domingo, 13 de setembro de 2026

Chamadas telefónicas - Roberto Bolaño

 

Claro. Chamadas Telefónicas (Llamadas telefónicas, 1997), de Roberto Bolaño, é um livro de 14 contos, dividido em três partes: «Chamadas telefónicas», «Detetives» e «Vida de Anne Moore». Os contos têm personagens e situações recorrentes e exploram sobretudo o amor, a literatura, a solidão, o fracasso e a violência.


1. «Chamadas telefónicas»

• «Sensini» — Um jovem escritor chileno, vivendo na Europa, estabelece correspondência com o escritor argentino Sensini, um autor mais velho e reconhecido. A relação nasce através de concursos literários e transforma-se numa amizade. É um conto sobre escritores exilados, precariedade e solidariedade literária. Um escritor menor trava conhecimento com o escritor SENSINI e tornam-se caça-prémios literários. O protagonista ganha apenas uma menção honrosa no primeiro a que concorre. SENSINI ganha vários prémios e sobrevive com eles. SENSINI tem uma filha Miranda, que o protagonista vai conheçer no final do conto, na casa deste, em Girona. SENSINI vive em Madrid, mas no final regressa à Argentina para tentar encontrar o filho Gregório, provavelmente morto numa vala comum.

• «Henri Simon LEPRINCE - outra história de um escritor, que tem protagonismo precisamente por nunca conseguir passar disso…

• «Encontro com Enrique Martín» — Um narrador recorda um encontro imaginário ou literariamente reconstruído com o poeta chileno Enrique Martín. Realidade, sonho e literatura confundem-se.

• «Uma aventura literária» — Um escritor descobre que outro escritor publicou um texto que parece atacá-lo. Começa então uma relação de rivalidade e paranoia. O conto ironiza as vaidades, ressentimentos e pequenas guerras do mundo literário. O escritor B, menor, decide escrever um livro, o seu primeiro, para gozar com o escritor A, de sucesso, porque o acha petulante e excessivamente intelectual. O escritor A, curiosamente, escreve uma crítica altamente elogiativa ao livro!! B decide encontrar-se com A, mas…

• «Chamadas telefónicas» — B e X vivem uma relação amorosa marcada pelas separações e pelas chamadas telefónicas. Depois de X terminar a relação, B continua a procurá-la. A história mostra como o amor pode sobreviver à realidade através da memória e da comunicação à distância.


2. «Detetives»


Esta é provavelmente a parte mais próxima do universo policial de Bolaño, embora os seus «detetives» procurem muitas vezes uma verdade impossível de encontrar.


• «O verme» — Um narrador recorda uma experiência relacionada com cinema, literatura e juventude. A história mistura obsessão cinéfila, violência e memória. É um conto particularmente interessante porque mostra como, em Bolaño, as referências culturais fazem parte da própria experiência vital.

• «A neve» — Um episódio aparentemente banal adquire uma dimensão inquietante. Bolaño mostra como uma experiência quotidiana pode desencadear recordações e sentimentos de perda.


• «William Burns» — Uma história de violência e de relações humanas degradadas. O protagonista envolve-se numa situação potencialmente criminosa e acaba confrontado com a crueldade e a imprevisibilidade dos outros.

• «Detetives» — Dois polícias/investigadores procuram informações sobre um homem desaparecido ou sobre acontecimentos obscuros. A investigação serve sobretudo para revelar a memória, a amizade e o passado político e pessoal dos protagonistas.




3. «Vida de Anne Moore»


Os contos desta última secção acompanham personagens — sobretudo mulheres — marcadas pela errância, pelas relações instáveis e pela impossibilidade de encontrar um lugar definitivo.

• «Joana Silvestri» — Uma antiga atriz pornográfica é entrevistada por um escritor/narrador. A conversa começa por parecer uma investigação sobre cinema, mas transforma-se num relato sobre o passado, os amantes, a indústria pornográfica e a passagem do tempo. É também uma reflexão sobre o corpo envelhecido e a memória.

O MELHOR CONTO:

        • «Vida de Anne Moore» — Acompanhamos Anne Moore através de diferentes lugares e episódios da sua vida. Ela atravessa relações amorosas, viagens e experiências de marginalidade. Mais do que uma biografia tradicional, é uma espécie de retrato fragmentário de uma mulher que está sempre de passagem. Anne aparece como uma figura errante, cuja existência é reconstruída através de episódios dispersos. A estrutura fragmentária sugere que uma vida não pode ser contada de maneira completamente coerente. 

Anne não tem propriamente uma história; tem uma sucessão de histórias.

Ela muda de cidade, de trabalho, de homem, de ambiente e de projeto de vida. A narrativa avança quase como se alguém estivesse a folhear rapidamente um álbum fotográfico


O que une os contos?


Apesar da diversidade das histórias, há alguns temas muito fortes:


1. O amor e o abandono

As relações amorosas são frequentemente relações interrompidas. As personagens amam, perdem, recordam e continuam a procurar o outro.


2. A literatura dentro da literatura

Escritores, poetas, críticos e leitores aparecem constantemente. Bolaño transforma o próprio mundo literário em matéria narrativa — mas quase sempre com ironia.


3. O exílio e a errância

Chile, México, Espanha, França e outros lugares aparecem como espaços de passagem. Muitas personagens parecem não pertencer verdadeiramente a lugar nenhum.


4. A memória

Grande parte das histórias é contada retrospectivamente. O narrador tenta reconstruir acontecimentos que já passaram, mas a memória é incompleta e pouco fiável.


5. A violência escondida

Por baixo de situações banais — uma conversa, uma relação amorosa, uma viagem, uma investigação — surge frequentemente algo inquietante: crime, suicídio, abuso, desaparecimento ou morte.


6. A fronteira entre realidade e ficção

Bolaño frequentemente deixa o leitor sem saber exatamente onde termina a experiência real e começa a invenção. Isso é particularmente importante nos contos sobre escritores.


Em síntese


Eu diria que Chamadas Telefónicas é um livro sobre pessoas que procuram outras pessoas que já desapareceram — fisicamente, afetivamente ou no tempo. Os «detetives» de Bolaño não procuram apenas criminosos: procuram o passado, o amor perdido, uma explicação ou o sentido de uma vida.


E talvez seja justamente por isso que o título Chamadas Telefónicas seja tão apropriado: muitas personagens estão a tentar estabelecer uma ligação com alguém que está, de alguma forma, inacessível.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Coração tão branco - Javier Marías

Uma jovem regressada da sua lua de mel suicida-se com um tiro no coração, na casa de banho de casa, durante um almoço de família. O marido é Ranz, pai do narrador, Juan. O narrador é sobrinho da morta, Teresa: o pai acabou por casar com Juana, irmã dela, mais nova. Antes de Teresa, Ranz esteve casada com outra mulher, durante um ano. 

Quarenta anos depois, Juan, tradutor casado duvidosamente com a intérprete Luísa, interroga-se sobre o que terá levado Teresa ao suicídio. Ranz recusa falar com ele sobre o assunto.

Cenários principais: quartos com janela iluminada ou escura virada para a rua onde, durante a noite, surge uma personagem ou o próprio narrador.


A ação de Coração Tão Branco decorre principalmente em quatro cidades diferentes:

  • Madrid: É o cenário central e a base da história. É onde vive a família do protagonista, onde ocorre o trágico almoço familiar inicial e onde Juan habita com a sua esposa, Luísa. 
  • Havana: Uma parte importante da narrativa foca-se na viagem de Juan e Luísa a Cuba. É na capital cubana, a partir da janela de um quarto de hotel, que Juan observa uma cena misteriosa na rua que aprofunda as suas reflexões: Miriam e Guillermo.
  • Nova Iorque: Cidade onde Juan passa algum tempo devido ao seu trabalho como intérprete e onde se cruzam outras subtramas da história (como as personagens Berta e Bill).
  • Genebra: Surge no livro contextualizada pelas frequentes viagens de trabalho de Juan no circuito de conferências internacionais e organizações ali sediadas.

A principal mensagem de Coração Tão Branco, de Javier Marías, é a enorme influência e o poder destrutivo dos segredos, das palavras não ditas e do silêncio nas relações humanas e na construção da nossa identidade.

  • O poder das palavras e do silêncio: O livro explora como aquilo que dizemos (ou calamos) pode mudar o destino dos outros e como as palavras têm uma força irreversível que contamina a aparente inocência de um "coração branco". [1, 2]
  • O peso do passado familiar: A narrativa mostra que é impossível escapar por completo aos segredos dos nossos antepassados, pois a história dos pais torna-se, inevitavelmente, a história dos filhos.
  • A inocência vs. cumplicidade: O título — inspirado na peça Macbeth, de Shakespeare — reflete sobre como a pureza ou a ignorância inicial se corrompem assim que tomamos conhecimento de um segredo, tornando-nos, de certa forma, cúmplices daquilo que foi ocultado.