domingo, 10 de maio de 2026

O Manual dos Inquisidores - António Lobo Antunes


RELATO

O engenheiro protagonista vai ao tribunal em Lisboa para uma audiência de divórcio. Foi a filha mais velha que lhe arranjou o advogado caro.

A ama Titina, que se considerava mais mãe do Joãozinho, vê o pai e a mãe dele, Francisco e Isabel, constantemente a discutir violentamente, ele a acusá-la de ter um amante.

Na infância e juventude João viveu numa quinta em Setúbal, que agora está quase abandonada. E onde vive agora, contra a vontade da filha, que não compreende como ele consegue viver naquele pardieiro.

Aos 15 apanhou o pai a foder a cozinheira por trás no altar da capela e a filha do caseiro na manjedoura. A cozinheira é amante do pai desde que a mãe morreu.

A Sofia é a esposa, com quem se casou contra a vontade da mãe dela, por parecer um maltrapilho. Apresentou-a ao pai num dia em que ele estava a receber a mulher do sargento que estava de plantão. E ele disse que a Sofia parecia um cabide, um esqueleto, que ele nunca tinha percebido nada de vitelas.

Quando pela primeira vez foi com o pai conhecer a família de Sofia, foi acompanhado da viúva do farmacêutico e chegou atrasadíssimo. A mãe de Sofia não se queixou.

O pai, Francisco, foi secretário de Estado e o irmão Pedro da mãe da Sofia ter-lhe-á pedido ajuda um dia. De vez em quando, Salazar ia lá à quinta, com uma série de seguranças.

Engravidou a cozinheira. Foi o veterinário Luís, casado com uma mulher que já não suporta, que observava as miúdas à saída do liceu, que foi chamado pelo Sr ministro Francisco, pai de João, para fazer nascer o bebé, sem perigo.

A ama Titina livrou-se do bebé, com o conhecimento sofredor da cozinheira, a pedido do pai do João.

O bebé ficou com uma mulher, a Alice, em Alcácer, e o senhor ministro, já ela adolescente foi lá visitá-la, rodeado de seguranças, e apresentou-se como pai. A Alice viveu 30 anos em Angola com o marido que foi engolido por um crocodilo e voltou, sem poder ter filhos.

O bebé é a Paula, que quando se tornou mulher ia para a cama com o César, casado com a Adelaide. E o ministro mandou os capangas darem uma carga de porrada ao César por andar com a Paula.

Depois do casamento, João foi colocado a trabalhar num banco, com a condição de receber o ordenado e nunca lá pôr os pés.

O tio de Sofia, pai de Mafalda, expulsou o pai das empresas e substituiu-o na liderança. O pai tinha uma amante 40 anos mais nova. Tem 2 irmãos: o Gonçalo e o Miguel, que tal como Mafalda ficam chocados com o que ele fez ao pai. 

Em toda a sua vida, Sofia foi à quinta de Palmela, do pai do João, 2 ou 3 vezes, porque nunca gostou da forma como o pai do João olhava para ela e não gostava de animais e de desordem.

Depois de o João casar e sair da quinta de Palmela, o pai ficou alguns anos sozinho, com a governanta Titina a controlar a casa, e a querer ocupar o lugar da antiga senhora, mas sem que Francisco a veja nunca como possível amante. 

Já idoso, Francisco encontrou, em Lisboa, uma tal de Milá que tornou sua amante por ser muito parecida com a esposa desaparecida há dezenas de anos, a Isabel!

Francisco continuou a assessorar Salazar e depois Marcelo Caetano, despeitado por não ter sido ele a ser nomeado Presidente do Conselho por Américo Tomás. 

E quando chega o 25 de abril expulsa toda a gente da quinta, porque para ele toda a gente era comunista, incluindo Titina, que foi viver para a Misericórdia de Alverca e passou o resto dos dias a desejar recuperar a vida na quinta (que considerava ser sua, também)!

Quando chegou o 25 de abril, a sogra e as cunhadas de João fugiram para Espanha com os relógios de ouro e as poucas posses que conseguiram levar. E o pai fechou a quinta e deu-lhe uma pistola para impedirem os comunistas de entrar. Mas não vieram comunistas.

A filha do caseiro testemunha que quando o Senhor Doutor se armou para impedir os comunistas de entrar, expulsou todos os criados por achar que eram comunistas. Ela e os pais foram viver para o Barreiro. Quando, um mês depois, ela teve de voltar à quinta à procura de uns brincos de que se tinha esquecido, a quinta tinha sido saqueada e o senhor doutor tinha como que enlouquecido: estava na sala a tocar mal piano e virou-se para ela e disse que ela fosse chamar os seus amigos comunistas porque já não havia nada na quinta para eles levarem.

A Paula, filha da cozinheira, irmã do João, a seguir ao 25 de abril, foi perseguida e insultada dois anos, em Alcácer, por ser filha de um fascista. Agora só que algo da herança, mas não tem documentos que provem que é filha do ministro de Salazar.

E o banco faliu e o diretor do banco fugiu com todo o dinheiro para Joanesburgo e deixou uma série de documentos de despesas e dívidas assinados por ele, sem saber o que estava a assinar.

Quando a Sofia quis a separação, proibiram-no de entrar em casa da família dela. 

Ela nunca gostou muito dele, casou-se com ele sem saber bem porquê. Distrai-se a comprar objetos e louça.

Vive sozinho na quinta depois da separação a tentar construir um barco para um dia fugir dali. 

Nunca teve mãe, não sabe qual das amantes do pai é a sua mãe e tem uma irmã, Paula, filha da cozinheira, que também reclama a herança, o pouco que resta.

O pai está num lar, com um AVC.

Agora o juiz decide o divórcio e cede à pretensão de Sofia: uma hipoteca da quinta do pai dele, onde ele vive, e de onde terá de sair quando ela quiser levantar a hipoteca.

E é despejado da quinta para o tio de Sofia e a família dela fazerem lá um empreendimento.

O tio de Sofia, que lhe passa muitas vezes a mão pelo braço, esteve preso, mas na cadeia recuperou o dinheiro todo, graças às assinaturas de João, que não sabia o que estava a assinar. E o João acabou por ficar com as culpas do desaparecimento do dinheiro do banco. E sem a quinta, que passou para a Sofia e acabou nas mãos do tio de Sofia.

A urbanização vai começar. O funeral do pai terminou. A mulher do tio da Sofia tem uma depressão.

Lina, divorciada do Adérito, trabalha na Misericórdia de Alverca e conheceu o João, que lá vai às terças-feiras para visitar a mãe Isabel. E há uma tal de Albertina (Titina) que delira e diz aí João que está pronta para voltar com ele para a quinta de Palmela.

E o João agora vive em Odivelas, em casa da Lina, com a filha dela.

E a Paula, com 39 anos, irmã do João quer parte da herança, mas o João ficou sem nada e ela vai à clínica Renascer para o pai assinar um documento que prove que ela é filha dele, mas ele está incapaz de o fazer, por causa do AVC.

E a Paula, em Alcácer, desiste de tentar receber algo da herança e de chatear o João. Trabalha com a Filomena para um solicitador

A Alice, que a criou, enforcou-se no lustre da sala. 

Romeu, o narrador, é um atrasado mental que faz sexo uma vez com a Paula, sem que se aperceba do que faz.

O narrador e o pai de João e Paula, o Sr. Ministro, na clínica, com a AVC a contar como se casou com a Isabel e o motivo pelo qual ela o abandonou!!

E o pai da Paula e do João morreu e encontraram-se no funeral.

E a Paula está no hospital, grávida: poderia ser do César que a Paula gosta de receber na cama, quando a mulher dele, a Adelaide, se ausenta, mas não, provavelmente é do Romeu que a violou, sem ela conseguir sair debaixo dele, um dia em casa dela.


A obra "O Manual dos Inquisidores", do escritor português António Lobo Antunes, utiliza o título de forma profundamente irónica e metafórica para explorar a anatomia da ditadura do Estado Novo em Portugal.

Aqui estão os principais pontos de ligação entre o título e o conteúdo do livro:

1. A Referência Histórica

O título remete diretamente ao Directorium Inquisitorum (1376), um manual real escrito por Nicolau Aymerich para orientar os inquisidores da Igreja Católica na identificação, interrogatório e punição de heréticos. Lobo Antunes transpõe essa lógica para o século XX, substituindo a inquisição religiosa pela política e social.

2. A Estrutura do Poder Ditatorial

A obra não foca apenas na figura do ditador (Salazar), mas sim na engrenagem que sustenta o regime. O "manual" refere-se à metodologia do medo:

A PIDE: A polícia política atua como os modernos inquisidores, vigiando, torturando e silenciando vozes dissonantes.

A Vigilância Doméstica: O título sugere que o espírito da inquisição infiltrou-se nas casas, onde familiares e criados vigiam uns aos outros.

3. O Patriarca como Inquisidor

O protagonista central, o Ministro de Salazar, personifica o inquisidor. Ele exerce um poder absoluto e arbitrário, não apenas sobre a nação, mas sobre o seu círculo íntimo. O livro mostra como esse poder "manual" de controlar vidas acaba por destruir a própria família do Ministro, resultando em solidão e decadência física.

4. Ironia e Desconstrução

Diferente de um manual técnico que é organizado e lógico, o romance de Lobo Antunes é fragmentado, polifónico e caótico. O título é uma ironia:

• Enquanto um manual serve para ensinar a "ordem", o livro descreve a desordem mental e moral de quem exerce o poder.

• O livro funciona como um "contra-manual", expondo a podridão e a decrepitude por trás da fachada de autoridade e retidão do regime.