segunda-feira, 26 de julho de 2021

Viagens na Minha Terra - Almeida Garrett



O tom perfeito da sociedade inglesa inventou uma palavra que não há nem pode haver noutras línguas enquanto a civilização as não apurar. To flirt é um verbo inocente que se conjuga ali entre os dois sexos, e não significa namorar — palavra grossa e absurda que eu detesto —, não significa «fazer a corte»; é mais do que estar amável, é menos do que galantear, não obriga a nada, não tem consequências, começa-se, acaba-se, interrompe-se, adia-se, continua-se ou descontinua-se à vontade e sem comprometimento.

Eu flartava, nós flartávamos, elas flartavam...

E não há mais doce nem mais suave entretenimento de espírito, do que o flartar com uma elegante e graciosa menina inglesa; com duas é prazer angélico, e com três é divino.

Para quem nasceu naquilo, não é perigoso; para mim degenerou, breve, aquela plácida sensação em mais profundo sentimento.

Veio a admiração primeiro.

E como as eu admirava todas três as minhas gentis fascinadoras!

E elas conheciam-no, riam, folgavam e estavam encantadas de me encantar.


Fizeram nascer os desejos! Julguei-me perdido, e quis fugir.

Não me deixaram e zombaram de mim, da ardência do meu sangue espanhol, da veemência das minhas sensações...

Em breve eu amava perdidamente uma delas — queria muito às outras duas; mas amar, amar deveras, de alma pensava eu, de coração ia jurá-lo, era a segunda — Laura, a mais gentil, mais nobre, mais elegante e radiosa figura de mulher que creio que Deus moldasse numa hora de verdadeiro amor de artista que se dignou tomar por esse pouco de greda que tinha nas mãos ao formá-la.

(…)


Mas não o quis a minha estrela. Embriagou-se de poesia a minha imaginação e perdeu-se: não me recobro mais. A mulher que me amar há de ser infeliz por força, a que me entregar o seu destino, há de vê-lo perdido. Não quero, não posso, não devo amar a ninguém mais.

(…)

Cheguei por fim ao nosso vale, todo o passado me esqueceu assim que te vi. Amei-te... não, não é verdade assim. Conheci, mal que te vi entre aquelas árvores, à luz das estrelas, conheci que era a ti só que eu tinha amado sempre, que para ti nascera, que o teu só devia ser, se eu ainda tivera coração que te dar, se a minha alma fosse capaz, fosse digna de juntar-se com essa alma de anjo que em ti habita.

Não é, Joana; bem o vês, bem o sentes, como eu o sinto e o vejo.

Eu sim tinha nascido para gozar as doçuras da paz e da felicidade doméstica; fui criado, estou certo, para a glória tranquila, para as delícias modestas de um bom pai de famílias.

(…)

Creio que me vou fazer homem político, falar muito na pátria com que me não importa, ralhar dos ministros que não sei quem são, palrar dos meus serviços que nunca fiz por vontade; e quem sabe?... talvez darei por fim em agiota, que é a única vida de emoções para quem já não pode ter outras.

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Tristão e outros contos - Thomas Mann

 


CONTOS

DESILUSÃO 

Conversa com um desconhecido desiludido, no Café Florian, na Piazza San Marcos, em Veneza.


O PEQUENO SENHOR FRIEDEMANN

Comerciante sem encanto, débil e corcunda devido a um acidente doméstico quando era bebé, decide renunciar ao amor e à vida social e é feliz dedicado apenas à cultura, até se apaixonar por Gerda von Rinnlingen…

O que tem isto que ver com Ricardo Reis?

(Conto escrito em 1896-97)

“Numa tarde de verão, andava ele a passear pelo valado fora da cidade, ouviu cochichar atrás de um arbusto de jasmim e pôs-se cuidadosamente à escuta por entre os ramos. No banco que lá havia, estava sentada a tal rapariga ao lado de um rapaz esguio e de cabelo ruivo, que ele conhecia muito bem; ele tinha o braço à volta dela e dava-lhe um beijo nos lábios, que ela retribuía entre risinhos. Ao ver isto, Johannes Friedemann deu meia volta e afastou-se dali em silêncio.

A cabeça afundava-se entre os ombros mais do que nunca, as mãos tremiam-lhe, e uma dor aguda, opressiva, subia-lhe do peito até à garganta. Mas ele reprimiu-a e, decidido, endireitou-se, tanto quanto lhe era possível. «Pois bem», disse para si próprio, «acabou-se. Nunca mais quero preocupar-me com tudo isto. Aos outros é-lhes concedida felicidade e alegria, mas a mim só me conseguem trazer desgosto e sofrimento. Estou farto. Para mim acabou. Nunca mais.»

A resolução fê-lo sentir-se bem. Renunciava, renunciava para sempre. Foi para casa pegar num livro ou tocar violino, o que tinha aprendido a fazer não obstante o peito deformado.

[…]

Adorava música e assistia a todos os concertos que porventura se realizavam na cidade. Aos poucos e poucos, ele próprio chegou a tocar violino, e não muito mal, embora ficasse com um ar muitíssimo estranho, e alegrava-se com aqueles sons bonitos e suaves que conseguia obter. Com o tempo e através de muitas leituras, também tinha adquirido um gosto literário que ele não partilhava de bom grado com ninguém da cidade. Estava informado sobre os mais recentes fenómenos de dentro e de fora do país, sabia apreciar o encanto rítmico de um poema, deixar atuar em si o ambiente intimista de uma novela bem escrita... oh! Quase se podia dizer que ele era um epicurista.

Aprendeu a perceber que tudo é digno de ser apreciado e que é quase insensato distinguir as experiências felizes das infelizes. Acolhia de bom grado todas as suas sensações e disposições e acalentava-as, tanto as sombrias como as divertidas: até mesmo os desejos não satisfeitos — o anseio. Amava-as por si, dizendo para consigo que, com a satisfação, se desvanecia o melhor. Não será mais aprazível o doce, dorido e vago anelo e expectativa de uma noite de primavera do que toda a satisfação que o verão consegue trazer? — Sim, ele era um epicurista, o pequeno Sr. Friedemann!”

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/2/20/mais!/15.html

https://tetxt.wordpress.com/2011/05/03/burgueses-e-outsiders-no-conto-o-pequeno-senhor-friedmann-de-thomas-mann/


O COMEDIANTE

Burguês sem talento, a não ser alguns dotes de comediante, herdou dos pais uma quantia bastante para viajar e depois viver numa cidadezinha, longe da vida social, feliz e dedicado à cultura, até se deixar atrair por Anna Rainer e…


TOBIAS MINDERNICKEL

Bizarro e ridículo, excluído socialmente, vive sozinho e infeliz e compra um cão para o qual transfere o seu sofrimento…


O GUARDA-ROUPA

Albrecht Van der Qualen viaja no rápido Berlim-Roma e adormece. Quando acorda não sabe onde está nem que horas ou dia são. Sai e hospeda-se numa pensão daquela cidade desconhecida. No quarto há um guarda-roupa que contém algo muito misterioso.


LUISINHA

Amra Jacoby, amante do jovem músico Alfred Lautner, obriga o ridículo e obeso marido, Christian Jacoby, a vestir-se de menina bebé e a cantar e a dançar, Luisinha, numa grande festa.


O CAMINHO PARA O CEMITÉRIO 


TRISTÃO

No sanatório Einfried, dirigido pelo Dr. Leander. A Fraulein von Osterloh, é a governanta da instituição. Müller é um segundo médico.

O comerciante Kloterjahn traz a jovem esposa, Gabriele, debilitada por problemas na traqueia. Casaram há  2 anos. Depois de ter tido um filho ela ficou debilitada. Ama o marido, mas o escritor Detlev Spinell viu-o a seduzir uma criada. O escritor ousa privar com Gabrielle, mas no fim…


OS FAMINTOS


O MENINO-PRODÍGIO


GLADIUS DEI

O imponente e indigente Hieronymus quer que o comerciante de arte queime o profano quadro da virgem mãe exposto na montra. Perante a recusa do comerciante que o expulsa da loja, Hieronymus invoca o Gladius Dei…


UMA FELICIDADE *****

Anna, a esposa do arrogante Barão Harry, a quem ama devotamente, sente “uma felicidade” quando a corista “andorinha” Emmy, que preferiu encantar-se por um “avantageur” que a ignorou, devolve à baronesa a aliança de casamento que o Barão lhe tinha coercivamente enfiado no dedo e lhe diz que ele é um “canalha”: “Pois uma felicidade, um leve calafrio e arroubo de felicidade aflora o coração quando aqueles dois mundos entre os quais o desejo erra, para lá e para cá, se encontram numa breve e enganosa confluência.”


NA CASA DO PROFETA *****

O novelista vai à periferia de uma cidade assistir à recitação das proclamações do venerado Daniel. Vão muitos outros artistas e uma mulher rica, por cuja filha o novelista se sente atraído. Nem ela nem Daniel surgem na história. Quem recita é um discípulo de Daniel, que vem da Suíça. O conto é curioso devido à ausência das duas figuras a que o novelista dá tanta ênfase, que no final diz que “vai jantar que nem um leão”. E o narrador afirma, com graça, que o novelista “Tinha uma certa maneira de estar na vida.”


HORA DIFÍCIL

Sobre o sofrimento criativo de Friedrisch Schiller, escritor amigo de Goethe, “o outro lá de Weimar” (p.200)

https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Schiller


O ACIDENTE DE COMBOIO

DE COMO JAPPE E DO ESCOBAR SE BATERAM

O DONO E O SEU CÃO 

ALVOROÇO E MÁGOA PREMATURA

Cornelius, pai dos crescidos Ingrid e Bert e dos miúdos Beisser e Lorchen, nutre uma afeição especial por esta última, de 8 anos. Ela dança com o crescido Max Hergesell e, depois, rompe em lágrimas por ele não dançar mais com ela e ir dançar com uma crescida.



sábado, 10 de julho de 2021

A gaivota - Sándor Márai


Publicado em 1943, num período da Segunda Guerra Mundial de extraordinária tensão e incerteza na Hungria, cujo regime tinha alinhado com a Alemanha Nazi.

O protagonista, alto funcionário ministerial, culto, solitário e seguro de si próprio, escreveu um discurso com uma decisão, que irá ser levado ao ministro e irá ser lido e influenciar a história e afetará, inexoravelmente, milhões de pessoas. Contexto de guerra? O protagonista tem 45 anos.

 

13-19 É um conselheiro de Estado a quem uma estrangeira solicita autorização para ser professora de húngaro. Ela chama-se Aino Laine, “A Única Onda”. Ela faz-lhe lembrar outra mulher que ele amou mas que morreu e de quem ele parece guardar um certo ressentimento.

 

19-33 Primeiro rejeita as pretensões da finlandesa, recusa dar-lhe o visto e autorização para ser professora de húngaro, mas por fim convida-a para ir com ele nessa mesma noite à ópera. Ela aceita provavelmente porque sabe que isso poderá ser vantajoso para ela.

 

33-51 Ilona, a mulher que ele amou suicidou-se. Segundo o pai, um farmacêutico, ela teria sido levada ao suicídio pela paixão que sentia pelo professor G. O protagonista questiona-se: qual teria sido o seu papel na vida de Ilona?

 

52-60 Reflexões sobre como reagir perante a Guerra que se avizinha, sobre os privilégios de ser europeu e não bárbaro, sobre o amor que regressa ao fim de alguns anos e dá algum sentido à vida, sobre a busca de outros sentidos, finais, para a vida, sobre as cópias que existem no mundo dos que julgamos insubstituíveis e até de nós próprios, muitas vezes melhores do que os originais.

 

60 “Pensamos que fomos criados apenas num exemplar único e um dia, de repente, temos de reconhecer que somos uma cópia normal e banal: em alguma parte existe um modelo que a natureza vai copiando com indiferença e profissionalismo, repetindo-o mecanicamente ao longo do tempo. Perante essa experiência, um homem vaidoso poderia enlouquecer, mas a minha vaidade tem outra natureza… Sei que a minha alma é diferente. A minha alma não é “melhor” ou “mais sábia”, não é mais distinta do que uma outra, simplesmente é diferente.” (…) “Temos de nos resignar, mesmo que seja uma ideia perturbadora, que Deus não inventou um modelo único para cada um de nós, apenas repetiu, com ligeiras alterações, um original curado há muito tempo. Por isso, existem milhões de gémeos, que não foram concebidos no mesmo útero, (…) “Semelhança” é uma palavra que provoca medos e calafrios. Tudo o que faz parte do destino cabe nessa palavra, um termo satânico que ilumina as profundezas, onde, no ateliê que nos estremece, as formas pré-históricas do ser humano são empilhadas, milhões e milhões em estado larval.”

 

61-64 Perspetiva mais ou menos pessimista da relação com a nova Ili!

 

65-75 Ele e ela na ópera. Ela é admirada por todos os que a observam!

 

75 Acaba a ópera. Vão jantar a um restaurante elegante.  O toque de recolher obriga-a a subir até casa do protagonista onde conta ficar apenas 10 minutos antes de chamar um táxi e ir para casa. Estamos em 1942? em plena guerra mundial, apesar de a Guerra parecer não ter chegado ainda a Budapeste.

 

76-89 Ela relembra quando, na Finlândia, a Guerra fez desmoronar a casa em que vivia com a mãe e um dogue, um enorme cão finlandês. É um amigo do pai falecido todas as noites jantava lá em casa porque sempre quis ocupar o lugar de chefe daquela família. A casa cai e ela sai da Finlândia para Paris e outros locais.

 

88-89 Ele pergunta se ela se lembra de já ter estado na mesma situação em que se encontra naquele momento. Ela diz que não. Ele beija-a.

 

90-93 Conversam sobre o que os conduziu um ao outro e sobre o facto de eles não serem completamente eles, mas réplicas de outros. Ela argumenta que tal ideia pode fazer com que tudo perca força e se relativize e anule.

 

94 “Quando, há pouco, te beijei, tens de saber que não te beijei apenas a ti,… mas também a uma outra mulher, de que tu fazias parte…” Ela irrita-se: “Tenho a certeza de quem sou e sei onde começo e onde termino.”

 

95 Ela diz: “Vim até aqui, porque me foi dito que talvez fosses tu a pessoa indicada para me ajudar a resolver os meus problemas. Agora acabaste de me beijar.”

 

96-113 Ela conta o que aconteceu em Paris, 2 dias antes da invasão alemã, sem os franceses saberem: ela estava com um homem de 70 anos que sabia o segredo, o que lhe dava encanto e o tornava um homem interessante, a 70 quilómetros de Paris na floresta depois de Versalhes, num hotel de luxo palaciano, a comer lagosta.

 

113-130 Depois de uma longa elucubração dele sobre a perda da juventude, esse “maluco feroz e infeliz, imprevisível e calculista, surpreendente e enigmático, amável e excitante, … sujeito à obrigação de viajar e a uma procura de forma desequilibrada e agitada, como se a vida fosse algo para perder”, o telefone tocar e alguém dá uma informação importante ao homem.

 

131 135 A Única Onda afirma, despedindo-se, que “tudo aquilo que disseste foi interessante, por isso, vou sair menos ignorante do que quando entrei nesta sala… Sei que não sou completamente eu; fui enviada por alguém…Soube também que cheguei no momento certo, porque estás a despedir-te da tua juventude…”. 


Ele explica que o telefonema era a informação de que a chegada da guerra a Budapeste iria ser adiada e que quer fazer tudo o que está ao seu alcance para manter longe da sua pátria as forças que destruíram em Helsínquia a bela casa onde ela cresceu.


Ela fica, depois de ele lhe oferecer café. Ele sai da sala e ela fica sozinha.

 

136 138 Ele reflete sobre o amor.

 

139 Ele ouve vozes na sala: ela fala ao telefone com alguém, talvez em russo.

 

142 Será ela uma espia? Será ela a própria guerra personificada?

 

146 Ela diz que viu uma fotografia igual à de Ili no gabinete de um homem que a aconselhou a falar com o conselheiro protagonista: o professor G.

 

149 Ela oferece-se para responder ao que ele quiser. Ele diz: “O que poderia perguntar-te? Poderia perguntar a tua opinião sobre uma espécie de circuito elétrico que liga três pessoas vivas e uma já partida, numa trama que é difícil de compreender e que se fecha com precisão? Poderia perguntar-te se não é bizarro que uma pessoa estranha de Helsínquia conheça um químico que vive num país distante?”

 

155 Ela assume que é uma espia, mas que agora também se aproximou dele e que, para o proteger, tem de ir embora. 

 

Abraçou-o ternamente e saiu.

 

A mão invisível…

 

 

domingo, 4 de julho de 2021

Delirio - Laura Restrepo

 

Aguilar regressa a casa, depois de uma viagem 4 dias, e a mulher, Agustina, parece ter enlouquecido. Aguilar foi chamado a um quarto de hotel, por um homem, e Agustina estava lá.

El Midas McAlister conta que tudo aconteceu quando tentavam "resuscitar el pájaro  a la Araña Salazar, que lo llevaba muerto ente las piernas desde el accidente" a cavalo.

 

Agustina protegia, em criança, o irmão Bichi, vitima de maus tratos paternos. 

 

Aguilar recebeu ajuda da, para ele, desconhecida tia Sofi,  para cuidar da louca Agustina, que passa o tempo a encher pratos e panelas de água para lavar tudo em casa. 

 

O músico Nicolás Portulinus, de Sasaima, avô de Agustina.

Aguilar ama Agustina, a esposa louca. Vive há 3 anos com ela, em Bogotá. A única coisa que ela disse foi: "Olha para a minha alma nua!

 

O Midas McAlister conta a Agustina que o Araña partiu a espinha quando caiu e foi para Houston Texas tentar salvar-se, tal como o fizera, sem sucesso, o pai de Agustina, Carlos Vicente.

O Midas conta à sua antiga amada, a louca Agustina, esse passado em que aconteceu o problema com o Araña.

 

Bichi é o terceiro filho de Carlos Vicente Londoño. O primeiro é Joaco, Joaquim, que não se chamou Carlos Vicente porque o pai chegou atrasado ao registo. O segundo filho foi Agustina. O terceiro finalmente se chamou Carlos Vicente, mas rejeitou o nome e chama-se Bichi e não é nada parecido com o pai, mas sim com a mãe. Joaquim, sim, é valdevinos como o pai.

 

Aguilar recusou, por telefone, que a sogra, Eugenia, levasse Agustina para um spa na Virgínia, para a curar.

 

O avô Portulinus casou com Blanca Mendoza, sua aluna de piano.

 

Aguilar tem dois filhos de Marta Elena: Toño e Carlos. Foi visitá-las sozinho e Agustina ficou a pintar a sala. Aguilar não gosta do facto de Agustina ter uma idade mais próxima da deles da que da sua.

 

Agustina era muito agourenta e, mais uma vez, avisou que algo de grave iria acontecer se Aguilar fosse sozinho, como foi.

 

O Midas conta como, no passado, fez enriquecer o pai e o irmão de Agustina,  intermediário na privatização da Telefónica, lacaios do Araña e de outros como Courtois, dono do Esplanade, Jorge Luís Ayerbe, que massacrou uma aldeia de índios no departamento do Caucas, Ronald Silverstein, o gringo agente da DEA.

 

Quando era criança Agustina e Bichi brincavam de calças baixadas e excitavam-se com fotos que Agustina roubara ao pai, onde se via a Tia Sofi nua com grandes tetas.

 

A Tia Sofi não sabe porque Agustina delira e tem o vício de lavra a casa toda. Aguilar não sabe quem é o homem com quem Agustina esteve no quarto de hotel onde foi encontrada.

Agustina adorava o pai, mas nem chorou nem foi ao seu enterro.

 

Blanca ficou baixa e gorda.

 

Agustina apesar de aborrecida por não ir com Aguilar brinca com ele.

 

Midas promete ao Araña que o cura!

 

Agustina tem menos 16 que Aguilar. Passavam domingos fabulosos sozinhos em casa.

 

Aguilar vigia o hotel: uma rapariga do hotel, com ar rebelde, chama-lhe a atenção.

 

Era o Midas que garantia a riqueza da família de Agustina, graças à cocaína colombiana. Nessa altura, o Midas engravidou Agustina e negou casar com ela.

 

Aguilar, enganando a rececionista, vai procurar pistas ao hotel Wellington, quarto 413, onde encontrou Agustina enlouquecida.

 

Don Pablo (Escobar?), o Padrinho!

 

Agustina e Aguilar faziam sempre amor ao domingo. Agora, ela chama-o porque quer fazer crucigramas no jornal e à tarde já não se lembra do nome de Aguilar.

 

Quando era pequena, o único e melhor momento que Agustina passava com o pai era quando, antes de dormir, iam trancar todas as portas da casa, no bairro Teusaquillo (depois mudou-se para La Cabrera) quando o pai se separou da mãe, por causa da tia Sofi?

 

O avô de Agustina, Portulinus, e a pantufa perdida.

 

Aguilar pergunta, sem sucesso, a Agustina, quem é o homem da voz da gravação que telefonou três vezes para irem buscar Agustina ao hotel.

 

O Midas continua a contar a Agustina a operação “Lázaro” para ressuscitar o “pássaro” do Araña: expulsou 3 mulheres que se diziam primas de Pablo Escobar.

 

Agustina tem a língua em ferida. Durante alguns momentos parece recuperar alguma lucidez: faz sopa e chama Aguilar pelo nome. Depois volta ao delírio.

 

Agustina antes dos 15 anos: conversa com a mãe, o que muito raramente acontece. A mãe prepara-se para sair com o pai, mas ele telefona a dizer que não pode. Discutem. Sozinha, Agustina pega no secador da mãe e seca a língua, queimando-a.

 

O Midas conta a Agustina que Misterio, um capanga de Pablo Escobar, lhe pediu que arranjasse 200 milhões de dólares para dois dias depois e lhe devolveria o quíntuplo. Como arranjar tal soma em tão pouco tempo?

 

A tia Sofi conta que era amante do pai de Agustina e que ele a fotografou porque era fã da Playboy. Ela morava com eles na casa de La Cabrera. O problema terá sido que as fotos foram descobertas.

 

Aguilar, professor universitário de classe média, foi apresentado a Agustina à saída do cinema: ela tinha menos 16 anos do que ele e vivia sozinha, hippie e rica, com uma semanada dada pela família. Ele percebeu que estava apaixonado no dia em que ela lhe apertou os atacadores desapertados, num jardim.

 

O Midas tentou levantar o pássaro do Araña com um casal sadomasoquista: ela chamava-se Dolores. 

O dinheiro para Pablo Escobar foi-lhe entregue.

 

No passado, Agustina engravidou do Midas e perdeu o filho. Engravidou de Aguilar e perdeu também o bebé. Quis tenta novamente e Aguilar disse que sim.

 

Agustina viu o primeiro morto e teve a primeira vez o período, aos 12 anos.

 

Anita a Desparpajada do hotel encontra-se com Aguilar e entrega-lhe a mala de Agustina. Ele leva-a a casa de carro. Rebenta uma bomba na esquadra da polícia de Paloquemao.

 

Portulinus diz a Blanca que quem o inspira é Farax, um ser imaginário. Abelito Caballero apresenta-se-lhe para ter aulas de piano e impressiona Eugenia e o próprio Portulinus: este diz a Blanca que é ele Farax…

 

Midas conta que ao tentarem reanimar o pássaro do Araña, Dolores acaba por ser morta, em vão porque o Araña não tem sucesso.

 

O Midas conheceu Agustina aos 13 anos, apresentado por Joaco, em casa dela. E apaixonou-se imediatamente por ela. 

 

Agustina delira e imagina que o pai, morto há alguns anos, voltou para ela, e despreza Aguilar e Sofi, no seu delírio, bem como a mala que Aguilar trouxe do hotel.

 

Para conquistar a atenção do pai, a jovem Agustina todas as noites saía com um rapaz diferente e chegava 15 minutos depois da hora combinada com o pai. Limitava-se a tocar nas Grandes Velas dos rapazes…

 

Continua a atração de Portulinus e Bianca e Eugénia por Farax, que vai viver meses na casa e provocar ciúmes…

 

O Midas conta que tudo correu mal: a polícia quer descobrir quem matou a enfermeira Dolores” e Pablo Escobar não devolveu os 200 milhões nem nada e rebentou o restaurante club l’Esplanade com uma bomba e diz que vai fazer sofrer o país…

 

Para se vingar do pai, que mais uma vez lhe bateu, o Bichi mostra à família as fotografias nuas da tia Sofi. Esta e o pai são expulsos de casa e a mãe Eugenia não perdoa ao Bichi ser, daquela maneira, a causa da desgraça da família.

 

O Midas quando era adolescente era pobre e nunca convidou Joaco ou os amigos ricos para verem onde morava.

 

Parece que nos dias em que Agustina ficou sozinha, sem Aguilar, Joaco a convidou para ir   à propriedade de terra fria, com a mãe, Eugenia, com o Midas, com a mulher de Joaco. E que Joaco diz que o Bichi virá do México daí a dias, com o namorado. E Joaco diz que ele não porá os pés em nenhuma propriedade da família, que Joaco agora gere. E parece que Agustina terá saído de casa aos 17 anos, hippie e grávida do Midas, para fazer um aborto, e nunca mais voltou à família porque entretanto conheceu Aguilar.

Joaco exige a Agustina que tire as luvas, à mesa. Está furioso e ela recusa e começa a sair de si.

 

Nicolàs Portulinus, teve uma irmã, Ilse, que enlouqueceu e se atirou ao Reno.

 

A tia Sofi quer que Aguilar leve Agustina a médicos especialistas. Ele revela que nos 3 anos em que viveram juntos, Agustina teve crises frequentes, especialmente de melancolia e ausência, e ele sempre conseguiu resolver esses maus momentos.

 

O Midas, para resolver a discussão de Joaco com Agustina, pega nela e sai da quinta da terra fria com ela. Ela delira, pelo caminho, mas depois melhora. Fumam um bareto e ele  sugere-lhe que ela vá com ele tentar descobrir onde está a enfermeira desaparecida. Midas sabe que a enfermeira Dolores foi morta pelo Araña, mas uma cena de vidência podia fazer esquecer o assunto no Club Aerobic’s.

 

Abelito ou Farax começa a perturbar a vida do casal Portulinus e Bianca.

 

A intenção do Midas saiu gorada: Agustina grita no Aerobic’s que Dolores for morta ali, com muito sangue,… E entra em delírio. O Midas leva-a para casa dele e como ela fica cada vez mais delirante liga a um capanga do club, o Rorro, e pede-lhe que a deposite no hotel Wellington.

 

Aguilar, expulso de casa pela loucura psicologicamente agressiva de Agustina, dorme em casa da ex-mulher, Marta Elena, e dos filhos, com quem viveu durante 17 anos. Saiu de lá há 3 anos, mas as roupas dele ainda continuam penduradas no guarda-vestidos.

 

Nicolàs Portulinus atirou-se ao rio e morreu ou regressou à Alemanha numa noite em que Eugenia ficou sozinha a tomar conta dele? E Farax desapareceu logo a seguir?

 

Qual Blimunda, Agustina vai com Sofi a casa de Marta Elena resgatar Aguilar: um dos episódios mais engraçados do livro!

 

Aguilar, Agustina e Sofi vão a Saraiva recuperar os diários de Portulinus e de Blanca. Pelo caminho, de carro, com Agustina no banco de trás, Sofi conta o que se passou no dia em que Bichi mostrou as fotos nuas de Sofi. Incrivelmente, Eugenia ralha com Joaco por ter tirado fotografias nuas a mulheres e Joaco responde que não voltará a fazê-lo. A família não se desfaz, apenas Bichi e Sofi não aguentam mais e saem da casa para não mais voltar.

 

Afinal o que aconteceu a Midas foi o seguinte: as 3 primas de Pablo Escobar que Midas expulsou do Aerobic’s por serem demasiado novas e magras foram-se queixar e Pablo resolveu dar uma lição a Midas: através do capanga Misterio pede 200 milhões a Midas e este vê-se obrigado a pedir esse dinheiro só Araña e a Ronny Silver; Pablo nunca devolveu o dinheiro, mas disse ao Araña que o tinha devolvido a Midas e agora o Araña persegue o Midas. E este refugia-se para sempre em casa da mãe, que tinha ocultado toda a vida para não perceberem que ele era pobre. É procurado pela DEA  por lavagem de dinheiro. E apenas Agustina sabe onde ele está e o procura para ele lhe contar o que aconteceu para ela entrar em delírio.

 

Regressado de Sasaima, Aguilar, antes de ler os diários de Portulinus e Bianca, vai encontrar-se com Anita, que lhe diz que tem informações muito importantes para lhe dar. Antes, o Bichi telefona a dizer que os vai visitar. E Aguilar pede a Sofi que lhe conte como foram ela e o Bichi parar ao México.

 

Aguilar encontra-se com Anita e com ela chega a Rorro, que lhe explica o que aconteceu.

 

Em casa, Agustina pede a Aguilar que ponha uma gravata vermelha para receberem Bichi. Tudo acaba bem!?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 19 de junho de 2021

A elegância do ouriço - Muriel Barbery


Sou Renée, porteira do prédio 7, rue Grenelle, com oito apartamentos: tenho 54 anos, vivo sozinha, viúva de Lucien, casei aos 17. Adoro o realizador Ozu.

Começo por conversar com o jovem Antoine Pallières, que não sabe nem compreenderia que uma porteira leia.

Ouriço, Paloma, irmã de Colombe, suicidária de 12 anos, filha de pais ricos, o pai é ministro, vive no prédio. Emite “PENSAMENTOS PROFUNDOS” e publica capítulos intitulados “JORNAL DO MOVIMENTO DO MUNDO”.

 

Às terças e quintas, Manuela, a única amiga de Renée, visita-a.


1º andar: vivem os De Broglie, conselheiro de estado

 

2.º andar: 

Vivem os Meurisse. Têm um cão whippet, Atena. Anne-Helène

Vivem os Rosen. 

Vivem os Saint-Nice.

Olympe Saint-Nice quer ser veterinária 

 

3.º andar: 

Vivem os Badoise. O Neptuno é o cão cocker destes. Diane, a filha. Ele é advogado.

 

4.º andar: Bernard Grélier e Violette, governanta dos Arthens, chefe da Manuela, portuguesa amiga da porteira

Os Arthens vão vender o apartamento.

Morto o Arthen vai para lá viver o sr. Kakuro Ozu, de cerca de 60 anos.

 

5.º andar: Vivem os Josse.

 

6.º andar: vivem os Pallières. 

Antoine Pallières: filho, “derradeiro arroto da grande burguesia empresarial”, não consegue compreender como as classes trabalhadoras entendem o complexo Marx. A mãe chama-se Sabine.

 

6.º andar: vivem os Arthens, Pierre

Jean (drogado), Laura e Clémence, filho e filhas dos Arthens

Lotte, filha mais velha da Clémence


CITAÇÕES:

 

P51 Após um mês de leitura frenética, decido com intenso alívio que a fenomenologia (de Husserl) é uma fraude. Tal como as catedrais sempre despertaram em mim esse sentimento muito parecido com a síncope que se sente diante da manifestação do que os homens podem construir em honra de qualquer coisa que não existe, também a fenomenologia consome a minha incredulidade só de pensar que tanta inteligência tenha podido servir para uma empresa tão inútil.

 

P137 a 139 A professora Maigre estava a explicar o adjetivo qualificativo e um aluno perguntou-lhe: “Mas para que serve a gramática?”. E a senhora-mas-pagam-me-para-vos-ensinar-isso respondeu: “Já deveriam saber!”. E o aluno respondeu: “Mas nós não sabemos, nunca ninguém se deu ao trabalho de nós explicar.” A professora suspirou fundo (talvez a pensar: “ainda por cima, tenho de gramar perguntas estúpidas”) e respondeu: “Serve para se falar bem e para se escrever bem.”

Nunca ouvi tamanha inépcia. E com isto não quero dizer que é falso, quero dizer que é realmente inepto. Dizer a adolescentes que já sabem falar e escrever que a gramática serve para isso é como dizer a alguém que terá de ler uma História dos WC ao Longo dos Séculos para saber fazer bem chichi e cocó. Não tem sentido nenhum! Se ainda nos tivesse demonstrado, com exemplos, que se tem de saber um certo número de coisas acerca da língua para a utilizar bem, que saber conjugar um verbo em todos os tempos evita que se cometam erros crassos que nos envergonham diante de toda a gente num jantar. Ou que, para se escrever como mandam as regras um convite para um baile particular em Versalhes é muito útil saber a regra do acordo do adjetivo qualificativo. Mas se a professora acha que a gramática só serve para se falar bem e se escrever bem... Quando nós aprendemos a dizer e a conjugar um verbo antes de sabermos que se trata de um verbo. E se o saber pode ajudar, não acho, ainda assim, que seja decisivo.

Eu acho que a gramática é uma via de acesso à beleza. Quando falamos, lemos ou escrevemos, sentimo-nos bem se construímos, ou estamos a ler, uma bela frase. Somos capazes de reconhecer uma bela construção ou um belo estilo. Mas quando se estuda gramática, tem-se acesso à uma outra dimensão da beleza da língua. Estudar gramática é descascá-la, ver como ela é feita, vê-la completamente nua, em certo sentido. É isso é que é maravilhoso, porque se pensa: “Que bem feito que isto está...”.

Para mim, às aulas de gramática foram sempre sínteses a posteriori e, provavelmente, precisões terminológicas.

Portanto, disse à professora: “Nem por sombras, isso é completamente redutor!”. Fez-se um grande silêncio na sala, porque eu não costumo abrir a boca e porque contradisse a professora. Ela olhou-me, surpreendida, e ficou com cara-de-pau, como todos os professores quando sentem que o vento está a virar para Norte é que a aulazinha pacata sobre o adjetivo qualificativo poderia transformar-se em tribunal dos seus métodos pedagógicos. “Mas o que sabes tu sobre o assunto?”, perguntou ela, em tom acerbo. Toda a turma continha a respiração: todos aguardavam o resultado do combate, que se esperava que fosse sangrento.

“Muito bem”, disse eu, “parece evidente que a gramática é um fim e não apenas um objectivo: é um acesso à estrutura e à beleza da língua, não apenas uma coisa que serve para uma pessoa se desenrascar na sociedade.” “Uma coisa! Uma coisa!”, repetiu ela, de olhos esbugalhados. “Para a Paloma Josse, a gramática é uma coisa!”.

Justamente, se tivesse ouvido bem a minha frase, teria percebido que, para mim, a gramática não é uma coisa.

 

De onde vem o pasmo que sentimos diante de certas horas? A admiração nasce ao primeiro olhar e se descobrimos depois, na paciente obstinação que pomos em descortinar as causas, que toda aquela beleza é fruto de um virtuosismo que só se descobre examinando o trabalho de um pincel que soube dominar a sombra e a luz e restituir, enaltecendo-as, as formas e as texturas, isso não dissipa nem explica o mistério do primeiro deslumbramento.

 

Como nasce a Arte? Nasce da capacidade que o espírito tem de esculpir o domínio sensorial. 

A Arte é a emoção sem o desejo.

segunda-feira, 14 de junho de 2021

A autêntica - Saul Bellow



Harry Trellman, um solitário perseguido pela memória amarga de um amor perdido, Amy Wustrin, viúva que envelheceu nos braços de outros homens.

Com um ar meio chinês, o “Chinoca”, passou a juventude depositado num orfanato, pelos pais, a mãe doente e o pai, carpinteiro, sem posses para o educar. Depois para não dar nas vistas no ocidente, passou 5 anos no oriente, na Birmânia, onde dinamizou negócios chorudos: importar peças chinesas e restaurá-la na Guatemala, com mão de obra barata. Regressou a Chicago, onde tinha assuntos emocionais para resolver, e abriu um escritório na Van Buren Street. Começou a ser convidado como um homem com grande conhecimento do oriente. Instalou-se num apartamento no Lincoln Park.

Num jantar, de Frances Jellicoe, divorciada de Fritz Rourke, que a maltrata, mas a quem ela continua devotada, conheceu os Adletsky, donos de um império financeiro. O objetivo de Frances era tirar uma foto de grupo que ajudasse a reabilitar o pai dos seus filhos, Rourke, socialmente.

Namorou com Amy Wustrin na adolescência. A última vez que a encontrou não a conseguiu reconhecer e ela ficou furiosa. Passaram 30 anos. Ela casou com Jay, um colega deles, e uma vez fizeram uma mensagem a trois. Jay entretanto morreu. Antes, já advogado, tinha-se divorciado por adultério dela e deixou-a sem nada. O seu corpo vai ser trasladado para outro lugar no cemitério.

Amy tornou-se decoradora de interiores e está a trabalhar para os dois idosos Adletsky. Estavam a comprar um duplex de Bodo Heisinger, um bem sucedido fabricante de brinquedos, e Jay fazia a avaliação dos móveis, para oferecerem à caridade e ganharem benefícios fiscais.

O corpo de Jay vai ser mudado do jazigo que tinha comprado ao pai de Amy e onde a mãe dela repousa. O pai de Jay ainda vive, num lar. Jay negociou a mudança com os filhos.

Amy pensa que cedo deixou se atrair o marido. Trellman ainda a acha uma beldade.

Madge Heisinger contratou um assassino para matar Bodo, o marido, mas foi presa. Ele perdoou-a e casou-se com ela de novo, depois de ela passar 3 anos na prisão.

Agora, na reunião para avaliarem os móveis de Bodo, Madge aparece. Amy acha-a atraente. Madge avalia os seus móveis em um milhão e meio de dólares. Adletsky torce o nariz. Madge, ao servir chá, entorna uma grande quantidade no vestido de Amy. Vão ambas à casa de banho e Madge diz a Amy que fez de propósito para conversarem a sós: tinha ouvido as cassetes que Jay usou para provar o adultério de Amy. A seguir, pede-lhe ajuda para conseguir que Adletsky pague o que ela pede: quer montar um negócio de presentes para divorciados, ao Tommy Bales, o homem que esteve preso por ela o contratar para matar o marido.

Amy teve duas filhas de um primeiro marido, Berner, um jogador que perdeu tudo e de quem ela rapidamente se divorciou.

Harry Trellman esteve casado 12 anos, mas admite que sempre amou Amy. Conversam sobre o passado de mal-entendidos que fez com que não tivessem ficado juntos. 

Jay traía Amy com dezenas de mulheres casadas e montou uma armadilha para provar que a adúltera era ela. Jay contava todas as suas aventuras sexuais a Harry.

Porque é que, afinal, Adletsky contratou Harry e lhe chegou a pedir que desse uma vista de olhos às mobílias de Bodo Heisinger, para as avaliar e para confirmar se não seriam imitações sem qualquer valor, escolhidas por Madge?

No dia em que Madge entornou chá em Amy, Adletsky ligou a Harry a sugerir-lhe que ajudasse Amy a efetuar a mudança de Jay no cemitério, ao lado dos pais dele. Na limusine, enquanto observavam os trabalhos, Amy confessou a Harry que esteve apaixonada por ele, na adolescência, mas achava, pelo seu frequente ar sofismático e obscuro, que ele só poderia pensar mal dela.

Harry é que apresentou Amy aos Adletsky. 

Terá o velho Adletsky percebido os sentimentos que Harry sempre nutrira por Amy?

Deverá Amy aceitar a sugestão de Madge?

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Morrem mais de mágoa - Saul Bellow



1987??

O meu tio Benn, especializado em anatomia e morfologia das plantas, “botânico de elevado nível de distinção”.

Eu próprio sou académico: professor assistente de literatura russa. Estudei russo em Paris, emigrei para os EUA e estabeleci um relacionamento com o meu tio Benn.

O meu tio era uma pessoa mágica para mim quando eu era miúdo.

A minha mudança para o Midwest foi interpretada pelo meu pai como uma rejeição. E a minha mãe abandonou-o também.

A minha mãe é voluntária médica perto de Djibuti.

O meu pai vive em França, é reformado, no bulevar de Sébastopol. Tinha uma reforma da Unesco, além de ações da firma de Pittsburgh que o contratara, nos primeiros anos, para a representar nos países francófonos do Terceiro Mundo. Teve muito sucesso com as mulheres.

Viajo imenso, mas não tanto como o meu tio. Viajo principalmente para Washington ou Nova Iorque.

O meu tio ficou viúvo há 15 anos, de Lena a sua primeira mulher. Eu tive de vir para a América por isso.

O meu único objetivo é proteger a sua vida. Tenho 30 anos e sou dependente dele.

Tenho uma filha, mas Treckie, a mãe dela, levou-a para Seattle. Nunca casei com Treckie.

Em certo sentido, o meu tio tornara-se meu pai.

O dom do meu papá tinha sido representar Eros, o que transtornara a minha mãe.

Estive em França no último natal.

Antes de casar com Matilde Layamon, o meu tio Benn teve vários relacionamentos amorosos.

Para o papá, Benn é um trapalhão, um incompetente.

Irrita o meu pai pensar que o meu francês perfeito se desperdiça nos EUA.

Abandonei Paris para viver junto do tio Benn. Ele era família para mim. Uma vez por mês voo para Seattle, a fim de ver a minha filhote, Nancy.

Tenho um outro tio, Harold Vilitzer. 

Página 59:

Caroline Bunge gostaria de se casar com o meu tio Benn.

Vou com ele para Kioto

Treckie, a mãe da minha filha, é uma mulher “petite” apetitosa, inteligente, licenciada em Biologia.

A minha sogra não soube do nascimento da neta. Foi Treckie que não se quis casar e pediu transferência para Seattle.

Entretanto, o meu papá está a declinar: perde-se a conduzir e tem falhas de memória.

Fui visitar Treckie. Tinha nódoas negras nas pernas, como quando a conheci. Eu nunca tinha sido capaz de ser agressivo com ela, como ela aparentemente gostava.

Yermelov foi o meu primeiro professor de russo.

Página 75:

O tio parou em Seattle para nos reunirmos e partimos para Tóquio e Kioto.

O meu tio conhecera Caroline num hotel de jogo em Porto Rico. Ele tinha um fraco por mulheres belas e ela já o tinha sido.

Agora, ele já desistiu de se casar com Caroline Bunge e escolheu-me, eu, Kenneth Trachtenberg.

O meu tio teve um caso com a vizinha, Della Bedell. Ela foi a casa dele pedir uma lâmpada e ofereceu-se-lhe. Ele acedeu e ela quis mais nos dias seguintes mas ele ignorou-a e refugiou-se uns dias no Brasil. Quando voltou ela tinha morrido: não sabe se se aplica a ela a frase “morrem mais pessoas de mágoa do que de radiações”.

Vamos no avião. O meu tio sente-se detestável por ter abandonado Caroline no que deveria ter sido o dia do seu casamento.

Em Tóquio apanhamos o comboio-bala para Quioto. Instalámo-nos no Tawaraya Inn. Vestíamos quimonos e dormíamos no chão. Nem cadeiras, nem mesas, nem jornais, nem livros.

Mais tarde, nesse ano, visitei a minha mãe na África Oriental. Ela falou-me da juventude do meu tio, pouco feliz com as raparigas. Ela acusava-o de me desencaminhar de uma carreira de maior sucesso. Ela não tinha a mínima pista de que o seu irmão era um Cidadão da Eternidade. A minha humildade com Treckie indignava-a. Um homem como o meu pai nunca se teria atirado a uma mulher como Treckie. 

Páginas 107-108: 

Alguns colegas mais novos japoneses convidaram-nos para uma festa noturna numa casa de strip: jovens misses Osaka, Yokohama, Nagasaqui,..., desfilaram, em gaiolas, vestidas de teenagers estudantes e depois do strip tease, abriram os joelhos e acariciaram-se em frente às dezenas de homens executivos que seriamente as observavam. O meu tio ficou chocado.

No Natal seguinte casou com Matilda Layamon. Não sei porque o fez, se o que queria era calma e ordem.

Página 115:

Matilda era uma das muitas raparigas europeias bonitas que a minha mãe aconselhava e recebia em festas em nossa casa, em intercâmbios. Seria uma espécie de teste que ela fazia à fidelidade do meu pai ou não punha a possibilidade de ele se sentir atraído por elas?

Quando Matilda se casou com o meu tio comunicou-o à minha mãe.

A minha mãe escreveu-me da Somália a dizer que estava na altura de eu casar também, talvez com Dita Schwartz, mas era agora que o meu tio precisava mais de mim.

Fui eu que apresentei Matilda ao meu tio. Ele decidiu casar sem me dizer nada antes e eu senti-me traído. O meu tio era mais meu do que o meu pai e a minha mãe, casal fechado num círculo próprio.

O meu tio não me parece muito feliz com a ideia do casamento. Irá abandonar a vida devassa. Pediu-me para eu ficar no apartamento dele, uma vez que ia viver com Matilda no Roanoke.

A estranha mudança na vida do meu tio, enquanto noivo: passava o tempo na Parrish Place, a mansão da família de Matilda, conversas com os sogros ricos, sobre assuntos a que teria de se adaptar. Matilda é uma mulher inteligente, vivida e com uma personalidade forte. E a jactância do sogro, com revelações que o meu tio preferia não ter sabido sobre o passado revolucionário e hippie punk de Matilda.

142

E a profusão de comentários do sogro a elogiar e a depreciar a filha e a apreciar o meu tio (até olhou por cima do urinol para ver a sua “ferramenta” e aprovou-a. Os dias que passou com Matilda em casa dos sogros foram penosos: Benn sentia-se fora do seu meio, um noivo desorientado.

O meu tio Benn abandonou a noiva Caroline no dia do casamento.

176

O pai de Matilda encarregou Chetnik, um juiz que decidiu um processo contra o meu tio Benn, a favor do tio do meu tio, Harold Vilitzer, e que casou Benn com Matilda, de recuperar o dinheiro que o meu tio Benn perdeu para Harold Vilitzer, para pagar a restauração do Roanoke, para onde o meu tio Benn irá viver com Matilda.

179

Marquei um encontro com Fishl Vilitzer, primo do meu tio Benn, um trafulha que não se dá com o pai, Harold Vilitzer. E ele explicou que o pai de Matilda, o velho Layamon, convidou Chetnik para lhe casar a filha, para que este reabra o processo da Electronic Tower é assim possa recuperar os milhões de dólares para o meu tio Benn e, por inerência, para Matilda. Além disso, o governador Stewart quer ver o velho Vilitzer na prisão para alargar o seu poder.

196

Eu, com 35 anos, ia tentar zelar pelos interesses do meu tio.

214

A minha relação com Dita Schwartz, complexada com a sua pele, mas mais interessante do que muitas das minhas outras mulheres, apesar de um pouco menos atraente.

227

A mãe de Treckie, Tanya Sterling, propõe-me juntar-se a mim para ficarmos com a minha filha, Nancy, alegando que a mãe não a está a criar devidamente.

234

Depois de o sogro o passear pelo hospital a ver velhas nas camas, parece propor ao meu tio que enfrente Vilitzer. O meu tio apenas quer “assentar com uma mulher afetuosa”.

250

Pelos vistos, apesar de se terem casado, Matilda e o meu tio não parecem ser o homem e a mulher da vida um do outro: ver episódio do xerife bêbedo.

300

O meu tio enfrentou Harold Vilitzer para lhe propor que ele lhe devolvesse 2000000 de dólares. O velho tentou dar-lhe um soco  e recusou.

320

Matilda recusou abdicar de ficar com os milhões de Harold Vilitzer que acha que o meu tio Benn tem direito. Harold ficou afetado fisicamente com o episódio. O meu tio decide ir vê-lo à Florida antes que morra, antes de ir de lua de mel para o Brasil.

330

Consigo que Treckie me deixe ficar com a minha filha Nancy. Conto criá-la com Dita. Nancy tem 3 anos.

350

Vilitzer morreu e foi cremado. O meu tio desistiu de ir para o Brasil e de Matilda e foi para o Pólo Norte, observar líquenes.