terça-feira, 25 de agosto de 2020

A salvação de Wang-fô - Marguerite Yourcenar

“A salvação de Wang-fô” de Marguerite Yourcenar

O velho pintor Wang-fô e o seu discípulo Ling erravam pelo reino dos Han. O pintor era conhecido por ter o poder de dar vida às suas pinturas por um derradeiro toque de cor.

Tinham-se conhecido numa taberna e Ling, de tal forma se modificara pelos ensinamentos de Wang-fô, que sacrificara a sua fortuna para seguir o mestre.

Um dia são procurados por soldados, algemados e levados ao palácio Imperial. Dragão Celeste, o Imperador, crescera só e encerrado numa ala do palácio coberta de quadros de Wang-fô. Dragão Celeste acusa Wang-fô de lhe ter mentido sobre o mundo com as suas pinturas e quer queimar-lhe os olhos e cortar-lhe as mãos. Os soldados matam Ling, quando este tenta defender o mestre. Wang-fô é obrigado a pintar um quadro inacabado da sua juventude. Pinta o mar e uma canoa, onde Ling aparece para o vir buscar. Os dois desaparecem no quadro, perante os olhares atónitos do Imperador e seus cortesãos.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Rebeldes - Sándor Márai


No final de 1918, a guerra distante deixa marcas na tranquila cidade de Kassa: muitos habitantes morreram no front ou voltaram mutilados, há escassez de comida, e volta e meia cadáveres de soldados desconhecidos surgem boiando na correnteza do rio que passa pelos bairros pobres. Quatro rapazes, a princípio movidos apenas pela curiosidade, passam a cometer pequenos delitos. Ingénuos e inconsequentes, pouco a pouco os rebelados vão ampliando suas ousadias e descobrem os prazeres da transgressão nos jogos de azar, no fumo, no roubo e na bebida. Como que entorpecidos, caem nas malhas sedutoras estendidas por um ator que promete lhes mostrar os bastidores da vida. Rebeldes é um romance sobre as dores e descobertas da passagem para a idade adulta. Escrito nos anos 30, o período mais fértil da carreira de Sándor Márai, o livro compõe um denso panorama da burguesia de seu tempo.


LITERATURA

"Los rebeldes" es una de las primeras novelas maduras de Sándor Márai aunque la revisó al final de su vida y desconocemos el alcance de las modificaciones que realizó.

Lejos de sus grandes obras, complejas e impactantes, como "El último encuentro" o "La mujer justa", este libro ofrece el suficiente interés para leerlo y presenta un desenlace filosófico y social que nos hace reflexionar sobre la complejidad de la diferencia de clases.






En plena Gran Guerra cuatro jóvenes se acaban de graduar y tendrán que afrontar su incorporación a esa contienda que, en su ignorancia, no les preocupa en exceso: la guerra sólo pasa por las vías del ferrocarril. Son un grupo de adolescentes que rechazan la vida de los adultos, que quieren vivir su mundo según sus propias reglas: beber, fumar, criticar a los adultos, robar objetos apreciados en sus familias para almacenarlos... Ábel es hijo de un médico y Tibor de un importante militar, sus padres están luchando desde hace mucho tiempo en el frente. Béla es el hijo de un rico comerciante y Erno de un modesto zapatero. Aunque Erno aspira a cambiar su vida, sabe que no parte de las mismas condiciones que sus compañeros. Al grupo se une, en alguna ocasión, el hermano de Tibor que ha vuelto de la guerra manco, un personaje que oscila entre el mundo de los adultos y el de los jóvenes. Un actor cómico en declive, Amadé, les abrirá las puertas a su mundo y será, al mismo tiempo, el instrumento desestabilizador de la pandilla.


La novela transcurre a un ritmo pausado, el autor nos va introduciendo en las extrañas andanzas de los jóvenes. Al principio parece que Ábel va a ser el hilo conductor de la historia, algo le corroe desde el principio, pero irá perdiendo importancia en el transcurso de la novela que va pasando de un personaje a otro.

El conflicto emocional de los protagonistas se va definiendo poco a poco: descubriremos que Tibor se aburre con la pandilla, intenta disimularlo pero no aprecia a sus compañeros, ni siquiera a Ábel, su gran admirador; Béla será el rebelde independiente que roba dinero de la tienda para comprar objetos inútiles, provocará al principio desconfianza en el resto del grupo pero, al final, su acto de rebeldía transgresora impulsa al resto a cometer pequeños hurtos en el contexto familiar; Erno será el compañero en desventaja, siempre ninguneado por el resto...


Puede desconcertar al lector el comportamiento irracional de los jóvenes, la conversación del zapatero llena de exacerbado rencor hacia los ricos o el ridículo personaje del actor pero la obra, precisamente por eso, resulta más realista, sin intentar explicarnos las actitudes de los seres que pueblan sus páginas.

La novela adquiere fuerza en su parte final cuando todos los conflictos que subyacían acaban estallando y aclarando la realidad que se esconde en una aparente convivencia armoniosa. Justo antes del conflicto final, casi planteado como un desenlace de una novela detectivesca, Márai nos regala uno de sus diálogos impresionantes, una conversación untuosa del prestamista con Ábel y Tibor que no tiene desperdicio: tras la falsedad se abre la fría manipulación del mundo adulto que pilla por sorpresa a los dos jóvenes.


Para llegar a esa escena en la que el escritor nos deslumbra con su genio característico, nos hace pasar por anécdotas contadas sin fuerza, una divagación narrativa que acompaña unas andanzas erráticas de unos jovenzuelos. Si, nos deja vislumbrar poco a poco los pensamientos de esos chavales inmaduros, que arrastran el germen de su vida adulta, nos deja alguna reflexión, pero no consigue redondear el relato. Quizá la escena que antes comentaba, el diálogo con el prestamista, en realidad fue escrita con posterioridad.


"Los rebeldes" es una novela para amantes de Sándor Márai como el que os escribe.



Rebeldes - Sándor Márai

DOIS ASES DE COPAS

Ábel, filho do médico vive com a tia Etelka e com a empregada, desde que a mãe morreu. 

SELVA E ESTUFA

Ele, Béla, Tibor, Erno, Garren, fizeram o último exame do secundário, jogaram às cartas, com batota e daqui a seis meses vão para a guerra.

Há um ano, algo de inesperado irrompera nele. E soube então que existia outro mundo.

A SERPENTE DE BRONZE

Ábel foi ter com o sapateiro, pai de Erno, para lhe contar tudo sobre Tibor Prockauer.

OS PERFUMES DE AMADÉ

O bando formou-se. Ábel tem 18 anos, envolto no mistério da escrita. Tibor interessa-se por desporto, teatro e mulheres. Béla, moda e mulheres. Tamás Garren, dinheiro e jogo. Erno, xadrez, matemática e ??. Lajos, o maneta.

Ábel vai visitar o pai de Béla, comerciante.

O ator Amadeu Volpé, 45 anos, adiposo. “Com fitas métricas e médias de tabelas médicas, justificava que era magro como um flamingo, representando, sob todos os pontos de vista, a perfeição do corpo masculino, a barriga projetava-se, porque, no calor da excitação, se esquecera de a encolher.”

Na quarta classe, eram cinquenta na turma. No exame final, quatro anos depois, restavam dezassete. Depois formou-se o bando dos 4. Quando a ator apareceu na cidade já o bando se tinha consolidado.

Jogam e Ábel denuncia: alguém anda a fazer batota, conforme o comprovam os ases duplicados que encontrou. Como todos são suspeitos, o ator aconselha a que esqueçam.

Estamos em 1918.

O gordo penhorista Havas, amigo de Amadé, também joga.

Tibor penhorou um serviço de prata, há 6 meses, quando tudo aconteceu. Entretanto todo o dinheiro desapareceu.

XILOGRAVURA

Cidade com 3 montanhas, rio e mar. Uma estação de comboio, há 4 anos onde se recolhem feridos e cadáveres da guerra. O mesmo acontece com um mosteiro e com uma escola. Parece uma cidade hospital, a quilómetros da guerra. Mas a vida continua, há cinema, teatro, jardins, rotina.

O DEPÓSITO 

O bando começou a roubar em novembro de 1918. Béla roubou dinheiro da caixa do pai, para comprar sapatos, roupa nova, comida cara, uma bicicleta. Não usava nada, com medo de que o pai descobrisse. Agora era necessário esconder aquele “depósito” de bens. Todos começam a roubar coisas de casa e a trocar entre eles.

Começam a arriscar mais. Como tinham os quartos cheios, arrendaram quartos abandonados num hotel balnear quase abandonado, o Furcsa, onde depositaram o espólio roubado e de se reuniam.

ABERTURA

Conheceram-se então muito melhor e aos seus medos. Queriam saber porque estavam juntos.

Lájos apresentou o ator ao bando. Não lhe falaram do Furcsa. Duas semanas depois de os ter conhecido, convidou-os para sua casa.

O que queria o ator deles? “Por vezes, o ator infiltrava-os no camarote dos artistas, no segundo andar. Sentavam-se, apertados, no fundo do camarote, e Amadé representava para eles. O ator representava, sob o mesmo imperativo com que eles representavam, a realidade distorcida por trás de uma personagem ou das dolorosas caretas sofridas de uma máscara. Possivelmente, o ator vivia os movimentos verdadeiros da vida apenas quando representava; tal como eles sentiam mais verdadeira do que qualquer realidade a própria vida escondida por trás da realidade.” P.100

FUGA

O pai de Béla descobre o roubo de 6 notas de 100. Um aprendiz do pai de Béla vai para uma casa de correção. Pertencia a um bando que de facto roubou também ao pai de Béla.Outros bandos existem na cidade.

O bando envolve o ator no segredo do Fursca.

O SEGREDO

O ator descobre que os 4 são virgens.

“O que me espantou - ao ponto de me obrigar a parar, com os livros às costas, e apoiar-me numa parede - não foi que o jovem tivesse ido às raparigas, mas que, lá dentro, tivesse tirado os sapatos...” p118

PRÓLOGO

O bando de jovens, no café, depois do teatro: “Ábel riu, amargurado: “Lembram-se de como nós olhávamos cá para dentro, pela janela, quando passávamos por aqui?” O tédio transformara-se em indefinida angústia. O que seria deles, se tudo o que só conheciam de fora fosse assim no futuro? Se tudo o que era secreto e desconhecido se aproximasse agora e eles pudessem, livres, conhecer o mundo, os segredos por cuja posse os adultos lutavam, o dinheiro, a liberdade, as mulheres, e tudo se revelasse inteiramente diferente é muito mais desinteressante do que acreditavam ser?”

Capítulo dedicado ao princípio do fim da amizade, questionada agora por todos.

ANTESTREIA

No teatro, disfarçados de outras personagens...

MÚSICA

Todos bêbedos no teatro, numa espécie de orgia violenta, mas sem sexo??

Alguém parecia estar na plateia às escuras a assistir a tudo.

SUSPEITA

A mãe de Tibor e de Lajos, mulher do Coronel Prockauer, vai financiar a recuperação do serviço de prata. O fim do bando?

O MANDARIM

O juiz Kikinday ameaçara denunciar o bando e Ábel, através do juiz Mandarim imginário, condenara-o à morte.

Tibor alistou-se como voluntário para a guerra

CASA DE PENHORES

Havas, o penhorista sabia de tudo, através de Erno, e assistiu a tudo o que se passou no teatro no capítulo MÚSICA

O PIQUENIQUE

Tibor e Ábel conversam no Furcsa: espantados pela traição de Erno. Os adultos e as suas leis, que os rebeldes rejeitam, são a causa dos jogos, dos roubos e de Furcsa existir.

Erno defende-se das acusações de traição: agiu por se sentir, filho de um sapateiro, inferior aos outros e acusa-os de não serem verdadeiros amigos. Confessa ser ele o dono das cartas duplas, o batoteiro.

Vão, a seguir, para o piquenique de final de curso, no salão do hotel balnear, com os adultos, professores, diretores, o Juiz Kikinday,...

Erno, taciturno, levantou-se a meio e saiu. Todos se embriagam.

O sapateiro surge com a notícia, enviada por Lajos, que não tinha vindo à festa, de que a mãe tinha recuperado e de que o coronel Prockauer tinha regressado.

Erno que tinha subido para o Furcsa, suicidou-se com um tiro.








sábado, 22 de agosto de 2020

Livro do Desassossego - Bernardo Soares

 Fragmento 202, 14/9/1931 (dactilografado).

    Atrás dos primeiros menos-calores do estio findo vieram, nos acasos das tardes, certos coloridos mais brandos do céu amplo, certos retoques de brisa fria que anunciavam o outono. Não era ainda o desverde da folhagem, ou o desprenderem-se das folhas, nem aquela vaga angústia que acompanha a nossa sensação da morte externa, porque o há-de ser também a nossa. Era como um cansaço do esforço existente, um vago sono sobrevindo aos últimos gestos de agir. Ah, são tardes de uma tão magoada indiferença, que, antes que comece nas coisas, começa em nós o outono.

     Cada outono que vem é mais perto do último outono que teremos, e o mesmo é verdade do verão ou do estio; mas o outono lembra, por o que é, o acabamento de tudo, e no verão ou no estio é fácil, de olhar, que o esqueçamos. Não é ainda o outono, não está ainda no ar o amarelo das folhas caídas ou a tristeza húmida do tempo que vai ser inverno mais tarde. Mas há um resquício de tristeza antecipada, uma mágoa vestida para a viagem, no sentimento em que somos vagamente atentos à difusão colorida das coisas, ao outro tom do vento, ao sossego mais velho que se alastra, se a noite cai, pela presença inevitável do universo.

     Sim, passaremos todos, passaremos tudo. Nada ficará do que usou sentimentos e luvas, do que falou da morte e da política local. Como é a mesma luz que ilumina as faces dos santos e as polainas dos transeuntes, assim será a mesma falta de luz que deixará no escuro o nada que ficar de uns terem sido santos e outros usadores de polainas.

     No vasto redemoinho, como o das folhas secas, em que jaz indolentemente o mundo inteiro, tanto faz os remos como os vestidos das costureiras, e as tranças das crianças louras vão no mesmo giro mortal que os ceptros que figuraram impérios. Tudo é nada, e no átrio do Invisível, cuja porta aberta mostra apenas, defronte, uma porta fechada, bailam, servas desse vento que as remexe sem mãos, todas as coisas, pequenas e grandes, que formaram, para nós e em nós, o sistema sentido do universo. Tudo é sombra e pó mexido, nem há voz senão a do som que faz o que [o] vento ergue e arrasta, nem silêncio senão do que o vento deixa. Uns, folhas leves, menos presas de terra por mais leves, vão altas do rodopio do Átrio e caem mais longe que o círculo dos pesados. Outros, invisíveis quase, pó igual, diferente só se o víssemos de perto, faz cama a si mesmo no redemoinho. Outros ainda, miniaturas de troncos, são arrastados à roda e cessam aqui e ali. Um dia, no fim do conhecimento das coisas, abrir-se-á a porta do fundo e tudo o que fomos – lixo de estrelas e de almas – será varrido para fora da casa, para que o que há recomece.

     Meu coração dói-me como um corpo estranho. Meu cérebro dorme tudo quanto sinto. Sim, é o princípio do outono que traz ao ar e à minha alma aquela luz sem sorriso que vai orlando de amarelo morto o arredondamento confuso das poucas nuvens do poente. Sim, é o princípio do outono, e o conhecimento claro, na hora límpida, da insuficiência anónima de tudo. O outono, sim, o outono, o que há ou o que vai haver, e o cansaço antecipado de todos os gestos, a desilusão antecipada de todos os sonhos. Que posso eu esperar e de quê? Já, no que penso de mim, vou entre as folhas e os pós do átrio, na órbita sem sentido de coisa nenhuma, fazendo som de vida nas lajes limpas que um sol angular doura de fim não sei onde.

     Tudo quanto pensei, tudo quanto sonhei, tudo quanto fiz ou não fiz – tudo isso irá no outono, como os fósforos gastos que juncam o chão em diversos sentidos, ou os papéis amarrotados em bolas falsas, ou os grandes impérios, as religiões todas, as filosofias com que brincaram, fazendo-as, as crianças sonolentas do abismo. Tudo quanto foi minha alma, desde tudo a que aspirei à casa vulgar em que moro, desde os deuses que tive ao patrão Vasques que também tive, tudo vai no outono, tudo no outono, na ternura indiferente do outono. Tudo no outono, sim, tudo no outono…


E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos...

L. do D.

E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa: uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância — irmãos siameses que não estão pegados.

s.d.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.

  - 310.

"Fase confessional", segundo António Quadros (org.) in Livro do Desassossego, por Bernardo Soares, Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-América, 1986.

Sobre a perfeição dos textos:
"Sabemos bem que toda a obra tem que ser imperfeita, e que a menos segura das nossas contemplações estheticas será a de aquillo que escrevemos. Mas imperfeito é tudo, nem ha poente tam bello que o não pudesse ser mais, ou brisa leve que nos dê somno que não pudesse dar-nos um somno mais calmo ainda. E assim, contempladores eguaes das montanhas e das estatuas, gosando os dias como os livros, sonhando tudo, sobretudo, para o converter na nossa intima substancia, faremos tambem descripções e analyses, que, uma vez feitas, passarão a ser coisas alheias, que podemos gosar como se viessem na tarde." 

Bernardo Soares, Livro do Desassossego. Ed. Jerónimo Pizarro. Lisboa: Tinta da China, 2013. 226-27.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Materna Doçura - Possidónio Cachapa



Sinopse

Perder tragicamente a mãe, Sacha entra numa busca desequilibrada para reencontrar a sua imagem no corpo e rosto de todas as mulheres. Viajando das ruas luminosas de Lisboa aos corredores escuros do metro parisiense, o protagonista perseguirá a figura maternal de forma obsessiva. Tem um buraco no peito que precisa desesperadamente preencher.

Um pai inesperado, prostitutas de coração grande e produtores de cinema capazes de verem para lá do imediato, são algumas das personagens inusitadas que se cruzarão no caminho de Sacha, num universo em que as mulheres podem abraçar um lado masculino e os homens deixar bater um coração de mulher. Materna Doçura é um romance sobre o amor materno, mas, ao mesmo tempo, um manifesto sobre a importância de olhar todas as pessoas com compaixão e respeito. Escrito com irreverência e imaginação, leva o leitor da primeira à última página com uma voracidade feita de humor, emoção e drama. Neste livro, ninguém se perde, mesmo aqueles que deixaram a luz para trás, há muito. Personagens ou leitores.


Sinopse

O romance, dividido em três partes, inicia-se com o protagonista, Sacha, o dos olhos azuis, a entrar na prisão por ter feito em videocassetes filmes considerados pornográficos ou incestuosos sobre a relação mãe-filho. Não havendo cenas explicitamente sexuais, aparecem aí jovens nus abraçando ou passeando ao pé das mães grávidas, também despidas. Um narrador omnisciente vai-nos oferecendo toda a vida do protagonista, marcado pela perda da mãe verdadeira, em longas analepses. O relato focaliza na ternura, nos afetos, na «materna doçura», procurada em todas as mulheres que Sacha ama, mesmo naquela com quem casa e descasa, toda a sua intensidade enunciadora.

Uma praia atlântica, a casa de putas, um tribunal, Bordéus, Paris, são cenários minuciosos (portentoso mergulho no submundo da capital francesa) por onde somos hipnoticamente guiados no seguimento da personagem protagonista, que adorava a mãe e um dia, ainda criança, matou o padrasto quando este a espancava. 

Outro homem, ligado à mãe e chamado 'o Professor', salva-o da casa de correção e dá-lhe o afeto e amor de pai. Porque há irredimíveis solteirões que podem amar como ninguém os filhos que não tiveram, assim como há grandes mães pretas que iluminam os bordéis lotados por filhas carentes. 

Enfim, Sacha perde o norte, vive na França, anda com várias mulheres, ganha dinheiro, gasta dinheiro, conhece orgias. E chega a viver na rua. Só quando Sacha é pai, e tem um filho, e brinca com ele, é que se acalma.

 E se instala em Sacha e no mundo a serenidade da imagem maternal. A beleza do livro é por vezes violenta. O risco do pornográfico é apenas anedota – porque contornado pela ternura. E pela nobreza da escrita. Transgressão. Ironia. Afetos. Amor. Até tudo valer a pena.

Materna Doçura:
1ª Parte - As múltiplas caras do ventre
A mãe é uma doce prisão 
Sacha G, com 30 e tal anos, rei da pornografia foi preso e protegido pelo preso Sr Vital.
Sacha, com 10 anos, matou o pai por bater na mãe.
Tempero’special
Muganga trabalhou no bordel da Chica Cavalona.
Zezinho, ou José Augusto, criado pela preta Muganga
As contradições do dever
José Augusto, o Professor, expulso de casa por defender o Caso das Putas Sem Teto: D. Álvaro quer recuperar a casa que terá vendido à Chica.
O destino é uma puta rebelde
Lili, ou a Boca-de-Cereja, puta amante do juiz, convence-o a favor das putas
Sacha G tinha 10 anos quando conheceu o professor, à beira-mar
O mar em grande plano
Em Falésias-do-Mar, Gracinha, mãe de Sacha, está no hotel com o Waldemar Guimarães, o flautulento. Antes teve vários namorados falhados. O pai de Sacha abandonou-a.
Do professor e do aluno melancólico
Sacha e o Professor conversam na praia durante uma semana.
O Professor vê Sacha e a mãe num restaurante. Nunca mais os viu juntos.
O regresso das cegonhas
Muganga morre
A loucura de te perder
Sacha, com 10 anos, matou o pai por bater na mãe.
O professor defende-o, absolve-o e adota-o!
A luz no fundo de uma bola de ténis
Sacha e o Professor convivem 
Do nada construí esta afeição 
Sacha e Melinha, filha da Chica Cavalona
Carta
Amor de pai (adotivo) 
Sacha parte para o mundo
Os tortuosos caminhos da luz
...











sábado, 15 de agosto de 2020

Menos que Zero - Bret Easton Ellis

  Menos que Zero - Bret Easton Ellis


Aproveitando a pausa para férias da universidade, Clay regressa à sua Los Angeles natal, um mundo de privilégios sem limites e total rutura moral, na tentativa de redescobrir o que sentia pela sua namorada, Blair, e pelo seu melhor amigo, Julian. Os dias, porém, sucedem-se iguais, entre incontáveis festas em mansões exuberantes, bares duvidosos, discotecas, restaurantes de luxo e lojas, e Clay permanece no ponto onde começou: preso entre passado e futuro, esperança e vazio.

Na semana antes de partir, um dos gatos da minha irmã desapareceu. Era um gatinho castanho e a minha irmã diz que, na noite anterior, tinha ouvido gritos de animais seguidos de um uivo. Há bocados de pêlo eriçado e sangue seco junto da porta de entrada. Muitos gatos da vizinhança têm de ser guardados em casa, porque, se saírem de noite à rua, correm o risco de serem comidos pelos chacais. Algumas noites, quando há Lua cheia e o céu está límpido, olho lá para fora e vejo silhuetas movendo-se nas ruas e nas ravinas. A princípio, pensava que eram cães grandes e disformes; só mais tarde me apercebi de que eram chacais.

Às vezes, à noite, muito tarde, quando conduzo pela Mullholland, tenho de desviar o carro e travar a fundo e, ao brilho dos faróis, vejo os chacais a correrem sem pressa, no nevoeiro, trazendo trapos vermelhos na boca. Só quando chego a casa é que me apercebo de que o trapo vermelho é um gato. É uma coisa que as pessoas têm de enfrentar quando vivem nas colinas.

...

Quando estava em Los Angeles, ouvi uma canção interpretada por um grupo local. A canção chamava-se Los Angeles e as palavras e a sua interpretação eram tão duras e azedas que a canção ficará na minha cabeça durante dias. As imagens, como mais tarde percebi, eram subjetivas e nenhum dos meus conhecidos as interpretou da mesma maneira. Para mim, eram imagens de pessoas levadas à loucura por viverem na cidade. Imagens de pais que estavam tão famintos e vazios que devoravam os próprios filhos. Imagens de pessoas, de adolescentes como eu, que levantavam os olhos do asfalto e ficavam encadeados pelo sol.

Essas imagens ficaram comigo, mesmo depois de eu sair da cidade. Imagens tão violentas e rancorosas que me pareceram o único ponto de referência, durante muito tempo. Depois de eu partir.


Página final 

13 de agosto de 2020

sábado, 1 de agosto de 2020

A Obra ao Negro - Marguerite Yourcenar


Tenho fruído grandes prazeres: rendo graças ao Eterno, que todos os anos nos traz um novo contingente de moças núbeis, e um novo vinho cada Outono que passa; às vezes penso para comigo que tenho passado a bela vida de um cão estendido ao sol, com o seu largo quinhão de rixas e alguns ossos que roer.


A OBRA AO NEGRO - Marguerite Yourcenar


PRIMEIRA PARTE: A VIDA ERRANTE


O LONGO CAMINHO: 

Henrique Maximiliano Ligre parte de Bruges para Paris para lutar nas tropas do rei de França. É sobrinho do cónego Bartolomeu Campanus.

Zenão parte para Santiago de Compostela. Wiwine era uma donzela apaixonada por Zenão.


OS TEMPOS DE INFÂNCIA:

Messer Alberico de’Numi, pai de Zenão, contemporâneo de da Vinci e Miguel Ângelo, vindo de Itália, instala-se em Bruges em casa de Henrique Justo Ligre. Este é pai de Henrique Maximiliano Ligre, comerciante abastado, dono de grandes armazéns, e quando viaja deixa a irmã Hilzonda a tomar conta de tudo. Messer seduz Hilzonda.

Ela engravida, mas ele parte para Roma e torna-se cardeal, morrendo aos 30 anos numa orgia.

Simão Adriansen, da Zelândia, idoso, leva Hilzonda. Zenão fica aos cuidados do cónego Bartolomeu Campanus.

Henrique Justo Ligre casara entretanto com Jacqueline, que não gostava de Hilzonda.


Zenão cresce, descrente, mas inscreve-se na Escola de Teologia de Lovaina.


1529 - Zenão em Danoutre. Lê os filósofos descrentes.


No dia 3 de agosto de 1529 foi concluído um tratado que ficou conhecido de duas maneiras: "Paz de Cambraia" ou "Paz das Mulheres". Este acordo foi negociado e assinado por Luísa de Saboia, em nome do seu filho Francisco I, e Margarida de Áustria, representando o seu sobrinho Carlos V, imperador do Sacro Império Romano-Germânico; daí o segundo nome por que é designado. Nos termos deste tratado, que em grande medida renovava as cláusulas do Tratado de Madrid (13 de janeiro de 1526, que pôs termo à primeira guerra entre Francisco I e Carlos V, estando o primeiro preso nesta cidade depois de ter sido capturado em Pavia), o rei de França casaria com Eleonor, irmã de Carlos; além disso, o imperador renunciava à Flandres e ao Artois, bem como desistia das suas pretensões sobre Nápoles. Cedia ainda a zona do Charolais. Por seu turno, a França reconhecia-lhe a posse da Borgonha e das cidades do Somme.


A PARTIDA DE BRUGES

Zenão despede-se de jovem Wiwine que o adora mas a quem ele não ama.

Zenão parte de Bruges e durante muitos anos ninguém sabe dele e toda a gente inventa aquilo em que ele se tornou ou o que fez.


A VOZ PÚBLICA

Em 1539, chega a Bruges um tratado sobre cardiologia, escrito por Zenão. 

O cónego Bartolomeu Campanus sente muita curiosidade acerca do que se passará com Zenão. Conversa muito sobre isso com o velho Cleenwerck. O cirurgião João Myers saberá algo? Começam a esquecê-lo.


Simão Adriansen e Hilzonda são ricos e ajudam os pobres. Depois de vários abortos, Nasce a pequena Marta, que vai ser criada por uma ama, Joana.


A MORTE EM MUNSTER

Vão para Munster. Atraídos pelas promessas de uma cidade apelidada de Nova Jerusalém, dominada por Hans Bockhold, o profeta-rei cristão, o Cristo vivo, chefe dos anabatistas, polígamo, no fundo, tirano que explora os crentes e mata indiscriminadamente. Knipperdolling era o carrasco. Hans Bockhold visita Hilzonda e sedu-la. Ela e Divara são as novas rainhas. Ele tem mais 15 esposas. É também conhecido por Jean de Leyde.

A cidade é cercada pelas tropas cristãs e Hilzonda e Knipperdolling são  executados.

Simão regressa à cidade 3 dias depois, fiel ainda a Hans, que está numa jaula à espera de ser executado.

Simão chama a Munster a irmã Salomé para o assistir na morte e para levar Marta com ela.


OS FUGGER DE COLÓNIA

Salomé é casada com Martin Fugger. O filho Sigismundo foi para o Peru com Gonzalo Pizarro. A filha Benedita é da idade de Marta e viverão juntas e amigas.

Martin Fugger é rival financeiro de Justo Ligre (estes «dois provedores de fundos sentiam-se doutores em realidades»)

Henrique Justo Ligre envia o filho preferido e mais novo, o gordo Filiberto,com 20 anos, aprender a ser negociante com Martin. Filiberto aspira ser melhor negociante do que Martin e do que seu pai.

Marta cresce com Benedita. Torna-se calvinista por ver em Calvino religião sem máculas. Salomé quer casar Benedita com Filiberto. Benedita e Marta pensam fugir.

Em 1549 chega a peste. Salomé, Benedita e Joana morrem. Marta herda o casamento com Filiberto.


UMA CONVERSA EM INNSBRUCK

Henrique Justiniano, espião ferido, encontra Zenão.


Citar: Prezais a beleza, irmão Henrique? P. 125


Henrique é capitão. Zenão é médico e filósofo, gosta de homens, não exerce há seis meses desde a morte do seu favorito criado.

Zenão, perseguido pela Inquisição


Tenho fruído grandes prazeres: rendo graças ao Eterno, que todos os anos nos traz um novo contingente de moças núbeis, e um novo vinho cada Outono que passa; às vezes penso para comigo que tenho passado a bela vida de um cão estendido ao sol, com o seu largo quinhão de rixas e alguns ossos que roer.


SEGUNDA PARTE: A VIDA IMÓVEL


O REGRESSO A BRUGES

Zenão regressa e fica em casa de João Myers. A criada Catarina.

Zenão adota o nome de Sebastião Théus. Myers morre, envenenado por Catarina que gosta de Zenão. Este herda a propriedade de Myers e oferece-a aos franciscanos, ficando Zenão ao serviço no agora chamado Hospício de S Cosme.


O ABISMO

Reflexão inovadora sobre o corpo, o ser humano e a natureza, em oposição aos conceitos teológicos medievais.


A DOENÇA DO PRIOR

Zenão opta por lenitivos em vez de purgas.

A tentação por Cipriano. Cipriano e a Bela. Morte do prior. Fuga de Zenão.


OS DESMANDOS DA CARNE


A CAMINHADA PELA DUNA

Tentativa gorada de fuga para Inglaterra e regresso a Bruges.


A costumada forca das execuções erguia-se fora do burgo, sobre um outeiro verdejante; mas o corpo ali dependurado estava há tanto tempo exposto à chuva, ao vento e ao sol que quase parecia ter adquirido a doçura das velhas coisas deixadas ao abandono; a brisa brincava amigavelmente com os farrapos desmaiados do cadáver.


A RATOEIRA


TERCEIRA PARTE: A PRISÃO


O ATO DE ACUSAÇÃO 


UMA BELA MORADA


A VISITA DO CÓNEGO


O FIM DE ZENÃO