"Num brilhante ensaio sobre “Tudo É e não É”, de Manuel Alegre, João Maria André, filósofo e Professor catedrático na Faculdade de Letras de Coimbra, na apresentação do romance na Casa da Escrita, afirmou estarmos perante um livro que acaba por ser uma “vingança dos sonhos ou o reverso de Descartes”. Isto porque, apesar de se tratar de ficção, é uma obra que a partir do dispositivo dos sonhos e da sua interação com a realidade e com a escrita, subverte a lógica binária cartesiana.
João Maria André explicou que “o que Descartes faz é desqualificar o sonho na sua relação com a realidade” e com isso “desqualifica, ao mesmo tempo, toda a realidade que se possa assemelhar ao sonho”, bem como a lógica do sonho, “que não é uma lógica linear nem binária, como a lógica de Parménides e de Aristóteles, mas uma lógica complexa”, em que “o princípio da identidade e o princípio de não contradição deixam de ter a sua validade, para serem substituídos por outros princípios, talvez menos apolíneos e mais dionisíacos”.
Ora, como afirmou, a desqualificação do sonho “é simultaneamente a desqualificação de todos os outros registos discursivos”, “que não se servem da lógica linear e binária, distintiva e excludente, mas de uma lógica copulativa”, “que em vez de assentar no ou…ou assentam no e…e”, “ou seja, uma lógica da coincidência” como a defendida por Nicolau de Cusa, no século XV.
Assim, para João Maria André, “Tudo É e Não É”, logo no título, é, de facto, “uma vingança dos sonhos” e “um retorno da sua lógica copulativa e coincidencial, não apenas no registo dos sonhos, mas também no registo da realidade.”
“Efectivamente”, argumentou, “desde que os homens começaram a substituir o modo do pensar do mythos pelo modo de pensar do logos, ou seja, desde os longínquos séculos VI e V antes de Cristo da antiga Grécia, que o ser e o não ser, na sua exclusão ou na sua coincidência, constituíram o tema central da reflexão filosófica”, com destaque para Parménides, “com a sua célebre afirmação de que o ser é e não pode deixar de ser e o não ser não é e não pode deixar de não ser”. Esta era “a lógica da identidade e da não contradição”, a sobrepor-se “à vida, à lógica do movimento e da existência”.
Mas “o sonho tem o dom de criar realidade”, lembrou. Por isso, “a vingança dos sonhos, revertendo a marcha de Descartes, transpõe para a realidade a lógica dos sonhos”. Assim Manuel Alegre “inverte (…) também a lógica das suas representações, através de uma permeabilidade entre os sonhos e as representações aparentemente desqualificadas da realidade.” E se a escrita é “uma das primeiras representações da realidade”, “neste romance o sonho é uma metáfora da escrita, a escrita é uma metáfora do sonho, ao mesmo tempo que o sonho e a escrita são uma metáfora da existência e da realidade.”
“É o sonho a vingar-se definitivamente”, concluiu João Maria André. “Vinga-se primeiro da realidade e da lógica com que a realidade o pretende aprisionar. Mas vinga-se depois da própria escrita lançando nela a rebeldia e o controle pelo descontrole”, exemplificando com “a primeira das obsessões deste romance”: “uma personagem que faz a mala mas que nunca chega a conseguir arrumá-la, enquanto o autocarro ou o táxi estão sempre a partir. Arrumar a mala seria fechar a mala. Fechar a mala seria fechar o sonho. Partir no autocarro com a mala fechada seria abandonar o terreno do sonho.”
“Com a lógica dos sonhos e a lógica da escrita, é também a lógica das outras artes que, assim, se vinga da lógica linear da realidade” diz ainda João André, na sua leitura das chaves de “Tudo É e não É”, recordando as referências ao cinema, à pintura, à música e à poesia convocadas no livro de Alegre. “O recurso a este elemento intertextual faz entrar na lógica do sonho e na lógica da realidade um dispositivo” a que chamou “pontos de fuga”, que introduzem no livro “um profundo dinamismo que quebra o estaticismo que poderia, a dada altura, caracterizar tanto a realidade como o sonho.”
“Quanto mais avançamos no sonho mais entramos na realidade” diz ainda João Maria André, “porque a lógica dos sonhos, sendo copulativa e coincidencial, não exclui a realidade, mas reclama-a na sua lúcida expressão.” “Por esse motivo, este romance não é um romance em que o poeta militante, Manuel Alegre, troque o mundo da existência pelas oníricas ilusões da terra que não existe”, afirma. “Por esse motivo, não espanta que, recorrentemente, o leitor seja reconduzido ao aqui e agora do seu presente, como quem diz que é aqui, neste espaço, que o sol tem de ser escrito”, conclui.
João Maria André não deixou de assinalar aquilo que, para ele, tem “o sabor de um grito”: “o breve capítulo 14 (p. 17), que constitui mais uma das chaves de todo o livro: ‘Ninguém sabe. E por isso todos somos perseguidos, atacados, cercados, sem saber por quem, inimigos desconhecidos, mão invisível. E se alguém pergunta como não morro, eu lhe responderei: que porque sonho’”.
Se não sentires a poesia, se não sentires a beleza de uma obra, se uma história não faz com que queiras saber o que acontece a seguir, então o autor não escreveu o livro para ti.
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
terça-feira, 15 de novembro de 2011
As Monstruosidades Vulgares - José Régio
Joaquim levou-a nos braços para o quarto de dormir, ajudou-a a mudar de roupa. Sentindo a delicada lascívia dos seus cuidados, já ela se fazia mimalha. Ninguém suporia, conhecendo-o de certos momentos, como, noutros, ele era capaz daquele requinte de voluptuosidades ternas.
A Velha Casa, Volume IV, José Régio
terça-feira, 31 de maio de 2011
O Elogio da Madrasta - Mario Vargas Llosa
Seria possível que Lucrécia lhe fizesse confidências daquela índole, que falasse ao menino do que faziam à noite? Desde logo que não, que palermice. Eram fantasias de Fonchito, algo muito típico da sua idade: descobria malícia, aflorava a curiosidade sexual, a líbido nascente sugeria-lhe fantasias a fim de provocar conversas sobre o fascinante tabu.
Sin noticias de Gurb - Eduardo Mendoza
Sin noticias de Gurb relata a busca de um extraterrestre que desapareceu, depois de adoptar a aparência da vocalista Marta Sánchez, na selva urbana de Barcelona. O protagonista da narração não é Gurb, mas outro alienígena que vem em sua busca e cujo diário constitui o esqueleto da narração:
09.45 "Después de un examen detenido del plano de la ciudad, decido proseguir la búsqueda de Gurb en una zona periférica de la misma habitada por una variante humana denominada pobres. Como el catálogo Astral les atribuye un índice de mansedumbre algo inferior al de la variante denominada ricos y mui inferior al de la variante denominada clase media, opto por la aparencia del ente individualizado denominado Gary Cooper."
Kronk - Edmund Cooper
Ultimamente, nas suas visitas ao monumento de Alberto, Gabriel habituara-se a trazer consigo dois copos de plástico. Já não conseguiria recordar-se de quando iniciara a corrupção do corvo, mas era agora evidente que o bicho enveredara, decidido, pela estrada do alcoolismo.
...
O corvo bebeu mais uma golada. Depois cambaleou e acabou por falar. Muito claramente, proferiu uma palavra:
- Kronk!
- É verdade, tens razão! Exclamou gabriel, levantando o seu copo.
Sexta-feira ou a vida selvagem - Michel Tournier
Robinson apressou o andar. Dentro de poucos instantes, ir-se-ia estender sobre estas terra feminina. (...) Sentiria, então, uma nova força a penetrá-lo ao contacto com esta fonte primeira, voltar-se-ia e colaria o ventre no ventre desta gigantesca e ardente fêmea para rasgar com uma relha de carne.
Parou na orla da floresta. Seria ali que Robinson iria hoje amar. Conhecia já aquele ninho de verdura e, aliás, as mandrágoras suas filhas faziam-lhe sinais de boas-vindas.
Foi então que viu sob as folhas duas pequenas nádegas pretas. Estavam em pleno trabalho,...
A Espuma dos Dias - Boris Vian
- Esta empada de enguias é notável - disse Chick. - Quem te deu a ideia de a fazeres?
- Foi o Nicolas quem teve a ideia - retorquiu Colin. - Há uma enguia - ou antes, havia - que todos os dias vinha ter ao lavatório dele pelo cano da água fria. Punha a cabeça de fora e esvaziava o tubo de pasta dentífrica, fazendo pressão com os dentes. Nicolas só usa pasta americana, de ananás. Isso deve tê-la tentado.
- Como é que ele a apanhou? - perguntou Chick.
- Pôs um ananás inteiro no lugar do tubo. Quando engolia a pasta conseguia deglutir e depois recolher a cabeça, mas com o ananás, quanto mais ela puxava, mais os dentes se enterravam no ananás.
A ESPUMA DOS DIAS - Boris Vian
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