quarta-feira, 29 de abril de 2026

Catarina ou o sabor da maçã - António Alçada Baptista

 


Nesta interessante análise dos comportamentos humanos que informa toda a trama novelesca, o narrador desdobra-se em observador, distanciando-se do vivido, e em participante, envolvendo-se, para melhor compreender. Assim nos dá a conhecer Catarina, doce e adorável mulher que no entanto abriga em si uma perigosa atracção pelo abismo. 

Temos dificuldade em perceber nos outros aquilo que não somos capazes de viver.

A ação centra-se no encontro e na relação entre uma mulher fascinante, Catarina, e o homem que narra ou observa a história. A presença dela desperta nele paixão, desejo e uma profunda inquietação emocional. À medida que a relação evolui, surgem momentos de aproximação e afastamento, marcados por dúvidas, ciúmes e incompreensão. Catarina aparece como uma figura livre e difícil de prender, o que aumenta o conflito interior do protagonista. Mais do que acontecimentos exteriores, o romance acompanha a transformação psicológica das personagens. A intriga desenvolve-se em torno da tentativa de compreender Catarina e o verdadeiro sentido do amor. 

sábado, 25 de abril de 2026

O herói das mulheres - Adolfo Bioy Casares

 



As histórias que compõem O Herói das Mulheres são, de uma forma ou de outra, narrações de vidas de pessoas que se sentem inconformadas com o destino que lhes calhou em sorte: 

DA FORMA DO MUNDO: 1951: Correa, um estudante que tem de se preparar para um exame de Direito, decide ir concentrar-se para uma ilha isolada; no barco, encontra um enigmático e aventureiro contrabandista, que o leva, por um misterioso túnel nas árvores, a uma cidade-jardim, a que, por estrada ou por rio, fica a 400 km. Aí apaixona-se por Cecília, abandonada pelo marido. Envolve-se em situações duvidosas, apanha uma sova, é obrigado a mostrar onde fica o túnel (já não consegue) e acaba por voltar para Buenos Aires, sem ter estudado e sem voltar a ver Cecília. Forma-se e torna-se funcionário público.

OUTRA ESPERANÇA: o empregado de um sanatório perdido nas pampas que descobre que a dor dos doentes pode ser usada para produzir energia eléctrica: ele próprio acaba por sentir dor e contribuir…

UMA GUERRA PERDIDA: o homem que vai passando de mulher para mulher, mas todas elas o trocam por um técnico de fixação de dunas.

O DESCONHECIDO ATRAI A JUVENTUDE: Luisito Corias aspira viver em Rosario e trabalhar para Don Leopoldo Medina, a cuidar dos cavalos e do gado. A seguir quis ser contratado com o vilão Bilardo, que o encarregou de matar Don Leopoldo. Acaba por não conseguir matar ninguém e vai, enviado por Bilardo, para Rosario, para entregar uma carta (em branco) a um bandido, que o mataria, se ele não tivesse a sorte de estar a viver em casa da tia Regina e de está o proteger, com o seu misticismo. Acaba por se casar com a filha da dona da farmácia, uma jovem matrona, engraçada e robusta.

A PASSAGEIRA DE 1.ª CLASSE: que inveja a vivacidade dos que viajam em 2.ª classe.

O JARDIM DOS SONHOS: um jornalista, num hotel, ao lado de um jardim, que é avisado que a polícia o vai prender por ter escrito textos humorísticos sobre o governo. No jardim, encontra uma mulher, hospedeira de bordo, por quem se apaixona e em cujo voo foge: a Luz.

UMA PORTA ABRE-SE: Almeyda, um homem que escapa do suicídio iminente porque aceita uma proposta de um tal doutor Sotto, de dormir durante 100 anos, tal como terá feito Carmen, uma mulher muito baixa mas bonequinha.

O HERÓI DAS MULHERES: conto em que o engenheiro Lartigue, Don Nicolás Verona e a sua mulher Laura vão para uma casa abandonada no meio da selva em busca de um tigre que não sabem se existe: a casa pertence ao fantasma Bruno: o herói dos homens não é muitas vezes o herói das mulheres. O tigre apareceu? Quem levou Laura?

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Pés de Barro - Nuno Duarte


Um retrato poderoso e simbólico do fim de um regime, uma história de dificuldades e esperança que bem podia ter acontecido… 

Estamos em 1962, num país orgulhosamente só, e vem aí a construção da primeira ponte suspensa sobre o Tejo, para a qual vão ser precisos cerca de três mil homens. A obra irá mudar para sempre a paisagem da capital, muito especialmente para quem vive em Alcântara, como é agora o caso de Victor Tirapicos, instalado na casa dos tios depois de ter envergonhado o pai com dois anos de cadeia só por ter roubado pão e batatas para fintar a miséria. 

É, de resto, pelos olhos deste serralheiro de vinte e dois anos que veremos a ponte erguer-se um pouco mais todos os dias e, ali mesmo ao lado, partirem os navios cheios de rapazes para a guerra do Ultramar, donde muitos acabarão por voltar estropiados, endoidecidos ou mortos. 

Porém, apesar de a modernidade parecer estar a matar a vida e os costumes do pátio operário onde convivem (amigavelmente ou nem tanto) uma série de figuras inesquecíveis – entre elas o mestre sapateiro que faz as chuteiras para o Atlético Clube de Portugal e um velho culto que aprende a desler –, Victor Tirapicos encontra o amor de uma rapariga que é muda mas consegue escutar o planeta, pressentindo a derrocada da estação do Cais do Sodré e outra catástrofe ainda maior, que se calhar tem pés de barro e só acontece neste romance, mas bem podia ter acontecido. 

«UM RETRATO MUITO DINÂMICO E VIVO DO PORTUGAL DOS ANOS 1960.» 

Manuel Alegre, Presidente do Júri