domingo, 21 de maio de 2023

Eliete - Dulce Maria Cardoso


A avó paterna de Eliete deve ter Alzheimer e saiu de casa e foi encontrada com sangue na testa: terá caído, em Lisboa.

Eliete tem 42 anos, é vendedora de casa, vive sozinha, talvez. A grande rival é a Natália, agente platina, que vende muito.

Ela e a mãe estão no hospital com a avó. 

O pai de Eliete já morreu. Tinha ela cinco anos e viviam em casa da avó materna. Ele terá sido comunista, rebelde e mulherengo. A mãe era e é costureira numa loja de vestidos de noiva; mandou fazer um retrato dele grande que pôs na parede. Mais tarde, terá tido um caso com o homem do Círculo de Leitores (o segundo “pai” que morreu, de Eliete, tinha esta 12 anos).

Eliete relembra o seu passado e revela os pensamentos que lhe ocorrem no momento presente.

Tem filhas e o ex-marido chama-se Jorge.

Não gostava de se ir à casa da mãe porque lhe lembrava tudo o que recusara ser e ironicamente acabar por ser. A mãe era amarga com ela. Neste dia, subiu. Era num 3º andar em Alvide. Falam sobre as filhas de Eliete: Márcia que estuda e viaja; Inês, a preferida da avó, que parece querer ir para a escola de teatro.

A mãe de Eliete foi obrigada a trabalhar como criada, quase, enquanto viviam em casa da avó, num quarto. Por isso, recusa recebê-la quando ela sair do hospital. Viveram lá até aos 11 anos de Eliete.

Eliete acusa a mãe de ter sido a avó que a criou.

Jorge aceita que a avó de Eliete fique em casa deles uns dias, a recuperar. Arranjam o quarto de Márcia, que estava transformado num quarto de arrumos.

Eliete lembra os amigos de liceu: Milena e o namorado, Marco, o da pila.

Eliete e Inês levam a avó a casa dela. O gato Bardino. Antes de casar com o Sr. Pereira, a avó teve outro homem: um saltimbanco, o Antoninho, o avô de Eliete.

Inês conta a Eliete que jantou com o namorado da irmã.

10 de julho de 2016: final do campeonato da Europa, que Portugal venceu. Eliete está preocupada: Inês vai sair com o namorado da irmã?

Eliete sente que Jorge, a avó e Inês, as 3 pessoas que mais ama, além de Márcia, se tornaram desconhecidos para ela.

Quem teria mudado? Ela ou eles?

Milena vai ver o jogo a casa de Eliete. São BFF desde adolescentes, ainda antes de Marco ter trocado Eliete pela Sandra, por causa de ela “não ter sonhos”. Milena vai tendo namorados mais novos, geralmente brasileiros ou africanos. É advogada e mora numa casa com vista para o mar.

Portugal ganha, todos comemoram, menos Eliete. Sente falta de protagonismo na vida de Jorge e das filhas. Sente-se desamada. Inscreveu-se no Tinder. 

Inventa a Mónica, uma mulher casada que quer ser desejada! 

Um dia decide encontrar-se com Carlos, também casado. Mas ele viu-a e não se mostrou. E ela voltou para casa porque Inés lhe disse que a avó tinha de ir para o hospital porque tinha comido sumaúma. E Jorge diz-lhe que a avó tem de ir para um lar.

E Eliete leva-a para a Casa de Repouso Azevedo e Silva, onde conhece Duarte, o filho dos donos e a quem beija na primeira visita.

E Eliete apaga a Mónica. Mas cria uma nova Mónica e começa a encontrar-se com desconhecidos em motéis, carros à beira da estrada e nas casas que tem à venda. A vida familiar continua. Ela sente-se agora mais segura e as filhas e Jorge dão-lhe um pouco mais de atenção, o que lhe agrada. Às vezes pensa que a considerarão uma puta se descobrirem. Faltam 88 dias para estar em frente ao cemitério do Vimieiro. À avó irá morrer?

Duarte declara-se, convida-a para jantar e, perante a continuada indiferença de Jorge, ela aceita. Ele declara-se apaixonado e daí a dois dias fodem.


(Fim da primeira parte)

O retorno - Dulce Maria Cardoso

1975, Angola, eu (Rui), o pai (Mário), a mãe (Glória) e a minha irmã, Milucha (Maria de Lurdes) vamos regressar à metrópole. O tio Zé, o revolucionário, fica para ajudar os pretos a formar uma nação.

Levo o Decadanse?

A mãe veio para Angola em 1958, para se casar com o meu pai, amigo de infância dela na terra.

Quando se deu o 25 de abril de 1974, os pretos não quiseram obedecer mais. O Sr. Manuel fez bem em sair de Angola em dezembro de 1974.

Voltam sem nada para Portugal, sem o pai: ferido e retido pelos negros que suspeitaram que ele escondia o carniceiro de Grafanil. O tio Zé levou-os ao aeroporto.

Ficam instalados num hotel de 5 estrelas no Estoril, os 3 no mesmo quarto, sem pagar, com direito a pensão completa. O IARN tratou de tudo.

Página 92: o jovem narrador revela que não gostava dos pretos e crítica os empregados do hotel que devem achar que os retornados tiveram de fugir porque exploravam os pretos.

Argumentos dos retornados: sem os brancos lá, eles vão matar-se uns aos outros; uma terra farta, onde se deixa cair um caroço de manga e nasce uma mangueira; quem não quer uma boa mãe, dá-se-lhe uma ruim madrasta…

Eu, Rui, ganho ao Mourita, a aguentar mais tempo no fundo da piscina: fico lá a ameaçar quem tem o meu pai retido que vai ter de se ver comigo se não o devolver.

O Pacaça, o mais radical retornado, odeia o Rosa Coutinho que deu Angola aos pretos e o Almeida Santos que deu Moçambique. Sem esquecer o Bochechas, que nos vendeu.

Os retornados que vivem nos hotéis são desprezados pelos retornados que criaram boas condições em Portugal para um dia voltarem.

Escrevo ao tio Zé para que ele me diga definitivamente o que aconteceu ao meu pai.

Na escola a professora puta que a pariu: sundu ia maié. Os retornados são menosprezados.

O pai morreu! 

11 de novembro de 1975: independência de Angola 

A mãe tem um ataque epilético na fila para o refeitório do hotel. Eu digo as palavras “expulso-te demónio” e ela acorda e fica bem. Foi sempre assim em Angola. É a doença dos nervos da minha mãe.

Vou de carro com o porteiro Queine buscar uma bicicleta velha a casa dele no monte. Ele mora com Silvana, uma criada do hotel, numa casa por pintar, sem condições.

A mãe vende o medalhão de ouro e a pulseira de prata por 4000 escudos, a um velho penhorista.

Os estrangeiros já não mandam mais dinheiro, os comunistas estão a incitar os trabalhadores do hotel a tomar o hotel e o governo já deu ordem para esvaziar os hotéis.

Os de cá gostam cada vez menos de nós, andámos lá a explorar os pretos e agora queremos roubar-lhes os empregos, além de estarmos a destruir-lhes os hotéis…

Vou de noite com os outros vigiar os contentores com os valores que estão armazenados dos retornados. Estes deixam ali as posses que trouxeram de África, enquanto não arranjam casa e melhor vida.

Falto às aulas com os outros retornados.

Hei de roubar os contentores dos mortos de Sanza Pombo (duas famílias mortas pelos pretos) para arranjar dinheiro para ir com a minha mãe e com a minha irmã para a América. 

A minha irmã é boa aluna.

A FNLA e a UNITA têm Luanda sitiada: os americanos e os sul-africanos vão dar luta aos comunas russos e cubanos do MPLA.

Silvana, mulher do porteiro Queine, meteu-se não minha cama, no hotel, e quer que eu vá a casa dela. E eu passo a ir, à noite, quando o Queine está de serviço.

O meu pai regressa. Nunca mais viu o tio Zé. Eu e a minha irmã vamos dormir para a sala de convívio, para eles ficarem sozinhos. Quando o pai souber que chumbei por faltas…

Vamos sair do hotel e viver para uma casa que tem um quarto e uma sala. O pai e uns sócios vão pedir um empréstimo ao IARN para montar uma fábrica de blocos de cimento. Jurou nunca mais sair da metrópole.

Muitos retornados vão para o Brasil e para a Venezuela e para a América, mas o pai não quer ir.

A Silvana está grávida e o Queine muito feliz com isso.

O pai tem o corpo cheio de cicatrizes.

Quando o tio Zé voltou contou que tinham libertado o meu pai porque tinham capturado o carniceiro de Grafanil. O tio Zé voltou porque desistiu de ajudar o povo oprimido durante cinco séculos. A guerra não lho permite… o tio Zé trouxe uma namorada, a Mena?? Teve muita dificuldade para conseguir vir de avião.

Não sabemos como regressou o pai. Ele não conta…

Disse ao pai que tinha chumbado e ele não se zangou e disse que tinha de recuperar no próximo ano.