sexta-feira, 19 de julho de 2019

A Trégua - Mario Benedetti

Jueves 21 de febrero

Esta tarde, cuando venía de la oficina, un borracho me detuvo en la calle. No protestó contra el gobierno, ni dijo que él y yo éramos hermanos, ni tocó ninguno de los innumerables temas de la beodez universal. Era un borracho extraño, con una luz especial en los ojos. Me tomó de un brazo y me dijo, casi apoyándose en mí: ¿Sabés lo que te pasa? Que no vas a ninguna parte.
Otro tipo que pasó en ese instante me miró con una alegre dosis de comprensión y hasta me consagró un guiño de solidaridad. Pero ya hace cuatro horas que estoy intranquilo, como si realmente no fuera a ninguna parte y sólo ahora me hubiese enterado.


domingo, 21 de abril de 2019

O tempo envelhece depressa - Antonio Tabucchi




Os Malaquias - Andréa del Fuego

Serra Morena é íngreme, úmida e fértil.
Aos pés dela vivem os Malaquias, janela com tama- nho de porta, porta com autoridade de madeira escura.
— Corre, Adolfo!
Donana pedia ajuda ao marido, ele cravou o machado na lenha e foi acudir. A bacia brilhava no fundo da cisterna, Adolfo desceu a corda com o balde amarrado na ponta, o encaixou na bacia e foi arrastando-a de volta pela parede. A mulher não fazia mais o pesado, com osso quebradiço, passou a benzer espinha de criança e com reza ganhava fubá, café e leite. Branca rosada, lábio fino. Tirando os Malaquias, os habitantes eram pardos como mamíferos silvestres.
As crianças fizeram um círculo em torno do poço, o lençol freático refletia três pares de mãos, cada par moldurando dois brilhos e um nariz: Nico tinha olho azul, nove anos. Antônio, miúdo, seis. Júlia, barriguda, quatro.

Todos se recolheram, a noite ia grossa, o vento afrouxava as janelas. As telhas vibravam, num mínimo gesto a tempestade nasceria dentro da casa. Os pais dormiam em um quarto. Nico, Júlia e Antônio em outro, na mesma cama, aninhados em forma de embrião.
Um gato esticou as pernas, as paredes se retesaram. A pressão do ar achatou os corpos contra o colchão, a casa inteira se acendeu e apagou, uma lâmpada no meio do vale. O trovão soou comprido até alcançar o lado oposto da serra. Debaixo da construção a terra, de carga negativa, recebeu o raio positivo de uma nuvem vertical. As cargas invisíveis se encontraram na casa dos Malaquias.
O coração do casal fazia a sístole, momento em que a aorta se fecha. Com a via contraída, a descarga não pôde atravessá-los e aterrar-se. Na passagem do raio, pai e mãe inspiraram, o músculo cardíaco recebeu o abalo sem escoamento. O clarão aqueceu o sangue em níveis solares e pôs-se a queimar toda a árvore circulatória. Um incêndio interno que fez o coração, cavalo que corre por si, terminar a corrida em Donana e Adolfo.
Nas crianças, nos três, o coração fazia a diástole, a via expressa estava aberta. O vaso dilatado não perturbou o curso da eletricidade e o raio seguiu pelo funil da aorta. Sem afetar o órgão, os três tiveram queimaduras ínfimas, imperceptíveis.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

A morte de Ivan Ilitch - Lev Tolstoi

"Ocorreu-lhe que aquelas suas quase imperceptíveis veleidades de luta contra aquilo que as pessoas altamente colocadas consideravam bom, essas quase imperceptíveis veleidades que ele prontamente rejeitava - que elas pudessem ser verdadeiras e tudo o resto falso."
A morte de Ivan Ilitch, Lev Tolstoi

COSSACOS - Novela do Cáucaso, Lev Tolstoi

"Da aldeia de Izmáilovo,
Do querido jardim do czar,
O bravo falcão voou para fora,
Atrás dele corria o jovem caçador,
Chamando o falcão para a mão direita.
Responde-lhe o bravo falcão:
- Não soubeste manter-me na gaiola dourada,
Nem pousar-me na tua mão direita,
Agora vou para o mar azul,
Mato lá um cisne branco,
Como a carne doce do cisne."

Canção preferida do cossaco Lukachka,
In COSSACOS - Novela do Cáucaso, Lev Tolstoi

quarta-feira, 1 de março de 2017

As velas ardem até ao fim - Sándor Márai

- Tens de responder a duas perguntas - diz o general e inclina-se também para a frente; fala sussurrando, num tom confidencial. - A duas perguntas que elaborei há muito tempo, nas últimas décadas, enquanto esperava por ti. A duas perguntas a que só tu podes responder. Vejo que pensas que quero perguntar se tenho razão, se naquela manhã, na caça, realmente tiveste a intenção de me matar. Não foi tudo isso imaginação minha? Afinal de contas, não aconteceu nada. Mesmo o instinto do melhor caçador pode falhar. E pensas que a outra pergunta seria assim: foste amante da Krisztina? Enganaste-me, como se costuma dizer, e ela enganou-me, no sentido real, vulgar e vil da palavra? Não, meu amigo, essas duas perguntas já não me interessam. A essas perguntas tu respondeste, o tempo respondeu e respondeu também a Krisztina, à sua maneira.

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Envelhecer

Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o sginificado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer... Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreeende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal... e isso é precisamente a velhice. 

Sándor Márai, in 'As Velas Ardem Até ao Fim'

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Serviços Mínimos de Felicidade - Paulo Kellerman

         Passamos a viver numa espécie de patamar mínimo de desejo e felicidade, acantonados nos nossos direitos adquiridos; habituamo-nos a esse patamar mínimo, seguro e previsível, controlável, abdicamos de ambicionar e perseguir uma felicidade esplendorosa, inesperada e possivelmente aniquiladora (talvez avassaladora mas obviamente impossível de manter indefinidamente), para nos acomodarmos a uma amostra de felicidade mínima, mas estável, a uma espécie de serviços mínimos de felicidade, sem risco nem chama nem combustão. procuramos paz e tranquilidade, quando talvez devêssemos ambicionar agitação e desassossego. Dizemos que vivemos cada dia como se fosse o último mas, na verdade, vivemos cada dia como se fosse o antepenúltimo. E habituamo-nos.
            Habituamo-nos a tudo.

        "Sabes, a acção distrai. Distrai do pensamento, percebes? A melhor forma de contrariar o excesso de pensamento é agir. Não pensar, fazer. Não pensar tanto, fazer mais. Agir. E enquanto se age, não se pensa. Percebes o que te estou a tentar explicar, filha?"  
            Percebia. Mudar de zero-acção para só-acção. Fazer mais e lamuriar-se menos.
           Como se me adivinhasse os pensamentos, disse: "Não acho mal que uma pessoa se queixe um bocado, que se sinta uma desgraçada e o diga. Sabes porquê? Porque a lamúria é o primeiro passo para a mudança. Primeiro queixas-te, depois cansas-te dos lamentos e começas a fazer algo para que aquilo que causou a lamúria mude. É assim que funciona, acho eu. Como quando se vai ao médico, tens de dizer onde te dói, o que está mal; queixar-te. O problema é quando se fica preso na lamúria. Está sempre a acontecer, todos conhecemos pessoas assim. Queixam-se e queixam-se e não saem disso. Não agem. Gente insuportável essa. Mas se a lamúria for o ponto de partida para algo novo, parece-me bem, parece-me uma coisa boa. É como fazer um diagnóstico. É um início."