segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Serviços Mínimos de Felicidade - Paulo Kellerman

         Passamos a viver numa espécie de patamar mínimo de desejo e felicidade, acantonados nos nossos direitos adquiridos; habituamo-nos a esse patamar mínimo, seguro e previsível, controlável, abdicamos de ambicionar e perseguir uma felicidade esplendorosa, inesperada e possivelmente aniquiladora (talvez avassaladora mas obviamente impossível de manter indefinidamente), para nos acomodarmos a uma amostra de felicidade mínima, mas estável, a uma espécie de serviços mínimos de felicidade, sem risco nem chama nem combustão. procuramos paz e tranquilidade, quando talvez devêssemos ambicionar agitação e desassossego. Dizemos que vivemos cada dia como se fosse o último mas, na verdade, vivemos cada dia como se fosse o antepenúltimo. E habituamo-nos.
            Habituamo-nos a tudo.

        "Sabes, a acção distrai. Distrai do pensamento, percebes? A melhor forma de contrariar o excesso de pensamento é agir. Não pensar, fazer. Não pensar tanto, fazer mais. Agir. E enquanto se age, não se pensa. Percebes o que te estou a tentar explicar, filha?"  
            Percebia. Mudar de zero-acção para só-acção. Fazer mais e lamuriar-se menos.
           Como se me adivinhasse os pensamentos, disse: "Não acho mal que uma pessoa se queixe um bocado, que se sinta uma desgraçada e o diga. Sabes porquê? Porque a lamúria é o primeiro passo para a mudança. Primeiro queixas-te, depois cansas-te dos lamentos e começas a fazer algo para que aquilo que causou a lamúria mude. É assim que funciona, acho eu. Como quando se vai ao médico, tens de dizer onde te dói, o que está mal; queixar-te. O problema é quando se fica preso na lamúria. Está sempre a acontecer, todos conhecemos pessoas assim. Queixam-se e queixam-se e não saem disso. Não agem. Gente insuportável essa. Mas se a lamúria for o ponto de partida para algo novo, parece-me bem, parece-me uma coisa boa. É como fazer um diagnóstico. É um início."

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

A Visita do Brutamontes - Jennifer Egan


Vou olhando para as pernas da Kitty enquanto caminhamos (o mais que posso sem ter de me arrastar pelo chão ao seu lado - pensamento que me passa pelo espírito) e descobrindo que acima do joelho elas estão semeadas de pelos do mais fino ouro. Por a Kitty ser tão nova e tão bem alimentada, tão resguardada da crueldade gratuita dos outros, tão inconsciente por enquanto de que chegará à meia-idade e acabará por morrer ( possivelmente sozinha), por ainda não se ter desapontado a si mesma, apenas se ter deslumbrado a si e ao mundo com as suas façanhas prematuras, a pele de Kitty - aquele saco macio, roliço, docemente fragrante, em que a vida assenta o registo dos nossos fracassos e exaustões - é perfeita. E por "perfeita" quero dizer que nada pende nem descai, nem estala nem se enruga, nem se eriça nem incha - quero dizer que a pele dela é a pele de uma folha, só que não é verde. Não consigo imaginar uma pele daquelas tendo um odor, uma textura ou um gosto desagradável - sendo alguma vez, por exemplo (é francamente inconcebível), o mais ligeiramente eczematosa que fosse.
...
Aquele olhar! Aquela mirada! Todas as metáforas brejeiras que se imaginam vêm ao espírito: sol irrompendo entre as nuvens, botões de flores abrindo-se, o súbito e místico aparecimento do arco-íris.
...
... e mergulhar os meus braços naquele líquido puro e perfumado que rodopia no interior dela.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O lugar do morto - José Eduardo Agualusa

SOBRE CORCUNDAS E ELEIÇÕES -  Léopold Sédar Senghor

Quero contar‐vos uma história africana. Havia numa aldeia remota uma jovem de rosto fino, tensa pele de tantã, voz grave de contralto, mãos de alísios, mãos que curam febres, pálpebras de penugem e de pétalas de aloendro, sobrancelhas secretas e puras como hieróglifos. Os cabelos eram como o fogo a rolar pelo mato à noite. Pérolas brilhavam como estrelas contra a sua pele noturna. Receio já ter utilizado uma ou outra destas imagens em poemas que publiquei enquanto vivia. Perdoem‐me. Inéditas ou não, são imagens que servem na perfeição para descrever a jovem da minha história. Vou chamar‐lhe Vissolela.
Apesar de todas as laboriosas imagens que usei acima para descrever Vissolela, a rapariga não encontrava pretendentes. Porquê? Pois, porque logo que os homens conseguiam afastar os olhos do seu belo rosto davam com a corcunda. Vissolela nascera com um morro de salalé a desfear‐lhe o perfil solene. Definhava ela, escondida a um canto, e entristeciam os pais. Então, certa tarde, chegou à aldeia um forasteiro. Era um homem aprumado, de palavras medidas e justas, olhos fundos e limpos como um céu de verão depois das chuvas. Sendo o primogénito os pais deram-lhe o nome de Nendela.
Nendela viu Vissolela. Viu-a cozinhar, viu-a varrer o terreiro com humilde zelo. Impressionou-o a dignidade daquela mulher, comoveu-o a noite azul do seu coração. Ao fim de alguns dias decidiu falar com os pais da moça. "Quero casar com a vossa filha", disse. O pai estranhou: "Não pode ser. Não temos nenhuma filha escorreita que te possamos entregar." Nendela apontou Vissolela: É aquela que eu  quero."
Os pais concordaram, surpresos mas felizes com a sorte da filha. Nendela voltou alguns dias depois com cinco vacas - para o alembamento - e levou a rapariga. Nessa noite Vissolela chorou, um choro tristíssimo, que assustou o marido.
"Sou feia", lamentou-se. "Como podes gostar de mim?"
"Gosto de ti tal como és", assegurou-lhe Nendela. "Gosto tanto de ti que não consigo ver-te sofrer. Se te horroriza a esse ponto a tua corcunda deixa-me ficar eu com ela."
Mal terminou de dizer isto a corcunda passou para as suas costas e Vissolela endireitou-se incrédula, feliz, mulher de altas pernas, tronco esguio, doce pele de melaço. Durante alguns meses o casal foi feliz. Vissolela, porém, transformava-se. Já não gostava de ficar em casa, a cozinhar, a cuidar dos porcos e das galinhas, enquanto o marido ia fazer o serviço da lavra, caçar ou pescar.
Agora Vissolela passava muito tempo a entrançar o cabelo, a perfurar-se, a amaciar a pele com óleo de palma. Passou-se mais algum tempo e Vissolela começou a ser cortejada pelos homens da aldeia. Um deles encantou-a. Era um sujeito de natureza lábil, esbelto mas furtivo, como um guerreiro perdido nos altos agimos do sono. Disse-lhe o jovem: "O que faz uma mulher bela como tu com um aleijado? Deixa o teu marido e vem comigo." Vissolela concordou. Preparava-se para abandonar a sua casa quando Nendela apareceu, vindo da lavra. "Vou-me embora", disse ao marido. "Não suporto mais viver contigo, um aleijado." Nendela olhou-a com o coração desfeito. "Vai então", concordou, "mas não te esqueças de levar a tua corcunda." Ao dizer isto endireitou-se e no mesmo instante a horrível corcunda regressou às costas de Vissolela.
Foi assim que aconteceu.

in O LUGAR DO MORTO - JOSÉ EDUARDO AGUALUSA


O ACORDO ORTOGRÁFICO - Machado de Assis

Há portugueses aos quais parece incomodar o crescente empenho do Brasil na afirmação internacional do português. Noventa e cinco por cento dos falantes de português no mundo são brasileiros. Não fossem os cento e noventa milhões de brasileiros e o português teria menos relevância que o holandês ou o catalão. Os portugueses deveriam, sim, exigir mais empenho ao Brasil.

Recordo, a propósito, o caso do escritor português de visita ao Rio de Janeiro a quem alguém terá, estupidamente, recriminado o sotaque (querendo, talvez, referir-se à má dicção). Empertigando-se o português retorquiu: «Quem tem sotaque é você, a língua é minha.» Engano o dele. A língua é de todos quantos a vêm criando e recriando, com paixão e ternura, desde que ela se formou, e, mais tarde, se espalhou pelo mundo.

No que diz respeito ao sotaque, o erro não é menor: os especialistas em prosódia têm vindo a comprovar, através de engenhosos exercícios, que o sotaque de Lula da Silva está mais próximo do sotaque de Pedro Álvares Cabral do que o de Cavaco Silva. E não apenas o sotaque. A periferia tende a ser conservadora. Quase sempre muda-se a partir do centro, e terá sido também isso que aconteceu com o nosso idioma. Se, como receiam tantos portugueses, o presente Acordo Ortográfico forçar o português de Portugal a aproximar-se das variantes brasílicas, não haverá nisso tanto de deriva quanto de regresso. Ao aproximar-se do Brasil, está Portugal aproximando-se de si mesmo — está, afinal, a fazer-se mais português. Também nesse sentido o Brasil é o futuro de Portugal.



RESPOSTA A ANA MOURA - Fernando Pessoa

Ana Moura gostava que eu fosse vivo. Vivo, escreveria versos para fados que depois ela cantaria. Disse‐o recentemente em entrevista ao jornal Público
Eu, que nem tenho a certeza de ter estado vivo alguma vez, da mesma forma que não tenho a certeza, agora, de estar realmente morto, escreveria de boa vontade os tais fados, contanto que fosse numa taberna - e não pelos fados, Ana, mas pelo vinho.
Estar ao serviço de Ana Moura, na Mouraria, nem sequer me parece fado atroz, ao contrário de tantos outros que me têm imposto desde que naquele dia trinta de novembro de mil novecentos e trinta e cinco me deixei arrebatar pelo sonho e parti (sempre gostei de sonhar; sonhar sem o receio de despertar, eis a perfeição do sonho). 
A minha silhueta passeia‐se hoje por toda a parte, e serve, sem cobrar nada, a tudo e a todos: promove campanhas turísticas, assinala as retretes masculinas, frequenta galerias de arte e livros para crianças, na sua maioria muito maus. Os meus versos servem a todos os fins. Ouço‐os nas bocas de cardeais e de maçons, nas bocas de mulheres virtuosas e de putas; nas bocas de generais e de outros comprovados canalhas.

in O LUGAR DO MORTO - JOSÉ EDUARDO AGUALUSA



OS PORTUGUESES NÃO GOSTAM DE ASAS - Eça de Queirós

Há tempos passeava eu, placidamente, era um fim de tarde lento e melancólico, junto aos fortes portões do Paraíso, quando vi chegar um português. Via‐se pela alma que fora um homem sem maldade. Também se via, olhando melhor, que fora inteiramente sem maldade, não por um esforço de vontade, mas por pura preguiça. São Pedro recebeu‐o com um fatigado abraço — lembrem‐se que findava o dia — e estendeu‐lhe um par de asas. O português protestou: «E que farei eu com essas asas?» São Pedro, encolhendo os ombros magros: «Ora, filho, voa!» O português recuou, aterrado: «Ah não! Isso é que não pode ser! Fique lá o senhor com as asas que eu se vim para aqui foi para descansar.»
E assim vamos nós.

in O LUGAR DO MORTO - JOSÉ EDUARDO AGUALUSA


quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Tudo é e não é - Manuel Alegre

"Num brilhante ensaio sobre “Tudo É e não É”, de Manuel Alegre, João Maria André, filósofo e Professor catedrático na Faculdade de Letras de Coimbra, na apresentação do romance na Casa da Escrita, afirmou estarmos perante um livro que acaba por ser uma “vingança dos sonhos ou o reverso de Descartes”. Isto porque, apesar de se tratar de ficção, é uma obra que a partir do dispositivo dos sonhos e da sua interação com a realidade e com a escrita, subverte a lógica binária cartesiana.

João Maria André explicou que “o que Descartes faz é desqualificar o sonho na sua relação com a realidade” e com isso “desqualifica, ao mesmo tempo, toda a realidade que se possa assemelhar ao sonho”, bem como a lógica do sonho, “que não é uma lógica linear nem binária, como a lógica de Parménides e de Aristóteles, mas uma lógica complexa”, em que “o princípio da identidade e o princípio de não contradição deixam de ter a sua validade, para serem substituídos por outros princípios, talvez menos apolíneos e mais dionisíacos”.

Ora, como afirmou, a desqualificação do sonho “é simultaneamente a desqualificação de todos os outros registos discursivos”, “que não se servem da lógica linear e binária, distintiva e excludente, mas de uma lógica copulativa”, “que em vez de assentar no ou…ou assentam no e…e”, “ou seja, uma lógica da coincidência” como a defendida por Nicolau de Cusa, no século XV.

Assim, para João Maria André, “Tudo É e Não É”, logo no título, é, de facto, “uma vingança dos sonhos” e “um retorno da sua lógica copulativa e coincidencial, não apenas no registo dos sonhos, mas também no registo da realidade.”

“Efectivamente”, argumentou, “desde que os homens começaram a substituir o modo do pensar do mythos pelo modo de pensar do logos, ou seja, desde os longínquos séculos VI e V antes de Cristo da antiga Grécia, que o ser e o não ser, na sua exclusão ou na sua coincidência, constituíram o tema central da reflexão filosófica”, com destaque para Parménides, “com a sua célebre afirmação de que o ser é e não pode deixar de ser e o não ser não é e não pode deixar de não ser”. Esta era “a lógica da identidade e da não contradição”, a sobrepor-se “à vida, à lógica do movimento e da existência”.

Mas “o sonho tem o dom de criar realidade”, lembrou. Por isso, “a vingança dos sonhos, revertendo a marcha de Descartes, transpõe para a realidade a lógica dos sonhos”. Assim Manuel Alegre “inverte (…) também a lógica das suas representações, através de uma permeabilidade entre os sonhos e as representações aparentemente desqualificadas da realidade.” E se a escrita é “uma das primeiras representações da realidade”, “neste romance o sonho é uma metáfora da escrita, a escrita é uma metáfora do sonho, ao mesmo tempo que o sonho e a escrita são uma metáfora da existência e da realidade.”

“É o sonho a vingar-se definitivamente”, concluiu João Maria André. “Vinga-se primeiro da realidade e da lógica com que a realidade o pretende aprisionar. Mas vinga-se depois da própria escrita lançando nela a rebeldia e o controle pelo descontrole”, exemplificando com “a primeira das obsessões deste romance”: “uma personagem que faz a mala mas que nunca chega a conseguir arrumá-la, enquanto o autocarro ou o táxi estão sempre a partir. Arrumar a mala seria fechar a mala. Fechar a mala seria fechar o sonho. Partir no autocarro com a mala fechada seria abandonar o terreno do sonho.”

“Com a lógica dos sonhos e a lógica da escrita, é também a lógica das outras artes que, assim, se vinga da lógica linear da realidade” diz ainda João André, na sua leitura das chaves de “Tudo É e não É”, recordando as referências ao cinema, à pintura, à música e à poesia convocadas no livro de Alegre. “O recurso a este elemento intertextual faz entrar na lógica do sonho e na lógica da realidade um dispositivo” a que chamou “pontos de fuga”, que introduzem no livro “um profundo dinamismo que quebra o estaticismo que poderia, a dada altura, caracterizar tanto a realidade como o sonho.”

“Quanto mais avançamos no sonho mais entramos na realidade” diz ainda João Maria André, “porque a lógica dos sonhos, sendo copulativa e coincidencial, não exclui a realidade, mas reclama-a na sua lúcida expressão.” “Por esse motivo, este romance não é um romance em que o poeta militante, Manuel Alegre, troque o mundo da existência pelas oníricas ilusões da terra que não existe”, afirma. “Por esse motivo, não espanta que, recorrentemente, o leitor seja reconduzido ao aqui e agora do seu presente, como quem diz que é aqui, neste espaço, que o sol tem de ser escrito”, conclui.

João Maria André não deixou de assinalar aquilo que, para ele, tem “o sabor de um grito”: “o breve capítulo 14 (p. 17), que constitui mais uma das chaves de todo o livro: ‘Ninguém sabe. E por isso todos somos perseguidos, atacados, cercados, sem saber por quem, inimigos desconhecidos, mão invisível. E se alguém pergunta como não morro, eu lhe responderei: que porque sonho’”.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

As Monstruosidades Vulgares - José Régio

Joaquim levou-a nos braços para o quarto de dormir, ajudou-a a mudar de roupa. Sentindo a delicada lascívia dos seus cuidados, já ela se fazia mimalha. Ninguém suporia, conhecendo-o de certos momentos, como, noutros, ele era capaz daquele requinte de voluptuosidades ternas.

A Velha Casa, Volume IV, José Régio

terça-feira, 31 de maio de 2011

O Elogio da Madrasta - Mario Vargas Llosa

Seria possível que Lucrécia lhe fizesse confidências daquela índole, que falasse ao menino do que faziam à noite? Desde logo que não, que palermice. Eram fantasias de Fonchito, algo muito típico da sua idade: descobria malícia, aflorava a curiosidade sexual, a líbido nascente sugeria-lhe fantasias a fim de provocar conversas sobre o fascinante tabu.

Sin noticias de Gurb - Eduardo Mendoza

Sin noticias de Gurb relata a busca de um extraterrestre que desapareceu, depois de adoptar a aparência da vocalista Marta Sánchez, na selva urbana de Barcelona. O protagonista da narração não é Gurb, mas outro alienígena que vem em sua busca e cujo diário constitui o esqueleto da narração:
09.45            "Después de un examen detenido del plano de la ciudad, decido proseguir la búsqueda de Gurb en una zona periférica de la misma habitada por una variante humana denominada pobres. Como el catálogo Astral les atribuye un índice de mansedumbre algo inferior al de la variante denominada ricos y mui inferior al de la variante denominada clase media, opto por la aparencia del ente individualizado denominado Gary Cooper."