quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

A Anomalia - Hervé le Tellier

 A anomalia 

Blake: Mata Ken, em Annemasse, Alpes. A 21 de março de 2021, mata Frank, em Quogue, Nova Iorque. No voo para NY, a 10 de março de 2021, o avião atravessa uma zona de enorme turbulência.

Victor Miesel: um tradutor escritor vai a Nova Iorque receber um prémio de tradução. O avião atravessa uma zona de turbulência tão intensa que o altera. Depois de regressar escreve um livro intitulado “A Anomalia” e suicida-se, a 22 de abril.

Lucie Bogaert: cineasta, editora de imagem, 28 de junho: depois de acabar a relação com André Vannier, de cuja teia amorosa se quis libertar, depois de uma viagem com ele a Nova Iorque, cujo voo, a 10 de março, atravessa uma zona de turbulência intensa, depois do último jantar, em que lhe oferece o livro “A Anomalia” de Victor Miesel, Lucie, em casa com o filho Louis, de 10 anos, é visitada pela polícia com um mandado de detenção.

David: 29 de maio: NY: com um cancro no pâncreas descoberto pelo irmão Paul oncologista, também estava no voo com turbulência intensa fustigado por granizo. Às portas da morte, no hospital, em NY, com Jodi a esposa sentada ao lado, é visitado por dois agentes que recolhem o seu ADN e saem.

A centrifugadora: 10 de março de 2021. O comandante Markle controla o atribulado voo Air France 006 Paris-Nova Iorque.

Sophia Kleefman: a 25 de junho de 2021 o FBI vai prender a família Kleefman: o pai Clark, tenente do exército americano, sempre em missões no médio-oriente, a mãe Avril, desiludida e com medo do marido, os miúdos Sophia e Liam. A 10 de março voaram, sem o pai, de Paris a Nova Iorque.

Joanna Woods: grávida de 3 meses de Aby Wasserman, desenhador ilustrador de imprensa que ela defendera contra um supremacista branco, e com quem viajou no voo de 10 de março, advogada da firma Denton & Lovell, convidada pelo cliente Sean Prior, da empresa Valdeo, a quem defende contra a firma Austin Baker, por causa do inseticida heptacloro, é convidada para ir  à célebre reunião anual do Dolder Club. Dois agentes do FBI esperam por ela à saída.

O caso Miesel: Clémence Balmer, a editora de Miesel, recebe o livro e o mail de Victor. Edita rapidamente “A Anomalia” que rapidamente é um sucesso de vendas e de seguidores. Ilena Leskov, uma das mais recentes casos de Victor, ganha o estatuto de “viúva” oficial do agora famoso escritor.

Slimboy: cantor nigeriano, secretamente gay, com o êxito Yaba Girls, composto para homenagear as mulheres nigerianas, depois de ter voado no voo de 11 de março, está numa festa numa embaixada onde estão também o cônsul italiano Ugo Darchini, que teve de pagar um resgate pela filha raptada, e a cônsul francesa Helène Charrier. Agentes do MI6 rondam Slimboy.

Adrian e Meredith: 24 de junho: um polícia vai buscar o probabilista Adrian Miller, que trabalha secretamente para o Departamento de Defesa desde 11 de setembro de 2001, a Princeton, onde teve de deixar de mãos a abanar a apaixonada Meredith, topóloga britânica.

A brincadeira: a 10 de março, o comandante Markle é obrigado pelo National Military Command Center a acompanhar os dois caças para aterrar na Base militar McGuire de New Jersey e a seguir o protocolo 42 (criado pelo probabilista matemático Adrian Miller).

André Vannier: o arquiteto do Suryaya Tower, apaixonado de Lucie Bogaert: 27 de junho, Bombaim. Conhece-a há três anos. Durante um ano viveram juntos. Ela tem 30 e tal anos; ele 60 e tal. depois de resolver um problema relacionado com a espessura das estacas dos alicerces do edifício, apanha um avião de regresso a NY, no aeroporto JFK, um casal do FBI mostra-lhe a foto de Lucie e pedem-lhe que os acompanhe.

Primeiras horas: 24 de junho: Adrian Miller na Base militar McGuire de NJ: o casal do FBI fala-lhe do protocolo 42 (aparentemente resultante de uma hipótese); Tina Wang, com quem ele criou o protocolo, e que já não vê há cerca de 20 anos, virá juntar-se-lhe. O general Patrick Silveria do NMCC fala do voo AF006, comandado por David Markle, que às 19h03 foi reorientado para a Base McGuire: o protocolo 42 foi ativado porque um outro voo AF006 aterrou há mais de 4 horas no JFK, no horário previsto, com outro avião e outro piloto e outro copiloto; além disso, o avião do voo AF06 de 10 de março, ficou danificado como este, e era comandado por Markle e pelo mesmo copiloto, há precisamente 106 dias. Entram em contacto com Markle e este afirma que hoje (24 de junho) é 10 de março. A seguir mostram uma foto do Markle que aterrou em 10 de março: está no hospital a morrer com um cancro do pâncreas.

II

O momento: em que aconteceu a réplica e as consequências, nas pessoas: os originais estão presos para participarem nas investigações; as réplicas estão ali confinadas num pavilhão à espera. Blake conseguiu escapar. Adrian requereu os serviços de Meredith.

Sete entrevistas: a David Markle, que ainda não sabe que tem cancro; a André Vannier, que ainda não sabe que Lucie o deixou; a Sophia Kleffman, que adora a rã Betty e que se desenha toda riscada, com o pai, sem a mãe; a Joanna Woods, advogada, que recusa ser entrevistada, que ainda não sabe que está grávida; a Lucie Bogaert, mãe de Louis, de 10 anos; a Victor Miesel, que ainda não sabe que vai escrever “A Anomalia” e que se vai suicidar (e que sabe que aquelas perguntas foram copiadas do filme “Encontros imediatos de terceiro grau” de Spielberg); a Slimboy, que não sabe que vai publicar “Yaba Girls”.

Descartes 2.0: “penso, logo sou quase de certeza um programa” substitui o “penso, logo existo” e se não resolvermos o mistério desta “anomalia” no sistema de que fazemos parte, os responsáveis por este jogo, esta simulação, podem decidir desligar tudo.

Mesa 14: estão sentados Victor, David Markle, Slimboy (que compõe uma música que não parece ser Yaba Girls), a advogada Joanna Woods, a mãe de Sophia, a Lucie (mãe de Louis) com André Vannier.

E pur, si muove: a psicóloga Jamy Pudowski orienta uma reunião com os líderes de várias religiões. Nada se conclui sobre a causa ou a origem da anomalia.

Hangar: General Patrick Silveria: não há qualquer traço de Blake.

As perguntas de Meredith: Adrian Miller, depois de ouvir as questões existenciais ou sobre simulação humana programada, e avisado de que vai de helicóptero ser recebido pelo Presidente dos USA.

Alguns presidentes: o presidente americano e Adriana Miller telefonam ao presidente chinês e ao francês. Na China, o leitor fica a saber que aconteceu o mesmo com um avião com 320 passageiros, num voo interno, e os dirigentes chineses também acham que se trata de problemas de anomalia de simuladores.

The people have the right to know: os média querem saber o que se passa. Os June vão encontrar-se com os March.

III - A canção do nada (após 26 de junho de 2021): Blake de June mata Blake de March. Os americanos descobrem que na China aconteceu o mesmo com um avião. O presidente americano revela a verdade ao mundo. Blake apercebe-se de quem matou.

Um homem observa uma mulher: André Vannier de March e de June combinam estratégias para o futuro próximo.

O mundo de Sophias: dos encontros entre as duas Sophias resulta a verdade: o pai abusa dela.

Slimboys: depois de perceberem o que se passou, os dois fazem-se passar por gémeos e foram um dueto: os SlimMen.

Same player dies again: David Markle surge como substituto do David moribundo: irá lutar para não morrer também de cancro, apesar de ser pouco provável sobreviver. Jody, a esposa, sabe.

Woods vs Wasserman: Joanna March Wasserman, esposa de Aby, grávida e defensora do heptacloro para pagar o tratamento da irmã vs Joanna Woods, solteira, livre.

Uma criança, duas mães: Louis prefere a mãe Lucie June, a que ainda não terminou tudo com André, a que não se recrimina por ter um amante para o sexo apenas. Lucie March preferia proibir Lucie June de não ver Louis.

Retrato de Victor Miesel enquanto alma do outro mundo: Clémence apoia-o; Ilena desaparece de cena. Victor não se reconhece como suicida ou como autor de “A Anomalia”.

O Night Show: as duas Adriana Becker, aspirantes a atriz, no Colbert Show, na TV. Lá fora, manifestações de fanáticos religiosos que as consideram criações satânicas.

A voz dentro de Jacob Evans: Deus não perdoará esta blasfémia. Só Deus conhece o caminho. Jacob mata a tiro as duas Adrianas quando elas saem do edifício numa limusine.

Extinções: as televisões transmitem o crime. Torna-se necessário garantir o anonimato de todos os duplos. 

Victor Miesel afirma numa conferência de imprensa que é da espécie humana na sua totalidade que a simulação espera a reflexão, uma reação, uma solução. Temos de ser nós próprios a salvar-nos.

Três cartas, dois e-mails, uma canção, zero absoluto: Joanna June despede-se de Aby e de Joanna March! André Vannier despede-se de André March! André Vannier June convida Lucie Bogaert June a tentarem evitar a separação que ocorreu entre o casal March.

Avril June é confrontada com a acusação do marido por abuso da filha.

A última palavra: 21 de outubro de 2021: o presidente dos USA ordena ao caça Super Hornet que um míssil AIM 120 seja lançado sobre o alvo match 4.

Victor é feliz em Paris, com Anne; escreve a sua versão da “anomalia”.

David Markle morre em NY, de cancro, pela segunda vez.

Em Lagos, o concerto dos SlimMen recebe Elton John.

O bebé de Joanna March irá nascer mais cedo do que previsto. O heptacloro foi retirado do mercado.

Joanna June conhece um novo homem, pouco importante.

Sophia June, a mãe e o irmão instalam-se em Akron, perto de Cleveland; Sophia March e a família, em Louisville.

Blake já não é procurado pelo FBI.

André March conheceu uma contrabaixista. As Lucie chegaram a acordo sobre as visitas do filho Louis. Lucie June está grávida de André June.

Adrian e Meredith estão em Veneza.

Em setembro o departamento de Defesa pôs fim ao protocolo 42.

O caça Super Hornet vê a trajetória do míssil: um terceiro voo Airbnb France 006, comandado por David Markle, com os mesmos passageiros.

Algo acontece a seguir.







segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

O vendedor de passados - José Eduardo Agualusa

O vendedor de passados

Um pequeno Deus noturno: a osga | o albino Félix Ventura | sobrevivas mulheres que ele leva a casa e que sentem repulsa dele.

A casa: a velha Esperança a criada sobreviveu a um massacre em casa dum líder da oposição (a Esperança é a última a morrer).

O estrangeiro: visita o albino para comprar um passado e um presente, é um brasileiro branco repórter de Guerra que quer esquecer tudo e recomeçar como angolano. O pai do albino era um alfarrabista que trocou Luanda por Lisboa. Eles falam da osga: é uma osga-tigresa.

Um barco cheio de vozes: o estrangeiro deixou-lhe 5000 dólares. 

O albino conta a história da sua vida à osga: bebé, apareceu à porta de Fausto Bendito Ventura, que o adotou. O professor Gaspar ensinou-lhe vocabulário inusitado.

Sonho 1: a osga sonha que ninguém na rua a vê. Ela era um homem que reencarnou em osga.

Alba: era o nome da mulher que aos 18 anos desvirginou o jovem que reencarnou em osga e que o traumatizou porque ela era amante do pai dele.

O nascimento de José Buchmann: o passado criado por Félix Ventura: era de Chibia, no sul de Angola, dos Buchmann, uma família de Bóeres, brancos que exploravam a terra e o gado antes de os madeirenses fundarem a cidade. O avô era Cornélio Buchmann. O pai Mateus casou tarde com uma artista americana, Eva Miller, que fugiu para a América.

Félix Ventura conhece uma nova mulher muito interessante: Ângela Lúcia, pura luz!

Sonho 2: o rapaz e o cão e a voz de Deus

Um esplendório: Ângela Lúcia é culta como o Albino: conhecem todo o Eça e Camilo. Ela tem um projetor com slides de paisagens do mundo. Ela é fotógrafa de nuvens.

A filosofia de uma osga: a osga estuda há semanas José Buchmann. Este aparece e diz que esteve em Chibia, onde o albino lhe disse que ele nunca deveria ir, e viu a campa do suposto pai, Mateus Buchmann.

Ilusões: parece à osga que aquele estrangeiro foi José Buchmann toda a vida.

Na minha primeira morte eu não morri: encostei o revólver à nuca, depois de ler um livro, e adormeci.

Sonho 3: a osga sonhou que ganhara forma humana e tomara chá com Félix e que conversou com ele sobre as invenções dos escritores e as invenções de Félix Ventura. Este conta a Ângela Lúcia que sonhou que conversava com a osga.

Espanta-espíritos: Félix convidou Ângela e Buchmann para jantar. A osga viu tudo do alto de uma estante. Buchmann inventa mais memórias da juventude e do passado do que as que Félix lhe vendeu.

Sonho 4: a osga, outra vez ser humano, conversa com Félix sobre a loucura e a cor da pele.

Eu, Eulálio: Félix conta a Ângela o sonho e dá à osga o nome de Eulálio.

A chuva sobre a infância (de Félix): as pragas de gafanhotos e de formigas guerreiras. Na catequese eu achava que a eternidade era um outro nome para as férias grandes.

Entre a vida e os livros: escolhe os livros.

O mundo pequeno: Buchmann vendeu uma reportagem a uma revista americana e foi a Nova Iorque procurar Eva Miller. Encontrou uma amiga dela e descobriu que é “mãe” estaria na Cidade do Cabo.

O lacrau: nem sabia o que era a maldade. Ou seja: era absolutamente mau.

O ministro: que comprou o passado de Salvador Correia, o carioca ascendente de um Salvador Correia que libertou Luanda do domínio holandês.

Um fruto dos anos difíceis: Félix conheceu Ângela numa inauguração de uma mostra de pintura. Disse-lhe que era genealogista. Ela ganhou uma máquina de fotografar aos 11 anos e nunca mais fez outra coisa.

Sonho 5: comboio e xadrez entre a osga e Buchmann.

Personagens reais: Félix Ventura escreve a autobiografia do Ministro que fundou as Padarias União Marimba, “A vida verdadeira de um combatente”.

Anticlímax: Buchmann descobriu que a “mãe”, Eva Miller, morreu na Cidade do Cabo.

As vidas irrelevantes: a osga, na sua anterior reencarnação, afastava as mulheres por causa do trauma com Alba.

Edmundo Barata dos Reis: José Buchmann aparece com um mendigo seu modelo fotográfico, comunista assumido, ex-agente do regime, defensor da ideia de que substituíram o presidente por um duplo.

O amor, um crime: Félix e Ângela beijam-se e… ela só não quer que ele a dispa. A osga depois percebe porquê: ela tem o corpo cheio de cicatrizes. 

Às 4h da manhã aparece Edmundo perseguido por José Buchmann: Edmundo lembrou-se de que José era Pedro Gouveia, um dos fraccionistas (que após o 25 de abril de 1974 queriam dividir o partido em dois e depor o presidente Agostinho Neto e não conseguiram graças à oposição dos comunistas cubanos) a quem perseguiu há muitos anos, prendeu, matou a mulher e cuja filha bebé torturou com queimaduras de cigarro: Ângela pega na pistola de José e mata Edmundo.

O grito da buganvília: Ângela vai enviando fotos dos locais por onde passa. Félix diz à osga que não perdoa Ângela.

O mascarado: um homem importante a quem fizeram uma plástica que lhe mudou o rosto quer comprar um passado humilde para ninguém saber que ele já foi importante.

Sonho 6: a osga sonha que se encontra em Chibia com José Buchmann que lhe conta que quis convencer Félix de que era realmente filho de Eva Miller para ser mais difícil saberem que era Pedro Gouveia, pai de Ângela. Saiu da prisão em 1980 e foi para Portugal convencido de que a filha estava morta. Regressou para se vingar…

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Quem matou Palomino Molero - Mario Vargas Llosa

 



I
Um puto pastor descobre um cadáver enforcado numa alfarrobeira, a uma hora de Talara: o taxista que levou Lituma, o tenente, disse que era um aviador piuranito que cantava boleros.
II
Em Piura, Lituma conversa com o primo Mono: quem matou Palomino Molero, o cantor de boleros, de Castilla. O tenente Silva e Lituma são os polícias de Talara e a Aviação não quer colaborar com a investigação.
Lituma conversa com a mãe de Palomino, que lhe diz que quem tiver a guitarra dele será o assassino. Diz também que o filho foi para a Aviação para Talara voluntariamente, dizia que era uma questão de vida ou de morte sair de Piura. Depois terá desertado. Moisés, o dono do Riobar, lembrou-se de que Palomino uma vez lhe tinha dito que estava apaixonado e que o seu amor era impossível. Apenas lhe cantava serenatas. Ela vivia para o lado do aeroporto, onde fica a casa dos aviadores da Base Aérea.
III
Lituma conta as novidades ao tenente Silva na tasca da Adriana, gorda casada com o pescador Matías e bem mais velha do que ele, por quem está embeiçado.
Querem interrogar o coronel Mindreau. Este tem uma filha: Alice.
Matías, o marido pescador de Adriana, gostava muito de ouvir cantar o Palomino.
O taxista Jerónimo leva-os à Aviação e diz que correm boatos de que os assassinos são peixes grossos.

Será descoberto o assassino?

Conseguirá o tenente Silva seduzir a Adriana?

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

A bicicleta que tinha bigodes - Ondjaki



Ondjaki nasceu em Luanda, Angola, em 1977. Tem 44 anos. Ganhou vários prémios com os seus livros.

O livro “A bicicleta que tinha bigodes” foi publicado em 2011. É uma novela. A minha edição, da editora Caminho, da coleção “Livros do Dia e da Noite”, é a 7.ª.

O subtítulo deste livro é “Estórias sem luz elétrica”. 

1

Na rua do narrador, uma criança, vive o tio Rui, escritor.

O CamaradaMudo é um senhor gordo que está sempre à esquina.

No rádio Nacional anunciaram um concurso: quem inventar uma boa estória pode ganhar como prémio uma BICICLETA colorida.

O narrador resolveu pedir ajuda ao tio Rui, apesar de o CamaradaMudo dizer que é batota. O narrador diz que se as outras pessoas fizerem o mesmo com o escritor da rua deles, isso não é batota. 

2

O tio Rui conta estórias que escreve em papéis amarelos. Ele tem um bigode farfalhudo que parece impedir que as palavras se entendam bem.

A Isaura é amiga do narrador: ela adora dar nomes de pessoas aos bichos (o gafanhoto SamoraMachel, a lesma Senghor, o gato Ghandi, o cão AmilcarCabral, os sapos Raul e Fidel), mas não sabe bem a tabuada. 

Há também um papagaio chamado JoãoPauloTerceiro. O Ghandi comeu o papagaio JoãoPauloSegundo.

3

Faltou a luz na aldeia e as crianças foram para a rua conversar. Nove, o motorista do jipe do GeneralDorminhoco matou o sapo da Isaura, o Raúl. A tia Alice, a mulher do tio Rui, vem à janela do seu primeiro andar ver o que se passa.

4

O GeneralDorminhoco diz a Isaura que a mancha escura não é um sapo. 

Mas o tio Rui diz que há ali um crime rodoviário do foro da fauna doméstica, porque o Nove atropelou e esmagou o sapo. Estamos num país onde os direitos das crianças e os direitos sapais são respeitados.

Parece que o tio Rui além de escritor também era advogado.

E exigiu que o Nove passasse a chamar-se Dez.

Fez-se o funeral do sapo. A AvóDezanove disse à Isaura para declamar um poema. As pessoas levaram migalhas para o Fidel comer.

O narrador pediu ajuda à Isaura para inventarem uma estória para ganharem a bicicleta do concurso. Ela disse que não tinha nenhuma ideia. O narrador disse que tinha uma, que é um segredo: a caixa do tio Rui, de que ela tinha falado.

5

O narrador queria ter bigodes para poder ganhar uma bicicleta. Porquê?

Depois de fazer bué de xixi, de ouvir o sapo Fidel é um grilo, o narrador sonhou que tinha ganho uma bicicleta grande, vermelha e com rodas amarelas, e com bigodes à frente. A bina dele.

A Isaura de manhã queixou-se de que o gato francês lhe comeu o gafanhoto Mobutu.

Acaba o capítulo sem um boa ideia para a estória. O CamaradaMudo e o JorgeTemCalma também não têm boas ideias.

6

A caixa do tio Rui está cheia de letras que a tia Alice faz cair dos bigodes dele quando ela os penteia com uma escovinha, à noite, às quintas-feiras, no quintal. O JorgeTemCalma ficou a saber o segredo também (um mujimbo).

7

Agora era um segredo de 3 pessoas. Combinaram que à noite iam espreitar ao quintal do tio Rui. 

A luz da Edel falhou: dá para roubar fruta, os carros passam mais devagar,…

A tia Alice acendeu o petromax. O tio Rui tinha a caixa no colo. Leu um poema do caderno amarelo e algumas letras e acentos ficavam presas no bigode.

8

O narrador, Isaura e o JorgeTemCalma resolvem entrar e pedir ideias ao tio Rui. Dizem que andam pelas casas a fazer um peditório de ideias para ganhar o concurso.

O tio Rui diz que isso é cábula, batota.

E diz que o narrador pode escrever uma estória sobre a sua enorme vontade de ganhar uma bicicleta. E o narrador pergunta se também pode incluir os bigodes do tio Rui na estória.

A seguir o tio Rui e a tia Alice saem da sala para atender um telefonema. Isaura e JorgeTemCalma vigiam e saem. O narrador apanhou a caixa que tinha veludo e abriu-a e viu as letras e os acentos. Saiu de casa do tio Rui antes de este e da tia Alice voltarem à sala.

9

O CamaradaMudo levou o envelope com a estória do narrador à Rádio Nacional e trouxe um “comporvativo”.

O narrador encontra Isaura, com a lesma Senghor, e o JorgeTemCalma. Estes perguntam se o narrador tinha tirado a caixa, na noite anterior. O narrador diz que não. E que escreveu uma carta em vez da estória.

10

Quando corriam para ir comprar gelado, o narrador perdeu o “comporvativo”.

O narrador conta-lhes que abriu a caixa e que lá dentro havia um brilho de magia: era como uma música parada.

11

Foram lanchar a casa do tio Rui para ouvir o resultado do concurso na Rádio Nacional: depois das notícias, sobre a luz e sobre Nelson Mandela, anunciaram que ganhou uma menina.

A tia Alice quebrou o silêncio: não há bicicleta, mas há gelado.

12

O narrador conta que não escreveu uma estória na carta, mas um pedido: que o presidente desse bicicletas a todas as crianças de Angola.

No final, o narrador perguntou ao tio Rui de quem são as estrelas e ele respondeu: são do povo.


No final do livro está uma cópia da carta do narrador, encontrada nos arquivos da Rádio Nacional de Angola, a contar tudo o que aconteceu desde que o narrador soube do concurso.





Verão - Ali Smith

 


Verão - Ali Smith

PARTE 1
Os indiferentes, os não indiferentes e a imagem de um homem com duas malas a caminhar pelos telhados de uma cidade, quase a cair.

Sacha, de 16 anos, tem de escrever um texto sobre o perdão.
Ashley, mãe de Sacha, que ralha com ela: a internet não é uma fonte primária. 
Sacha tem um irmão de 13 anos, Robert. O pai, saiu de casa e vive no apartamento ao lado.

Sacha tem um amigo sem-abrigo, Steve; ele disse-lhe que tinha visto autocarros cheios de sem-abrigo que são despejados em Estados que não têm deputados do Partido Conservador.
Sacha vai para a escola, mas recebe uma mensagem do irmão a pedir que vá ter com ele à praia porque precisa de ajuda.
Robert é anárquico na escola e é brilhante. Faz frequentemente afirmações, citações de Boris Johnson e de outros dirigentes de direita, que provocam grande desagrado.
Mel, uma amiga chinesa de Sacha.
Na praia, Robert pede a Sacha que feche os olhos e cola-lhe uma ampulheta na mão.

Robert falta às aulas. Divaga sobre o pai e namorada neonazi, sobre o jogo do Tormento, sobre torturas sobre o superior Einstein e o inferior e mentiroso Boris Johnson. 
Em casa, a jogar, ouve uma conversa no rés do chão. Sorrateiramente, desce e a mãe descobre que ele está em casa e não na escola. A seguir, é surpreendido pela beleza de Charlotte que, na sala, conversa com a mãe, Grace, e com a irmã. Charlotte está com um homem: ambos ajudaram a irmã dele na praia e levaram-na ao hospital. Não parecem saber que foi ele que colou a ampulheta na mão dela: ela não contou o que aconteceu. A mãe conta que o pai saiu de casa e vive ao lado, com a Ashley, 20 anos mais nova do que ele.

Páginas 86-87
Ashley está a escrever um livro, um léxico sobre as palavras usadas pelos políticos. Robert já leu algumas partes. O principal visado é Boris Johnson que chama marcos de correio às mulheres árabes que usam véu e burca. E diz que as emissões de CO2 estavam a conservar a temperatura do mundo como um abafador conserva a temperatura de chá. E a irmã de Robert confirma: a mãe da amiga Ayat foi atacada por um inglês que lhe queria enfiar um envelope na ranhura da burca, numa lavandaria. O primeiro-ministro é acusado de instigar à violência e às más práticas ambientais. 

Charlotte e o homem parecem ser ativistas: estavam na praia a fazer uma reportagem sobre a poluição e descargas de poluentes recentes no mar.
Vão para o norte, porque a mãe de Art, o homem que acompanha Charlotte, morreu e fez um pedido: levar uma pedra a um compositor de 60 anos que vive em Suffolk. Convidam Robert, Sacha e a mãe para irem com eles, à aventura. Art agrada à mãe de Robert.

À saída falam que foram visitar um homem chamado Hero que está preso, por ter escrito coisas num blogue contra o governo.
Falam da SA4A a empresa que controla a eletricidade e que transporta os sem-abrigo de cidades que apoiam o governo para cidades que não o apoiam.

Art ou Arthur tem uma pedra de mármore num saco, que a mãe pediu que entregassem ao homem de Suffolk.
Charlotte revela saber que Robert colou a ampulheta na mão da irmã: o coração de Robert cai dentro dele como uma pedra que caísse através de águas profundas (página 104).

1 de maio de 2020
Carta de Sacha a Mr. Hero, que está preso há 3 anos, sobre os andorinhões pretos.

PARTE 2
Um grupo de estrangeiros inimigos, dos ingleses ou dos alemães, de um tempo que não consigo determinar. 
São personagens oriundas da segunda guerra mundial, artistas perseguidos pelos nazis? Ou presos ou refugiados num Centro de Detenção de Imigrantes Ilegais, o Campo de Hutchinson, em Douglas, na Ilha de Man.
Daniel Gluck, o pai dele, Walter Gluck, William Bell, Paulina, a enfermeira, os guardas que os vigiam, Cyril, Klein, Zelig, anos 40, fantasmas num tempo indeterminado. O Cyril morreu em 1970. 
Em Wakefield a artista Barbara Hepworth fez a pedra que representava o filho. A pedra continuou com Daniel.
Mais personagens: Mr. Uhlman, Kurt, que vive como um cão.
O Cyril e Daniel parecem ser namorados.

Hannah Gluck, irmã de Daniel, mais nova, divaga pela poesia e pelas páginas em tempo pós-guerra. Entrega a filha a Madame Etienne. 
Ela é a irmã de outono e ele o irmão de verão. 
O que se passa, neste deambular oprimido?

15 de junho de 2020
Nova carta de Sacha a Hero. Conta-lhe que a pandemia matou vários vizinhos idosos e parou o negócio do pai. Se a Ashley, a companheira do pai, não pagasse as contas e comprasse comida para todos, não teriam dinheiro para nada.

O sentido moderno de herói equivale a fazer incidir uma luz intensa em coisas que precisam de ser vistas.
O verão chegará ao fim quando olharmos para o céu e nele não virmos nenhum andorinhão-preto.

PARTE 3
Lorenza Mazzetti, na década de 1950, chega a Inglaterra. É a realizadora das imagens dos surdos-mudos do início da parte 2 e do funambulista no início da parte 1. 
No passaporte escrevem-lhe: estrangeira e indesejável.
No passado, em Itália, Lorenza sobreviveu com a irmã gémea à morte da família adotiva, os Einstein, pelos nazis, em 1944. Procuravam o tio de a até Lorenza, Robert Einstein, primo de Albert Eisntein.
Incapaz de trabalhar seja onde for, Lorenza inscreve-se numa escola de Artes: a sua verdadeira vocação é filmar e escrever.


Grace, Sacha e Robert, em Suffolk: ao meio-dia terão de apanhar um comboio de regresso a Londres.
Grace vai sozinha a um antigo teatro ou igreja, onde, há 3 décadas, passara um belo dia de verão. Tinha vinte e poucos anos, dormia com 2 pessoas, Tom e Jen, e conheceu ali na igreja um padre carpinteiro com quem conversou nessa tarde. Ela era atriz e fora representar O Conto d’Inverno. Depois daquele verão, Tom e Jen desapareceram da vida dela. Foi como se se tivesse literalmente transformado noutra pessoa. Mas disso não se lembra.
A igreja agora está dentro de um campo cercado por arame farpado vigiado pela SA4A: um campo de detenção de imigrantes ilegais.
Deu a volta ao campo e entrou na igreja: viu uma lápide que o homem lhe tinha mostrado há muitos anos. A seguir foi embora: tinha um comboio para apanhar.

Art e Charlotte, não-companheiros por opção, falam um com o outro por telefone. Ela vive na casa da família dele, na Cornualha, na costa oeste, onde instalaram a sede do blogue. Ele na costa leste, com a nova namorada.

Íris, tia de Art, aconselha Charlotte a mudar o blogue Art(e) na Natureza e passar a escrever sobre a corrupção na política e no governo inglês, que gere tão mal a pandemia. A determinação de Íris derrotou o ativismo ecológico em Charlotte. 

Esta conta-lhe que tinha ido com Art visitar o centro de detenção de imigrantes ilegais e que um virologista lá detido os alertara para a perigosidade do vírus, numa fase em que a Inglaterra o negava. O governo vai libertar os imigrantes porque não quer publicidade negativa, que ocorrerá se eles morrerem com o vírus, no Centro, que não tem quaisquer condições. Íris propõe receber alguns na casa delas.

A pandemia está a tornar os muros e as fronteiras e os passaportes tão insignificantes quanto a natureza sabe que são.

Robert Greenlaw enviou um violino mini a Daniel Gluck, que Art e Charlotte e Grace, Sacha e Robert visitaram no Centro de Detenção. 
Daniel Gluck achou que Robert era a filha que lhe tinha desaparecido. A pedra que Art levara tinha sido entregue a Daniel Gluck: Einstein significa “uma pedra”. Einstein tocou violino em criança. Foi lá no Centro que Art se deixou encantar por Elisabeth, a atual companheira.

É Charlotte que admira o filme de Lorenza Mazzetti.

As línguas não existem separadamente. São como uma família. Estão constantemente a alimentar-se umas às outras. O conceito de língua isolada é inexistente.

Antes, em Suffolk, Charlotte fora com Robert e Sacha a Roughton Heath, onde em 1933 Einstein estivera escondido um mês para fugir a Hitler. Antes estava na Bélgica: os nazis publicaram cartazes com a foto dele e a legenda Ainda por Enforcar. Depois foi para a América.

Robert diz a Charlotte que o que colou no pulso de Sacha não era uma simples coisa de vidro: era o tempo.

1 de julho de 2020: Hero é um imigrante vietnamita e vive agora com mais 15 refugiados na casa de Íris e Charlotte. Escreve a Sacha a agradecer as cartas sobre os andorinhões e a dizer-lhe que vai haver mais verão pela frente…






sábado, 13 de novembro de 2021

Amesterdão - Ian McEwan


PARTE I

1 Funeral de Molly Lane, esposa de George, morta com Alzheimer.

Clive Linley e Vernon Halliday, dois ex-amantes dela. Clive conheceu-a em 68, tinha ela 19 anos. Viveram juntos quando eram estudantes, no Vale of Health. Vernon viveu 1 ano com ela em Paris, em 74, quando arranjou o empregp na Reuters.

Hart Pullman, o poeta beat que também terá sido amante dela, por volta de 65.

George recusara pôr Molly num lae tratou ele del, nos últimos anos. Em 78 ela andou com um advogado chamado Brady.

O ministro dos negócios estrangeiros, Julian Garmony, possível futuro primeiro-ministro eleito, diz a Clive que quando foi amante de Molly ela lhe tinha dito que Clive era impotente e pede-lhe para se pirar dali para fora. 

2 Encomendaram a Clive uma sinfonia para celebrar o milénio.

Molly costumava ir visitá-lo, já não como amante há muitos anos, mas como quase irmã. 

Adormece.

PARTE II

1 Vernon com uma crise existencial: só existe quando está com outras pessoas a gerir profissionalmente. Quando está sozinho ou quando acorda ao lado da mulher sente-se apagado, inexistente.

É diretor do The Judge, um purista da língua. George Lane telefona-lhe a dizer que tem um furo jornalístico para lhe oferecer. Combinam encontrar-se ao fim do dia.

2 Vernon recebe uma intimação a proibir que o The Judge publique seja o que for sobre Garmony. Telefona a George Lane e confirma que o furo prometido são fotos que incriminam Garmony.

Vernon recebe um telefonema de Clive a pedir-lhe que se encontrem urgentemente.

3 Vernon visita Clive. Este conta-lhe a conversa que Garmony teve com ele no funeral de Molly. A seguir pede a Vernon que, caso um dia venha a necessitar, este o ajude na eutanásia, proibida na Inglaterra.

4 George Lane entrega a Vernon, na casa onde vivera com Molly, três fotos comprometedoras que Molly tirara a Garmony, com o nítido consentimento deste.

5 Vernon deixa um bilhete em casa de Clive a dizer que aceita, com a condição da reciprocidade.

PARTE III

1 Clive viaja para o Lake District para conseguir inspiração. Está zangado com Vernon por causa de uma discussão que tiveram e por achar que é melhor amigo do que Vernon.

2 Clive disse a Vernon que não concordava que ele publicasse as fotos de Garmony, vestido de mulher, mesmo sendo racista e xenófobo e antieuropeu: Molly não concordaria também. Vernon ficou furioso.

3 (excelente capítulo)

Clive caminha pelas montanhas de Lake District em busca de inspiração para a sua sinfonia; quando a encontra e a quer retirar num bloco de notas é interrompido por uma mulher que grita e está a ser vítima de uma cena de violência doméstica. Ele desvia-se para registar a inspiração, abandonando a mulher à sua sorte.

PARTE IV

1 A mulher de Julian Garmony levanta-se, de manhã, para ir operar Candy, uma criança. Julian dorme ainda. Lá fora 9 jornalistas esperam!

2 O The Judge anunciara que ia publicar fotos comprometedoras de Garmony e começou a subir as vendas. A discussão nacional é se é ética ou não tal publicação. Vernon defende-a.

Vernon acorda ao lado da mulher, Mandy. Tem uma amiga, Dana, que está em viagem. George tinha contactado outros jornais para conseguir um melhor preço para as fotos.

Vernon telefona a Clive e fazem as pazes.

3 Franck Dibben, um diretor editorial do The Judge, concorda com Vernon, mas pede-lhe que não revele esse apoio.

A primeira foto é publicada com sucesso para o The Judge. 

Vernon telefona a Clive para ele ligar à polícia a dizer que tinha visto um homem no Lake District a agarrar uma mulher porque seria certamente um violador em série que tinha sido entretanto preso depois de violar outra mulher “caminheira”.

4 A mulher de Julian Garmony aparece na TV depois de operar e salvar a menina negra, Candy e na quinta da família, junto do marido, a dizer que o amava e que sempre soube desse seu capricho e chamou chantagista e pulga a Vernon.

5 Os jornais adversários põem-se ao lado de Mrs. Garmony, contra Vernon e o The Judge. Os outros dirigentes do The Judge acusam Vernon de má gestão, por ter avançado com a publicação da segunda foto, depois da entrevista da mulher de Garmony.

Franck Dibben substitui Vernon como diretor.

PARTE V

1 Clive, quando foi interrompido por Vernon, embebedou-se de fúria e não conseguiu terminar a sinfonia. Todos o pressionam. Escreve um bilhete a Vernon a dizer que ele merecia ser despedido. Quando consegue voltar a ter inspiração aparece a polícia para ele ir reconhecer o violador…

2 Vernon tinha recebido o postal de Clive depois de ser despedido. Bebe e pondera convidar Clive para irem a Amesterdão, onde a eutanásia tem sido uma prática levada a cabo por enfermeiros sem escrúpulos.

3 Vernon e Clive em Amesterdão!

4 Em Londres, George Lane e Lucian Garmony.


sexta-feira, 15 de outubro de 2021

As Horas do Fim - Elsa Margarida Rodrigues



Confesso que quando tomo conhecimento de que há um livro novo, de um escritor de renome quase apenas local, numa edição caseira, não consagrada, nascida no seio de um grupo local de amantes da escrita e da leitura ou de uma editora recém-criada, reajo, geralmente, com indiferença ou desconfiança de que a sua qualidade poderá converter a aquisição num investimento inútil, que dificilmente encontrará espaço na estante principal da casa e que, por vezes, nem para oferecer poderá servir.

Quando leio esse livro novo, faço-o já com alguma segurança, resultante do agrado provocado pela leitura de anteriores publicações do autor, ou da curiosidade, que terá sido estimulada por fatores diversos.

Quem opta por este tipo de publicação, indispensável para quem não consegue ser publicado a um nível diferente, certamente o faz por acreditar que tem qualidade suficiente para arriscar. Irá descobrir, depois, se essa pretensa qualidade é reconhecida ou não.

A qualidade literária de um livro mede-se, obviamente, pela quantidade de elogios que os críticos literários venham a publicar e pela capacidade de expressão do sentido crítico de quem o leu. Se o livro se torna, ou não, depois, um sucesso de vendas é uma questão que não é tão facilmente entendível.

Desde o início da leitura do livro “As Horas do Fim”, da Elsa Margarida Rodrigues, editado pela Minimalista, não perdi nunca vontade de o continuar a ler, o que acontece, por vezes, lamentavelmente, com algumas escolhas de leitura, e decidi aceitar o convite tácito de entrar no jogo proposto, de tentar desvendar o mistério e de perceber se se confirmaria o aparente mérito da escolha da estruturação temporal, que na primeira parte é surpreendente (terei visto um ou outro filme assim sequenciado), e na segunda parte delicia pela alteração que sofre. A concentração da ação, que ocorre num período temporal muito breve, é forte e revelou-se no final um dos jokers usados pela autora no jogo diegético.

O final deixou-me a sensação de que a autora não só foi muito esperta, como se terá divertido muito a planificar a teia com que captura o leitor. Foi-me oferecida uma agradável experiência lúdica, que mistura um argumento muito simples com o privilégio de assistirmos ao desfile dos pensamentos e dos pontos de vista descomplexados e polémicos das personagens, habitualmente ocultos, noutras narrativas, relativamente a temas clássicos como o amor ou a busca do sentido dos dias. Claro que algumas mentes são mais merecedoras de serem perscrutadas do que outras, mas o mesmo acontece na vida real.

Serão preponderantes na narrativa estas personagens que se configuram como planas e quase vazias ou, pelo contrário, as que na obra oscilam entre a psicose infeciosa e a lucidez antissética?

Não me agradou o uso e abuso de frases demasiado curtas, apesar de considerar que tal opção permite que a autora divague por pormenores muito curiosos do quotidiano das personagens, que não mereceriam menção numa narrativa mais complexa, subjetiva e longa.

Pareceu-me ler, neste livro, que se defende que a verdadeira e única relação amorosa possível e duradoura é a que mantemos connosco próprios e que a qualidade e a intensidade das relações que estabelecemos com o(s) outro(s) serve apenas os interesses dessa relação egocêntrica. Não partilho esse ceticismo em relação ao amor pelos outros. Mas também não sei se estas ideias que retirei da obra correspondem à interpretação que a Elsa pretendeu induzir.

Apetece-me emprestar “As Horas Finais” aos amigos, para que outros possam usufruir da sua leitura, o que é um bom indicador de que se trata de um livro com qualidade bastante para fazer parte da minha estante, no meio dos meus livros preferidos, porque mesmo que, em possíveis futuras análises, lhe venha a descobrir defeitos, a sua leitura acrescentou agrado a algumas das minhas horas recentes.



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 AS HORAS DO FIM - Elsa Margarida Rodrigues

Notícia breve: um homem foi encontrado gravemente ferido no seu carro, a 50 quilómetros da cidade. Terá sido atropelado e depois metido no carro. Sem documentos de identidade. No bolso uma mensagem: OOSOKO. Foi identificado depois pela esposa. Morreu a caminho do hospital. Ter-se-á relacionado com um empresário acusado de vário crimes.

PARTE 1
4h37m Coma antes da morte.

00h45m O atropelamento e a dor.

22h21m No bar com os dois amigos. Recusara defender um caso de um homem importante e perigoso. Sai, entra no carro e é seguido.

20h38m Vai a casa da amante, ex-namorada de um homem condenado graças à acusação preparada por ele. Já não sente nada por ela, a não ser desejo físico. O ex-namorado saiu da prisão. Sai, despedindo-se definitivamente dela. Ela chora e ameaça-o de que se vai arrepender. Um carro arranca atrás dele, com as luzes apagadas.

18h23m Em casa, à espera da mulher. Ela chega. Pouco têm a ver um com o outro. Raramente fazem amor e quando o fazem é sem grande intensidade. As conversas são tentativas de se dominarem um ao outro. Ele sai, depois de escrever um bilhete que põe ao bolso. Um carro preto segue-o.

16h53m Na psicoterapeuta. Jogo de palavras para analisar o seu desejo de se aniquilar. No carro, a telefonar, não repara em dois homens que ao longe o observam.

14h32m O protagonista recusa defender um caso de um mafioso, que no final da conversa o ameaça de que não irá durar muito tempo. Sai e é seguido por um carro.

12h38m Almoço com a mãe que lhe apresenta a proposta de venderem a empresa do pai, que está internado com uma doença provavelmente terminal, engendrada pelo irmão, o filho preferido da mãe. A mãe sabe que ele tem uma amante. O irmão, com 2 filhos, separou-se da mulher para viver com uma outra com um apelido socialmente sonante, mas sem dinheiro. Ele concorda, mas depois no carro envia uma mensagem à mãe a dizer que mudou de ideias. Acaba o almoço e é seguido.

9h47m Depois de ter ido correr numa floresta num monte, exausto, atrasado, entra no carro, deixa cair o telemóvel e embate num carro de dois meliantes que o ameaçam e lhe riscam o carro. Fixa a matrícula, que não consegue fotografar. Livra-se deles a custo e chega a casa. É observado por vultos.

7h30m Acorda de um sonho disfórico com o pai na escuridão. Terá chorado. A mulher levanta-se e sai. Pouca atenção dão um ao outro. Decide ir, pela primeira vez, correr no monte, no meio da natureza mais ou menos selvagem. Que comece o jogo.

PARTE 2

22h21m
A amante, namorada de um homem condenado graças à acusação preparada por ele. O ex-namorado saiu da prisão e é recebido amorosamente por ela, depois de o protagonista a ter rejeitado, às 22h. Terá perdoado a violência dele, que a levou a acusá-lo.

A esposa do protagonista telefona a uma amante BFF e tergiversa sobre a iniquidade do amor e as vantagens de estar numa relação sem amor, logo, de liberdade afetiva total. Recebe a notícia da morte do marido e chora durante horas.

A psicoterapeuta espera pelo seu amor, que está de passagem, enquanto vê o filme “Beleza Americana” e reflete acerca da sessão com o protagonista e da prevalência da beleza.

O mafioso é preso, na sua vivenda, por, entre outros motivos, ter mandado matar uma Sheylla Marie Resende.

A mãe do protagonista telefona ao outro filho para lhe pedir que vá ao bar ver se está tudo bem com ele. Informa-o de que lhe tentou ligar para conversar come ele sobre uma mensagem que ele lhe enviara a desistir do que tinham combinado. Acorda com um pesadelo às 4h37, hora a que o filho está a morrer.

Os dois meliantes que lhe riscaram o carro…

https://www.regiaodeleiria.pt/2021/07/as-horas-do-fim-um-romance-policial-que-faz-do-leitor-o-detetive/

https://minimalistaeditora.pt/