Sofia é a esposa, com quem se casou contra a vontade da mãe dela, por parecer um maltrapilho. Apresentou-a ao pai num dia em que ele estava a receber a mulher do sargento que estava de plantão. E ele disse que a Sofia parecia um cabide, um esqueleto, que ele nunca tinha percebido nada de vitelas.

Quando pela primeira vez foi com o pai conhecer a família de Sofia, foi acompanhado da viúva do farmacêutico e chegou atrasadíssimo. A mãe de Sofia não se queixou.

O pai, Francisco, foi secretário de Estado e o irmão Pedro da mãe da Sofia ter-lhe-á pedido ajuda um dia. De vez em quando, Salazar ia lá à quinta, com uma série de seguranças.

Engravidou a cozinheira. Foi o veterinário Luís, casado com uma mulher que já não suporta, que observava as miúdas à saída do liceu, que foi chamado pelo Sr ministro Francisco, pai de João, para fazer nascer o bebé, sem perigo.

A ama Titina livrou-se do bebé, com o conhecimento sofredor da cozinheira, a pedido do pai do João.

O bebé ficou com uma mulher, a Alice, em Alcácer, e o senhor ministro, já ela adolescente foi lá visitá-la, rodeado de seguranças, e apresentou-se como pai. A Alice viveu 30 anos em Angola com o marido que foi engolido por um crocodilo e voltou, sem poder ter filhos.

O bebé é a Paula, que quando se tornou mulher ia para a cama com o César, casado com a Adelaide. E o ministro mandou os capangas darem uma carga de porrada ao César por andar com a Paula.

Depois do casamento, João foi colocado a trabalhar num banco, com a condição de receber o ordenado e nunca lá pôr os pés.

O tio de Sofia, pai de Mafalda, expulsou o pai das empresas e substituiu-o na liderança. O pai tinha uma amante 40 anos mais nova. Tem 2 irmãos: o Gonçalo e o Miguel, que tal como Mafalda ficam chocados com o que ele fez ao pai. 

Em toda a sua vida, Sofia foi à quinta de Palmela, do pai do João, 2 ou 3 vezes, porque nunca gostou da forma como o pai do João olhava para ela e não gostava de animais e de desordem.

Depois de o João casar e sair da quinta de Palmela, o pai ficou alguns anos sozinho, com a governanta Titina a controlar a casa, e a querer ocupar o lugar da antiga senhora, mas sem que Francisco a veja nunca como possível amante. 

Já idoso, Francisco encontrou, em Lisboa, uma tal de Milá que tornou sua amante por ser muito parecida com a esposa desaparecida há dezenas de anos, a Isabel!

Francisco continuou a assessorar Salazar e depois Marcelo Caetano, despeitado por não ter sido ele a ser nomeado Presidente do Conselho por Américo Tomás. 

E quando chega o 25 de abril expulsa toda a gente da quinta, porque para ele toda a gente era comunista, incluindo Titina, que foi viver para a Misericórdia de Alverca e passou o resto dos dias a desejar recuperar a vida na quinta (que considerava ser sua, também)!

Quando chegou o 25 de abril, a sogra e as cunhadas de João fugiram para Espanha com os relógios de ouro e as poucas posses que conseguiram levar. E o pai fechou a quinta e deu-lhe uma pistola para impedirem os comunistas de entrar. Mas não vieram comunistas.

A filha do caseiro testemunha que quando o Senhor Doutor se armou para impedir os comunistas de entrar, expulsou todos os criados por achar que eram comunistas. Ela e os pais foram viver para o Barreiro. Quando, um mês depois, ela teve de voltar à quinta à procura de uns brincos de que se tinha esquecido, a quinta tinha sido saqueada e o senhor doutor tinha como que enlouquecido: estava na sala a tocar mal piano e virou-se para ela e disse que ela fosse chamar os seus amigos comunistas porque já não havia nada na quinta para eles levarem.

A Paula, filha da cozinheira, irmã do João, a seguir ao 25 de abril, foi perseguida e insultada dois anos, em Alcácer, por ser filha de um fascista. Agora só que algo da herança, mas não tem documentos que provem que é filha do ministro de Salazar.

E o banco faliu e o diretor do banco fugiu com todo o dinheiro para Joanesburgo e deixou uma série de documentos de despesas e dívidas assinados por ele, sem saber o que estava a assinar.

Quando a Sofia quis a separação, proibiram-no de entrar em casa da família dela. 

Ela nunca gostou muito dele, casou-se com ele sem saber bem porquê. Distrai-se a comprar objetos e louça.

Vive sozinho na quinta depois da separação a tentar construir um barco para um dia fugir dali. 

Nunca teve mãe, não sabe qual das amantes do pai é a sua mãe e tem uma irmã, Paula, filha da cozinheira, que também reclama a herança, o pouco que resta.

O pai está num lar, com um AVC.

Agora o juiz decide o divórcio e cede à pretensão de Sofia: uma hipoteca da quinta do pai dele, onde ele vive, e de onde terá de sair quando ela quiser levantar a hipoteca.

E é despejado da quinta para o tio de Sofia e a família dela fazerem lá um empreendimento.

O tio de Sofia, que lhe passa muitas vezes a mão pelo braço, esteve preso, mas na cadeia recuperou o dinheiro todo, graças às assinaturas de João, que não sabia o que estava a assinar. E o João acabou por ficar com as culpas do desaparecimento do dinheiro do banco. E sem a quinta, que passou para a Sofia e acabou nas mãos do tio de Sofia.

A urbanização vai começar. O funeral do pai terminou. A mulher do tio da Sofia tem uma depressão.

Lina, divorciada do Adérito, trabalha na Misericórdia de Alverca e conheceu o João, que lá vai às terças-feiras para visitar a mãe Isabel. E há uma tal de Albertina (Titina) que delira e diz aí João que está pronta para voltar com ele para a quinta de Palmela.

E o João agora vive em Odivelas, em casa da Lina, com a filha dela.

E a Paula, com 39 anos, irmã do João quer parte da herança, mas o João ficou sem nada e ela vai à clínica Renascer para o pai assinar um documento que prove que ela é filha dele, mas ele está incapaz de o fazer, por causa do AVC.

E a Paula, em Alcácer, desiste de tentar receber algo da herança e de chatear o João. Trabalha com a Filomena para um solicitador

A Alice, que a criou, enforcou-se no lustre da sala. 

Romeu, o narrador, é um atrasado mental que faz sexo uma vez com a Paula, sem que se aperceba do que faz.

O narrador e o pai de João e Paula, o Sr. Ministro, na clínica, com a AVC a contar como se casou com a Isabel e o motivo pelo qual ela o abandonou!!

E o pai da Paula e do João morreu e encontraram-se no funeral.

E a Paula está no hospital, grávida: poderia ser do César que a Paula gosta de receber na cama, quando a mulher dele, a Adelaide, se ausenta, mas não, provavelmente é do Romeu que a violou, sem ela conseguir sair debaixo dele, um dia em casa dela.


A obra "O Manual dos Inquisidores", do escritor português António Lobo Antunes, utiliza o título de forma profundamente irónica e metafórica para explorar a anatomia da ditadura do Estado Novo em Portugal.

Aqui estão os principais pontos de ligação entre o título e o conteúdo do livro:

1. A Referência Histórica

O título remete diretamente ao Directorium Inquisitorum (1376), um manual real escrito por Nicolau Aymerich para orientar os inquisidores da Igreja Católica na identificação, interrogatório e punição de heréticos. Lobo Antunes transpõe essa lógica para o século XX, substituindo a inquisição religiosa pela política e social.

2. A Estrutura do Poder Ditatorial

A obra não foca apenas na figura do ditador (Salazar), mas sim na engrenagem que sustenta o regime. O "manual" refere-se à metodologia do medo:

A PIDE: A polícia política atua como os modernos inquisidores, vigiando, torturando e silenciando vozes dissonantes.

A Vigilância Doméstica: O título sugere que o espírito da inquisição infiltrou-se nas casas, onde familiares e criados vigiam uns aos outros.

3. O Patriarca como Inquisidor

O protagonista central, o Ministro de Salazar, personifica o inquisidor. Ele exerce um poder absoluto e arbitrário, não apenas sobre a nação, mas sobre o seu círculo íntimo. O livro mostra como esse poder "manual" de controlar vidas acaba por destruir a própria família do Ministro, resultando em solidão e decadência física.

4. Ironia e Desconstrução

Diferente de um manual técnico que é organizado e lógico, o romance de Lobo Antunes é fragmentado, polifónico e caótico. O título é uma ironia:

• Enquanto um manual serve para ensinar a "ordem", o livro descreve a desordem mental e moral de quem exerce o poder.

• O livro funciona como um "contra-manual", expondo a podridão e a decrepitude por trás da fachada de autoridade e retidão do regime.









quarta-feira, 29 de abril de 2026

Catarina ou o sabor da maçã - António Alçada Baptista

 


Nesta interessante análise dos comportamentos humanos que informa toda a trama novelesca, o narrador desdobra-se em observador, distanciando-se do vivido, e em participante, envolvendo-se, para melhor compreender. Assim nos dá a conhecer Catarina, doce e adorável mulher que no entanto abriga em si uma perigosa atracção pelo abismo. 

Temos dificuldade em perceber nos outros aquilo que não somos capazes de viver.

A ação centra-se no encontro e na relação entre uma mulher fascinante, Catarina, e o homem que narra ou observa a história. A presença dela desperta nele paixão, desejo e uma profunda inquietação emocional. À medida que a relação evolui, surgem momentos de aproximação e afastamento, marcados por dúvidas, ciúmes e incompreensão. Catarina aparece como uma figura livre e difícil de prender, o que aumenta o conflito interior do protagonista. Mais do que acontecimentos exteriores, o romance acompanha a transformação psicológica das personagens. A intriga desenvolve-se em torno da tentativa de compreender Catarina e o verdadeiro sentido do amor.