sexta-feira, 31 de julho de 2026

Contos de Clarice Lispector


Gostei dos seguintes:

OS DESASTRES DE SOFIA

Aos 9 anos, Sofia, fascinada por um professor gordo e grande e antipático, que ela provoca porque isso lhe dá prazer, aprende que é possível ser amada mesmo sendo mentirosa e imperfeita: inventou num texto que um tesouro pode ser descoberto do nada, o professor valorizou a sua capacidade de imaginar e disse que ela era uma menina muito engraçada e sorriu, pela primeira vez, mas, para ela, imaginar era mentir e sentiu que o tinha enganado.

A LEGIÃO ESTRANGEIRA

A narradora, quase no Natal, recebe um pintainho, do marido e dos dois filhos. E lembrou-se de Ofélia e da família dela, que viveu no passado no seu prédio.

Um dia num banco do parque, enquanto as crianças brincavam, a mãe de Ofélia confessou que gostaria de tirar um curso de enfeitar bolos. Mas nunca mais mostrou simpatia, chegando mesmo a dizer-lhe no elevador:  “nunca me meto na vida dos vizinhos”.

Mas Ofélia ia muitas vezes a casa da narradora: não sorria, dava conselhos: “Comprou legumes a mais!” “Comprou legumes a menos!” 

A mãe de Ofélia ralhava com ela e dizia que não queria que ela a visitasse.

Um dia, a narradora comprou um pintainho para os filhos. Ofélia apareceu, viu o pinto e finalmente se transformou na criança que era e que até aí não mostrara ser. E acariciou o pinto e foi para a cozinha brincar com ele, entusiasmada. E foi-se embora, de repente. E a narradora foi à cozinha e o pinto estava morto.

Ofélia matou o pintainho sem querer ou de propósito?

Essa dúvida é deliberadamente impossível de resolver. A minha leitura é que Ofélia não parece matar o pintainho com uma intenção fria e previamente decidida. O conto sugere antes um gesto que nasce da mistura de fascínio, medo, desejo de posse e incapacidade de lidar com aquilo que está diante dela. Ela aproxima-se do pintainho, quer conhecê-lo, talvez dominá-lo, e nessa aproximação acaba por destruí-lo.

Mas também seria demasiado simples dizer que foi “sem querer”. Ofélia age. Há uma responsabilidade no gesto. O que fica ambíguo é precisamente a sua intenção: ela queria matar? Queria tocar? Queria possuir? Queria descobrir o que era aquele ser?

É isso que torna o final tão inquietante: o pintainho pode morrer no momento em que Ofélia tenta aproximar-se dele. O desejo de conhecer e o desejo de destruir ficam quase indistinguíveis.

E há ainda um detalhe importante: a narradora também não consegue oferecer uma explicação moral clara. Em vez de dizer “Ofélia matou-o porque era cruel”, ela parece compreender que há nela — e talvez em todos nós — uma zona obscura em que a curiosidade, o amor, a posse e a violência podem tocar-se.

Por isso, eu diria: provavelmente não foi um assassinato planeado, mas também não foi um acidente completamente inocente. Foi um gesto ambíguo, e Clarice deixa-nos precisamente presos nessa ambiguidade.


FELICIDADE CLANDESTINA

A filha do dono da livraria era gorda, baixa, com um busto enorme… e cruel: comia gomas e não emprestava os livros, que também não lia: tinha “As reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato, não o lia e prometeu-me que mo emprestaria ao fim do dia, mas nunca o fez. Todos os dias ia a casa dela, mas ela dizia sempre que o tinha emprestado exatamente antes de eu aparecer. Até que um fim de tarde fui lá e estava lá a mãe dela e disse que o livro nunca saiu de casa e que ela também não o leu. E obrigou-a a emprestar-mo. E eu demora a a abri-lo e sentia uma espécie de felicidade clandestina cada vez que o abria e lia.

GERTRUDES PEDE UM CONSELHO

Tuda, com 17 anos, vai a uma entrevista para pedir conselhos, um trabalho, um rumo, e sente-se nervosa, angustiada, insegura,… tinha escrito uma carta, a explicar o que pretendia. E a doutora que a recebe hesita, dá-lhe conselhos que a irritam, faz com que se sinta como se estivesse num duelo… cansa-a…

OBSESSÃO 

Cristina casa com Jaime e vive uma vida simples com ele e com os pais, até que adoece e vai passar dois meses a Belo Horizonte, para se curar. Na pensão onde se instala, conhece Daniel, que a domina e educa para ser complexa, forte e intensa… 

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