terça-feira, 23 de abril de 2024

Naufrágio - João Tordo


O DESERTO

O narrador confessa que não escreve há 10 anos, que o fazia em busca de reconhecimento e não de felicidade. Voltou a viver, conviver, arranjou uma namorada 25 anos mais nova.

Em 2015 foi-lhe diagnosticado um cancro. 

18 meses depois foi e está a ser acusado de assédio.


NÃO SABER AMAR É CASTIGO SUFICIENTE


EIS A VERDADEIRA HISTÓRIA:

Nos meus 30 fui um mulherengo sempre insatisfeito.

Com a acusação veio a censura aos meus livros.

Diagnosticaram-me cancro. 

Comprei um barco sem motor. 

Acabei com Leonor, a namorada 25 anos mais nova. Fiquei impotente. Emagreci. Perdi o cabelo. O cancro regrediu. Ao fim de um ano, fui acusado de assédio sexual consumado: sete mulheres, a primeira chamava-se Alice. Na América acontece o #Metoo. Não me lembro de ter assediado ninguém. 

Publiquei livros de 1985 a 1992. 

Fui ver a entrevista da apresentador Brígida a uma queixosa: Catarina Schern, 18 anos mais nova que eu, que afirma ter sido afastada de um papel numa peça de teatro baseada num livro meu, por ter recusado o meu assédio. Se bem me lembro foi ela que me beijou primeiro.

Converso com o padre Romano, com quem me confesso, embora agnóstico, desde que deixei de escrever. Foram 7 mulheres a queixar-se de mim.

Lembrei-me então de Alice:

ALICE

A relação quase masoquista de Alice com o escritor professor Toledo, 18 anos mais velho: ela cede 2 ou 3 vezes ao assédio dele, pelo álcool e pela admiração vaga, mas fica com violentos traumas para toda a vida, por não ter resistido. Pune-se e corta-se por ter acontecido.

A relação foi absolutamente errada: a culpa foi dele!

O MAR

O artista Rafael, amigo de Toledo, é também acusado por várias mulheres modelos nus de ele ter abusado delas

Tanto as de Rafael como Alice eram jovens frágeis, bonitas, ingénuas, de coração aberto à arte e à literatura, em busca de talento, que acabaram por se tornar sombras de si próprias depois de passarem pela mão dos abusadores (página 111).

Nina Simões foi outro caso: com pouco mais de 20 anos, psicóloga recém-licenciada, idealizou Toledo e deixou-se seduzir e arrastar por ele até também se tornar um farrapo humano, quando ele a menosprezou e abandonou.

Toledo, ao contrário de Rafael, reconhece agora o mal que fez às mulheres que o acusam: todas se entregaram a ele voluntariamente, mas ele devia ter recusado: a responsabilidade foi dele.

Toledo tem dois sobrinhos: Laura e Mateus. A editora Cláudia não quer que ele abandone o apartamento, mas sem publicar nem vender livros (as livrarias devolveram-nos) ele não tem dinheiro para a renda e vende os móveis todos.

Deixa o apartamento a 2 de fevereiro de 2019, um ano depois das acusações. O padre Romano ajuda-o a acarretar o que lhe resta. Vai viver para o barco. Tem 59 anos. Ren o rapaz que lhe vendeu o barco, que era do padrasto, oferece-se para o ajudar a criar algumas condições no barco, como um gerador de eletricidade. 

No barco, lembra-se de ter lido e gostado de Emanuel Carrère, que escreveu sobre a própria sordidez, com sucesso. Talvez por isso, Toledo admite que sempre foi um manipulador das mulheres, incluindo a primeira namorada a quem convenceu a fazer-lhe um broche e fingiu que se tinha descontrolado, vindo-se na sua boca. 

Ren visita-o e conta-lhe que leu na internet sobre ele. Tomam uns ácidos juntos e mergulham no Tejo. Depois Toledo adormece.

TERRA

Toledo começou a sentir-se bem no Narcisse. Sobram-lhe 3000€. Uma mulher aparece na penumbra: será Alice. Toda a gente sabe que ele está ali, na Doca de Santo Amaro. Adota um cão vadio. Cláudia pede-lhe que vá ao programa da Brígida, contar a sua versão dos acontecimentos, o seu arrependimento, não a sua culpa, porque não sabia que estava a errar, quando errou, só agora o reconhece.

Com Catarina Stern houve assédio. Ela era atriz da adaptação do seu livro e atuava nua. Ele desenvolveu uma obsessão por ela e tentou beijá-la e caçá-la. Ela recusou-o inicialmente.

A mulher da penumbra aparece novamente. É Alice, vinte anos depois. Pede desculpa por o ter deixado nesta situação precária, no Narcisse, que no Inverno será penoso. Mas Toledo fez-lhe muito mal: ela adorava-o como escritor e ele usou isso para a seduzir e usar. Ele pede-lhe desculpa. A seguir ela vai embora.

Afinal o padrasto de Ren apareceu morto no Narcisse. Ren gastou os 18000€ que Toledo lhe deu pelo barco?

Ren dorme num anexo de um restaurante.

Toledo dorme lá e quando acorda e sai com o cão, confundem-no com um sem-abrigo. No regresso ao barco, está lá Alice.

Ela justifica ter apresentado queixa contra ele: estava muito em baixo há anos e ele era famoso e de sucesso. O movimento #Metoo convenceu-a a expor a sua dor, para ver se desaparecia. E agora está com pena do que lhe aconteceu a ele, por ele ter sido uma espécie de bode expiatório.

Jantam, bebem, dão-se bem. Ela passa a ser uma visita constante. Aproximam-se emocionalmente, sem sexo. Ela diz que o facto de ele ficar impotente pode ter sido uma maneira de ele deixar de ser um abusador e descobrir empatia e sentimentos.

A irmã Júlia e a sobrinha visitam-no. Laura fica e conhece Ren. Passam a noite com Toledo. Bebem e fumam charros. De madrugada Toledo acorda. Ren tinha ido embora: ele e Laura tinham dormido juntos.

Alice visita-o. O sentimento dele por ela é sereno e dá-lhe serenidade.

O CÉU

Toledo aceita ir ao programa da Brígida. Antes de começarem as perguntas passa uma reportagem sobre os mais recentes acusados: o último é o padre Romano: assediou três beatas.

Correrá bem a entrevista?

Que fim terá a história?

Ren existe? A Alice que o visitou existe? Ou foram criados pela sua mente em busca de autoperdão?

APÓS ESTES 5 ANOS DE INSANIDADE, TOLEDO ESCREVE ESTÁ SUA HISTÓRIA, ESTE SEU NAUFRÁGIO, PARA RENASCER ..,










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