sexta-feira, 29 de maio de 2026

Explicação dos Pássaros- António Lobo Antunes



EXPLICAÇÃO DOS PÁSSAROS (António Lobo Antunes)

Quadro de Ligações, Metáforas e Destino Final de Rui S.

PROTAGONISTA E O SEU FIM

 Rui S. - Depois de visitar a mãe no hospital, decide desistir de ir para o congresso em Tomar e vai com Marília para Aveiro, com a intenção de terminar a relação com ela.

Consumido pelo fracasso existencial, suicida-se deitado e preso na lama da Ria de Aveiro, transformando-se num dos pássaros empalhados da coleção do pai.

faca pode sugerir o instrumento físico do suicídio. Mas, sobretudo, funciona como símbolo da análise e da dissecação de Rui enquanto ser humano.

Rui sente-se observado, julgado e “explicado” pelos outros durante toda a vida — pelo pai, pelas mulheres, pela família, pelos colegas, pela sociedade. 

Tal como os pássaros são abertos para serem classificados, também ele sente que foi reduzido a um objeto de observação

O AMOR E AS RELAÇÕES ATUAIS

Marília (Namorada atual) - Exausta do silêncio sufocante de Rui na Pousada de Aveiro, toma a iniciativa de terminar a relação e vai-se embora, deixando-o no isolamento total.

O PASSADO MATRIMONIAL

 Tucha (Ex-mulher) - Cansada do vazio emocional de Rui, (casou com ele porque o amante casado a abandonou)termina o casamento, desferindo um golpe fatal no orgulho e na sanidade do protagonista. Rui depois disso continua a considerar que é dela que sente falta.

O NÚCLEO FAMILIAR CENTRAL

Personagem A: O Pai - Conflito central. Figura patriarcal, autoritária e caçador de pássaros, cujo julgamento esmaga a sanidade do protagonista.

Personagem B: A Mãe - Gatilho da tragédia. A sua agonia e morte por cancro no início do livro quebram o último laço afetivo de Rui, precipitando a sua fuga.

A EXTENSÃO DA FAMÍLIA (O CONFORMISMO BURGUÊS)

Personagem A: Ana e Maria Clara (Irmãs) - Representam a submissão e o conformismo às regras da alta burguesia exigidas pelo Pai, em total contraste com Rui.

Personagem B: Carlos (Cunhado) - Uma voz cínica na mente de Rui, que ridiculariza a sua aparente fraqueza e incapacidade perante a vida.

Personagem C: Os Filhos - Alienação. Frutos do casamento com Tucha, completamente distantes e alienados do mundo do pai após o divórcio.

ELEMENTOS METAFÓRICOS E SIMBÓLICOS

Personagem A: O Cego - A Morte / O Destino. Senta-se ao lado de Rui no momento final na lama da ria. Simboliza a escuridão e a indiferença cega do mundo.

Personagem B: O Circo - Metáfora do Fracasso. Imagem recorrente que transforma a vida de Rui, a política e a sua família num espetáculo grotesco de palhaços.

domingo, 10 de maio de 2026

O Manual dos Inquisidores - António Lobo Antunes


RELATO

O engenheiro protagonista vai ao tribunal em Lisboa para uma audiência de divórcio. Foi a filha mais velha que lhe arranjou o advogado caro.

A ama Titina, que se considerava mais mãe do Joãozinho, vê o pai e a mãe dele, Francisco e Isabel, constantemente a discutir violentamente, ele a acusá-la de ter um amante.

Na infância e juventude João viveu numa quinta em Setúbal, que agora está quase abandonada. E onde vive agora, contra a vontade da filha, que não compreende como ele consegue viver naquele pardieiro.

Aos 15 apanhou o pai a foder a cozinheira por trás no altar da capela e a filha do caseiro na manjedoura. A cozinheira é amante do pai desde que a mãe morreu.

A Sofia é a esposa, com quem se casou contra a vontade da mãe dela, por parecer um maltrapilho. Apresentou-a ao pai num dia em que ele estava a receber a mulher do sargento que estava de plantão. E ele disse que a Sofia parecia um cabide, um esqueleto, que ele nunca tinha percebido nada de vitelas.

Quando pela primeira vez foi com o pai conhecer a família de Sofia, foi acompanhado da viúva do farmacêutico e chegou atrasadíssimo. A mãe de Sofia não se queixou.

O pai, Francisco, foi secretário de Estado e o irmão Pedro da mãe da Sofia ter-lhe-á pedido ajuda um dia. De vez em quando, Salazar ia lá à quinta, com uma série de seguranças.

Engravidou a cozinheira. Foi o veterinário Luís, casado com uma mulher que já não suporta, que observava as miúdas à saída do liceu, que foi chamado pelo Sr ministro Francisco, pai de João, para fazer nascer o bebé, sem perigo.

A ama Titina livrou-se do bebé, com o conhecimento sofredor da cozinheira, a pedido do pai do João.

O bebé ficou com uma mulher, a Alice, em Alcácer, e o senhor ministro, já ela adolescente foi lá visitá-la, rodeado de seguranças, e apresentou-se como pai. A Alice viveu 30 anos em Angola com o marido que foi engolido por um crocodilo e voltou, sem poder ter filhos.

O bebé é a Paula, que quando se tornou mulher ia para a cama com o César, casado com a Adelaide. E o ministro mandou os capangas darem uma carga de porrada ao César por andar com a Paula.

Depois do casamento, João foi colocado a trabalhar num banco, com a condição de receber o ordenado e nunca lá pôr os pés.

O tio de Sofia, pai de Mafalda, expulsou o pai das empresas e substituiu-o na liderança. O pai tinha uma amante 40 anos mais nova. Tem 2 irmãos: o Gonçalo e o Miguel, que tal como Mafalda ficam chocados com o que ele fez ao pai. 

Em toda a sua vida, Sofia foi à quinta de Palmela, do pai do João, 2 ou 3 vezes, porque nunca gostou da forma como o pai do João olhava para ela e não gostava de animais e de desordem.

Depois de o João casar e sair da quinta de Palmela, o pai ficou alguns anos sozinho, com a governanta Titina a controlar a casa, e a querer ocupar o lugar da antiga senhora, mas sem que Francisco a veja nunca como possível amante. 

Já idoso, Francisco encontrou, em Lisboa, uma tal de Milá que tornou sua amante por ser muito parecida com a esposa desaparecida há dezenas de anos, a Isabel!

Francisco continuou a assessorar Salazar e depois Marcelo Caetano, despeitado por não ter sido ele a ser nomeado Presidente do Conselho por Américo Tomás. 

E quando chega o 25 de abril expulsa toda a gente da quinta, porque para ele toda a gente era comunista, incluindo Titina, que foi viver para a Misericórdia de Alverca e passou o resto dos dias a desejar recuperar a vida na quinta (que considerava ser sua, também)!

Quando chegou o 25 de abril, a sogra e as cunhadas de João fugiram para Espanha com os relógios de ouro e as poucas posses que conseguiram levar. E o pai fechou a quinta e deu-lhe uma pistola para impedirem os comunistas de entrar. Mas não vieram comunistas.

A filha do caseiro testemunha que quando o Senhor Doutor se armou para impedir os comunistas de entrar, expulsou todos os criados por achar que eram comunistas. Ela e os pais foram viver para o Barreiro. Quando, um mês depois, ela teve de voltar à quinta à procura de uns brincos de que se tinha esquecido, a quinta tinha sido saqueada e o senhor doutor tinha como que enlouquecido: estava na sala a tocar mal piano e virou-se para ela e disse que ela fosse chamar os seus amigos comunistas porque já não havia nada na quinta para eles levarem.

A Paula, filha da cozinheira, irmã do João, a seguir ao 25 de abril, foi perseguida e insultada dois anos, em Alcácer, por ser filha de um fascista. Agora só que algo da herança, mas não tem documentos que provem que é filha do ministro de Salazar.

E o banco faliu e o diretor do banco fugiu com todo o dinheiro para Joanesburgo e deixou uma série de documentos de despesas e dívidas assinados por ele, sem saber o que estava a assinar.

Quando a Sofia quis a separação, proibiram-no de entrar em casa da família dela. 

Ela nunca gostou muito dele, casou-se com ele sem saber bem porquê. Distrai-se a comprar objetos e louça.

Vive sozinho na quinta depois da separação a tentar construir um barco para um dia fugir dali. 

Nunca teve mãe, não sabe qual das amantes do pai é a sua mãe e tem uma irmã, Paula, filha da cozinheira, que também reclama a herança, o pouco que resta.

O pai está num lar, com um AVC.

Agora o juiz decide o divórcio e cede à pretensão de Sofia: uma hipoteca da quinta do pai dele, onde ele vive, e de onde terá de sair quando ela quiser levantar a hipoteca.

E é despejado da quinta para o tio de Sofia e a família dela fazerem lá um empreendimento.

O tio de Sofia, que lhe passa muitas vezes a mão pelo braço, esteve preso, mas na cadeia recuperou o dinheiro todo, graças às assinaturas de João, que não sabia o que estava a assinar. E o João acabou por ficar com as culpas do desaparecimento do dinheiro do banco. E sem a quinta, que passou para a Sofia e acabou nas mãos do tio de Sofia.

A urbanização vai começar. O funeral do pai terminou. A mulher do tio da Sofia tem uma depressão.

Lina, divorciada do Adérito, trabalha na Misericórdia de Alverca e conheceu o João, que lá vai às terças-feiras para visitar a mãe Isabel. E há uma tal de Albertina (Titina) que delira e diz aí João que está pronta para voltar com ele para a quinta de Palmela.

E o João agora vive em Odivelas, em casa da Lina, com a filha dela.

E a Paula, com 39 anos, irmã do João quer parte da herança, mas o João ficou sem nada e ela vai à clínica Renascer para o pai assinar um documento que prove que ela é filha dele, mas ele está incapaz de o fazer, por causa do AVC.

E a Paula, em Alcácer, desiste de tentar receber algo da herança e de chatear o João. Trabalha com a Filomena para um solicitador

A Alice, que a criou, enforcou-se no lustre da sala. 

Romeu, o narrador, é um atrasado mental que faz sexo uma vez com a Paula, sem que se aperceba do que faz.

O narrador e o pai de João e Paula, o Sr. Ministro, na clínica, com a AVC a contar como se casou com a Isabel e o motivo pelo qual ela o abandonou!!

E o pai da Paula e do João morreu e encontraram-se no funeral.

E a Paula está no hospital, grávida: poderia ser do César que a Paula gosta de receber na cama, quando a mulher dele, a Adelaide, se ausenta, mas não, provavelmente é do Romeu que a violou, sem ela conseguir sair debaixo dele, um dia em casa dela.


A obra "O Manual dos Inquisidores", do escritor português António Lobo Antunes, utiliza o título de forma profundamente irónica e metafórica para explorar a anatomia da ditadura do Estado Novo em Portugal.

Aqui estão os principais pontos de ligação entre o título e o conteúdo do livro:

1. A Referência Histórica

O título remete diretamente ao Directorium Inquisitorum (1376), um manual real escrito por Nicolau Aymerich para orientar os inquisidores da Igreja Católica na identificação, interrogatório e punição de heréticos. Lobo Antunes transpõe essa lógica para o século XX, substituindo a inquisição religiosa pela política e social.

2. A Estrutura do Poder Ditatorial

A obra não foca apenas na figura do ditador (Salazar), mas sim na engrenagem que sustenta o regime. O "manual" refere-se à metodologia do medo:

A PIDE: A polícia política atua como os modernos inquisidores, vigiando, torturando e silenciando vozes dissonantes.

A Vigilância Doméstica: O título sugere que o espírito da inquisição infiltrou-se nas casas, onde familiares e criados vigiam uns aos outros.

3. O Patriarca como Inquisidor

O protagonista central, o Ministro de Salazar, personifica o inquisidor. Ele exerce um poder absoluto e arbitrário, não apenas sobre a nação, mas sobre o seu círculo íntimo. O livro mostra como esse poder "manual" de controlar vidas acaba por destruir a própria família do Ministro, resultando em solidão e decadência física.

4. Ironia e Desconstrução

Diferente de um manual técnico que é organizado e lógico, o romance de Lobo Antunes é fragmentado, polifónico e caótico. O título é uma ironia:

• Enquanto um manual serve para ensinar a "ordem", o livro descreve a desordem mental e moral de quem exerce o poder.

• O livro funciona como um "contra-manual", expondo a podridão e a decrepitude por trás da fachada de autoridade e retidão do regime.









quarta-feira, 29 de abril de 2026

Catarina ou o sabor da maçã - António Alçada Baptista

 


Nesta interessante análise dos comportamentos humanos que informa toda a trama novelesca, o narrador desdobra-se em observador, distanciando-se do vivido, e em participante, envolvendo-se, para melhor compreender. Assim nos dá a conhecer Catarina, doce e adorável mulher que no entanto abriga em si uma perigosa atracção pelo abismo. 

Temos dificuldade em perceber nos outros aquilo que não somos capazes de viver.

A ação centra-se no encontro e na relação entre uma mulher fascinante, Catarina, e o homem que narra ou observa a história. A presença dela desperta nele paixão, desejo e uma profunda inquietação emocional. À medida que a relação evolui, surgem momentos de aproximação e afastamento, marcados por dúvidas, ciúmes e incompreensão. Catarina aparece como uma figura livre e difícil de prender, o que aumenta o conflito interior do protagonista. Mais do que acontecimentos exteriores, o romance acompanha a transformação psicológica das personagens. A intriga desenvolve-se em torno da tentativa de compreender Catarina e o verdadeiro sentido do amor. 

sábado, 25 de abril de 2026

O herói das mulheres - Adolfo Bioy Casares

 



As histórias que compõem O Herói das Mulheres são, de uma forma ou de outra, narrações de vidas de pessoas que se sentem inconformadas com o destino que lhes calhou em sorte: 

DA FORMA DO MUNDO: 1951: Correa, um estudante que tem de se preparar para um exame de Direito, decide ir concentrar-se para uma ilha isolada; no barco, encontra um enigmático e aventureiro contrabandista, que o leva, por um misterioso túnel nas árvores, a uma cidade-jardim, a que, por estrada ou por rio, fica a 400 km. Aí apaixona-se por Cecília, abandonada pelo marido. Envolve-se em situações duvidosas, apanha uma sova, é obrigado a mostrar onde fica o túnel (já não consegue) e acaba por voltar para Buenos Aires, sem ter estudado e sem voltar a ver Cecília. Forma-se e torna-se funcionário público.

OUTRA ESPERANÇA: o empregado de um sanatório perdido nas pampas que descobre que a dor dos doentes pode ser usada para produzir energia eléctrica: ele próprio acaba por sentir dor e contribuir…

UMA GUERRA PERDIDA: o homem que vai passando de mulher para mulher, mas todas elas o trocam por um técnico de fixação de dunas.

O DESCONHECIDO ATRAI A JUVENTUDE: Luisito Corias aspira viver em Rosario e trabalhar para Don Leopoldo Medina, a cuidar dos cavalos e do gado. A seguir quis ser contratado com o vilão Bilardo, que o encarregou de matar Don Leopoldo. Acaba por não conseguir matar ninguém e vai, enviado por Bilardo, para Rosario, para entregar uma carta (em branco) a um bandido, que o mataria, se ele não tivesse a sorte de estar a viver em casa da tia Regina e de está o proteger, com o seu misticismo. Acaba por se casar com a filha da dona da farmácia, uma jovem matrona, engraçada e robusta.

A PASSAGEIRA DE 1.ª CLASSE: que inveja a vivacidade dos que viajam em 2.ª classe.

O JARDIM DOS SONHOS: um jornalista, num hotel, ao lado de um jardim, que é avisado que a polícia o vai prender por ter escrito textos humorísticos sobre o governo. No jardim, encontra uma mulher, hospedeira de bordo, por quem se apaixona e em cujo voo foge: a Luz.

UMA PORTA ABRE-SE: Almeyda, um homem que escapa do suicídio iminente porque aceita uma proposta de um tal doutor Sotto, de dormir durante 100 anos, tal como terá feito Carmen, uma mulher muito baixa mas bonequinha.

O HERÓI DAS MULHERES: conto em que o engenheiro Lartigue, Don Nicolás Verona e a sua mulher Laura vão para uma casa abandonada no meio da selva em busca de um tigre que não sabem se existe: a casa pertence ao fantasma Bruno: o herói dos homens não é muitas vezes o herói das mulheres. O tigre apareceu? Quem levou Laura?

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Pés de Barro - Nuno Duarte


Um retrato poderoso e simbólico do fim de um regime, uma história de dificuldades e esperança que bem podia ter acontecido… 

Estamos em 1962, num país orgulhosamente só, e vem aí a construção da primeira ponte suspensa sobre o Tejo, para a qual vão ser precisos cerca de três mil homens. A obra irá mudar para sempre a paisagem da capital, muito especialmente para quem vive em Alcântara, como é agora o caso de Victor Tirapicos, instalado na casa dos tios depois de ter envergonhado o pai com dois anos de cadeia só por ter roubado pão e batatas para fintar a miséria. 

É, de resto, pelos olhos deste serralheiro de vinte e dois anos que veremos a ponte erguer-se um pouco mais todos os dias e, ali mesmo ao lado, partirem os navios cheios de rapazes para a guerra do Ultramar, donde muitos acabarão por voltar estropiados, endoidecidos ou mortos. 

Porém, apesar de a modernidade parecer estar a matar a vida e os costumes do pátio operário onde convivem (amigavelmente ou nem tanto) uma série de figuras inesquecíveis – entre elas o mestre sapateiro que faz as chuteiras para o Atlético Clube de Portugal e um velho culto que aprende a desler –, Victor Tirapicos encontra o amor de uma rapariga que é muda mas consegue escutar o planeta, pressentindo a derrocada da estação do Cais do Sodré e outra catástrofe ainda maior, que se calhar tem pés de barro e só acontece neste romance, mas bem podia ter acontecido. 

«UM RETRATO MUITO DINÂMICO E VIVO DO PORTUGAL DOS ANOS 1960.» 

Manuel Alegre, Presidente do Júri

sábado, 14 de março de 2026

Desvio - Ana Pessoa


A principal mensagem de "Desvio", escrita por Ana Pessoa e ilustrada por Bernardo P. Carvalho, centra-se na crise de identidade e na transição incerta para a vida adulta.

A obra não oferece respostas fáceis, mas foca-se na beleza e na angústia de "estar perdido" antes de se encontrar um caminho. 

"Desvio" é, em última análise, um abraço à hesitação. É um lembrete de que, às vezes, é preciso sair da estrada principal para perceber quem é que está realmente a conduzir.

Aqui estão os pontos fundamentais dessa mensagem:

1. O Direito ao "Não Saber"

Numa sociedade que exige decisões rápidas e percursos retilíneos, a narrativa defende o desvio como uma etapa legítima. O protagonista, Miguel, vive aquele limbo pós-secundário onde a pressão para "ser alguém" confronta o desejo de simplesmente "estar". A mensagem central é que desviar-se do caminho esperado não é um fracasso, mas uma parte necessária da autodescoberta.

2. A Construção da Identidade

A novela gráfica explora como a nossa identidade é uma colagem de memórias, influências e pequenos momentos banais. A mensagem sugere que:

• Não somos apenas as nossas notas ou a nossa futura profissão.

• Somos feitos das músicas que ouvimos, das conversas de café e dos silêncios partilhados.

3. A Observação do Quotidiano

Ana Pessoa utiliza o desvio do protagonista para validar a pausa. A obra convida o leitor a olhar para os detalhes do dia a dia que normalmente ignoramos quando estamos com pressa de chegar a algum lado. Há uma exaltação do momento presente, mesmo que esse presente pareça estagnado.

terça-feira, 10 de março de 2026

Vergonha - Salman Rushdie

 Vergonha - Salman Rushdie



I FUGA DA MÃE-PÁTRIA

1 O MONTA-CARGAS

O velho Shakil morre e deixa apenas a propriedade, nos limites do Bazaar e do Cannt, às 3 filhas (Chhunny, Munnee e Bunny). Elas têm um filho comum: Omar Khayyam. Isolam-se e o único acesso é um elevador monta-cargas. 20 anos depois nasce também Babar Shakil.

2 UM COLAR DE SAPATOS

Aos 12 anos Omar exige às mães que o deixem ir à escola. O professor Rodrigues apresenta-lhe Farah a rapariga que Omar já tinha desejado por um telescópio. Os colegas de Omar chamam-lhe demónio ou filho do diabo.

3 GELO EM FUSÃO 

Omar era gordo e gozado pelos colegas, mas não pareceu importar-se: isolou-se, como sempre viveu, e tornou-se voyeur! Procurou o pai entre os brancos, mas inutilmente. Dedicou a sua atenção ao professor Rodrigues. Este quis que ele fosse médico!

As mães quiseram saber por ele como era a vida no exterior. E decidiram repetir a fecundação de um filho! 

Omar pede namoro a Farah e ela diz que não, que ele é feio! Ele pergunta-lhe se ela gostaria de ser hipnotizada! Ela diz que sim e ele provavelmente engravida-a! 

II OS CONTENDORES

4 ATRÁS DO ECRà

A história de Mahmoud-Mulher, assim chamado por a sua esposa ter morrido e ele ter sido mãe de Bilquis, a quem nada deixou, porque o seu Império (sala de cinema) explodiu por ele passar filmes que desagradavam a algumas pessoas. E ela tanto queria ser rainha!

Bilquis casou com Raza Hyder: nasceu Sufiya Zinobia, que se casou muito nova com o médico gorducho Omar Khayyan Shakil, e gostava de mudar os móveis de sítio, por traquinice.

5 O FALSO MILAGRE

Bilquis casada com Raza, vive na casa da família numerosa dele. Os 40 homens visitam as esposas de noite no escuro, no quarto onde elas dormem todas juntas, cada uma na sua cama. Raza dorme no quartel provisório. Rani dúvida que, no escuro, todas as mulheres se unam aos maridos certos!

Rani engravida e Reza entusiasmado conquista o Aansu-Ki-Wadi, o lendário Vale de Lágrimas (monte gelado que Iskander Harappa comprou para converter em futura estância turística e pista de gelo para os estrangeiros) e ganha o título de general.

Rani Humayun, de 20 anos, amiga de Bilquis, casa com Iskander, de 25 anos, gigante, que tem como amigo Omar, o médico gordo, de 30 anos. 

Omar tem fama de excelente médico, mas de péssimo ser humano, sem vergonha, e que nem um cavalo lhe aguenta com o peso.

Mataram o primeiro-ministro.

Bilquis perde o bebé e é expulsa do quarto conjunto da família. Rani tem uma menina. E a Bilquis nasce Sufyia!

6 QUESTÕES DE HONRA

Raza Hyder vai para o Vale da Agulha proteger campos de petróleo que os indígenas não querem que o Estado explore (violaram e mataram os primeiros técnicos que para lá foram). No comboio vai uma equipa de cinema. Um dos atores dirige-se sedutor a Bilquis. Sufyia tem 3 meses.

Rani Harappa está na casa do marido, em Mohenjo, desolada por o marido estar ausente, com Omar Shakil. As criadas parecem não a respeitar. Fala com Bilquis ao telefone. Mir, primo de Iskander aparece furioso e saqueia a casa em vingança por ele lhe ter roubado a mulher mais bela que ele tinha. Bilquis diz a Rani que Iskander passa o tempo na cidade envolvido com mulheres.

Raza

Sufyia teve de ser medicada e a medicação provocou-lhe um atraso mental. Bilquis sente-se culpada.

Bilquis arranja um amante: o diretor de cinema Sindbad, que Raza esquartejou.

Bilquis tem outra filha: Boas Novas.

III VERGONHA, BOAS NOVAS E A VIRGEM

7 RUBOR

Iskander Harappa decide deixar de ser acompanhado por Omar. 

Arjumand Harappa, filha dele, tem 13 anos e tenta impedir que se note que está a ficar mulher: quer ter os privilégios de ser um homem e não uma mulher.

Omar é o principal médico do hospital, um imunologista célebre que participou em congressos nas USA, mas também um quarentão gordo, feio, lúbrico e libertino. Usa uma bengala-espada que Isky lhe ofereceu. Dorme 2 horas e meia por noite. Continua a seduzir mulheres brancas, com os seus dons hipnóticos.

Omar nunca voltou a Nishapur, a casa das 3 mães: volta agora porque lhe morreu o irmão Babar, com 22 anos, morto a tiro por… 

Babar contou nos seus cadernos que viveu 20 anos confinado e obrigado  pelas mães a venerar o irmão, que sustentava a casa. Fugiu e juntou-se aos separatistas nas Montanhas Impossíveis . Foi morto com 18 balas pelos soldados de Raza Hyder e por este. E, segundo as mães, transformou-se em anjo.

Omar sentiu vergonha por ter sido rejeitado por Iskander. Mas 2 dias depois apaixonou-se.

Rósea decidiu fazer criação de perus num terreno (alagado 2 dias por ano) ao lado da casa de Bilquis e de Raza (seu ex-amante). Sufyia durante a noite, talvez sonâmbula, foi lá e matou-os todos (218). Bilquis cortou-lhe o cabelo curto. Com 12 anos, ficou ainda mais atrasada mental, doente e cheia de chagas e foi levada para o hospital. E Omar apaixonou-se por ela.

8 A BELA E O MONSTRO

7 anos depois: Raza já não está no governo, foi despromovido. Iskander é presidente de um partido que poderá vir a subir ao poder. A filha de Raza, Boas Novas, irmã de Sufyia vai casar, com 17 anos, com Harun, filho de Mirinho Harappa, sobrinho de Iskander. Mas a prima, Arjumand, agora com 20 anos, ainda maria-rapaz, gosta dele, por ele ser muito parecido como pai dela, Iskander.

Haveed “Boas Novas” apaixona-se por Talvar, um cavaleiro do polo indiano, recusa casar com Harun e é um escândalo, mas acaba por casar com Talvar. Sufyia morde o pescoço de Talvar e este deixa de jogar polo equestre.

Iskander é eleito primeiro-ministro, elege Talvar como chefe da polícia e Raza Hyder como general comandante do exército.

Omar casa com Sufyia.

IV NO SÉCULO XV

9 ALEXANDRE O GRANDE

Em 6 anos, Iskander vai da glória à desgraça e é morto e enforcado a seguir. A mulher Rani e a filha Arjumand ficam vigiadas em casa por Ijazz. Arjumand provoca os seus soldados e a ele. Rani bordou 18 xailes de lã e em cada um deles narra as atrocidades cometidas por Iskander.

10 A MULHER VELADA

O cognome de Sufyia é Vergonha. Tem 21 anos, corpo normal de mulher, mas mente de 7 anos. A sua mãe Bilquis também era meio louca. Raza o pai gosta dela e exige ao agora marido Omar que não a retire de casa dos pais sem autorização.

O general Raza Hyder, quando foi nomeado pelo primeiro-ministro Iskander, tinha como o major Shuja como ajudante de campo. O seu exército era derrotado em todos os desportos, porque segundo Shuja os soldados queriam o exército no poder, em vez dos políticos. E Raza como político lutou com mais de 100 soldados e perdeu de propõem todos eles, para eles recuperarem o orgulho.

Omar foi impedido pela ayah Shahbanou de dormir com Sufyia e deitava-se ela todas as noites com ele. Sufyia não compreende porquê e para quê tem um marido! E sente-se um monstro a crescer dentro dela!

Shahbanou engravida e é expulsa de casa e aborta. Sufyia não percebe porque o marido pôs o bebé dentro da ayah e não dentro dela. Vestida de burka sai de noite e é possuída por 4 adolescentes. Aparecem 4 adolescentes decepados. Sufyia fez-lhes o mesmo que fez aos perus. 

11 MONÓLOGO DE UM ENFORCADO

O golpe de estado que depôs Iskander e levou Raza ao poder e instituiu o ódio entre as famílias. Iskander é condenado e insulta Shuja tão violentamente que este o mata com um tiro. E a seguir enforca-o. Mas Reza ouve depois a voz do enforcado e injuriá-lo.

Raza foi informar Omar dos crimes de Sufyia. Prendem-na no sótão sótão, sedada, acorrentada, depois de ela quase ter matado Omar. Mas ela foge, dois anos passados. Sufyia continua ser a personificação da vergonha dos dirigentes políticos paquistaneses, a que arranca a cabeça aos homens paquistaneses.

12 ESTABILIDADE

Iskander (Ali Bhutto, presidente do Paquistão) é comparada a Danton e Reza ao radical do Terror, Robespierre. Danton foi sacrificado pelo até então parceiro Robespierre. Raza (General Zia-ul-Haq, que sucedeu a Bhutto) punia os criminosos cortando-lhes os dedos e proibiu o álcool.

Sufyia reapareceu e cometeu 1001 atrocidades!!

Está a chegar o fim de Raza!

V O DIA DO JUÍZO

Raza, Bilquis e Omar fogem do país e refugiam-se em casa das 3 mães de Omar: chegou a hora da vingança contra Raza, por ele ter ordenado a morte de Babar, irmão de Omar? Mas são as 3 mães que matam Raza e Bilquis. E Omar é julgado e Talvar mata-o com um tiro.


Benazir Bhutto é Arjumand, que sucede a Raza!!