quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

O Cavaleiro da Dinamarca - Sophia de Mello Breyner Andresen


A lenda do Cavaleiro da Dinamarca conta a história, que aconteceu há centenas de anos, no século XVI, de um nobre dinamarquês que vivia naquele frio e gélido país do Norte da Europa. 

Vivia numa casa numa clareira rodeada de bétulas. Em frente da casa havia o maior Pinheiro da floresta.

A maior festa e a mais desejada era o Natal. Terminada a ceia, contavam-se histórias nórdicas e religiosas

Numa dessas noites de Natal, o Cavaleiro, reunido com toda a sua família à volta da lareira, anunciou que tinha decidido partir em peregrinação até Jerusalém, na Terra Santa, para passar o Natal seguinte na gruta ondeJesus nasceu.

A longa viagem, que começaria na primavera, não permitiria ao Cavaleiro passar o Natal seguinte em família, mas prometeu que, realizada a viagem, voltaria, dali a dois anos, a tempo da noite de Natal

VIAGEM DE IDA

O Cavaleiro partiu de barco e chegou muito antes do Natal à Palestina. 

Depois seguiu com outros peregrinos para Jerusalém.

Chegado a Jerusalém, rezou no Monte do Calvário e no Jardim das Oliveiras, banhou-se nas margens do rio Jordão e passou a noite de Natal na gruta de Belém, felicíssimo, a rezar e a chorar, emocionado.

Demorou-se cerca de dois meses na Palestina.

Em fins de fevereiro partiu para Jafa, com outros peregrinos. Entre eles, havia um mercador de Veneza com quem fez amizade. 

Só partiram em meados de março.

Houve uma enorme e perigosa tempestades o cavaleiro pensou que ia morrer. Mas cinco dias depois a tempestade acalmou. 

Conseguiu chegar a Ravena, no sul de Itália. O mercador convidou-o para ir conhecer Veneza, uma das cidades mais poderosas daquela época, à beira do mar Adriático.

VENEZA

O Cavaleiro ficou hospedado, durante algum tempo, no palácio do mercador em Veneza. 

O Cavaleiro deliciou-se com a Praça de São Marcos e com os muitos monumentos da linda cidade e com as mercadorias mais exóticas de todo o mundo que por ali passavam. 

Passearam de gôndola, nos canais, e visitaram igrejas e monumentos. Viveram dias de festa e fartos jantares.

JACOPO ORSO, VANINA E GUIDOBALDO

Um dia, num jantar entre amigos, o Cavaleiro viu um palácio e perguntou de quem era. 

O mercador contou a história de Jacopo Orso e da sua pupila Vanina, com quem o tutor queria casar um dos seus familiares, Arrigo, um homem velho e sem encantos.

Quis no entanto o destino que Vanina se apaixonasse, numa noite de lua cheia, por Guidobaldo, um capitão de um navio. Este, que passava de gôndola, vendo, durante algum tempo, Vanina pentear o seu longo cabelo dourado na varanda, elogiou-lhe a beleza. Em agradecimento, Vanina atirou-lhe o seu pente de marfim e ele no dia seguinte veio oferecer-lhe um de ouro. 

Mais tarde, fugiram juntos num navio, rumo à felicidade.

NORTE DE ITÁLIA

Passados alguns dias, o Cavaleiro decidiu partir e o mercador ofereceu-lhe um cavalo que o levou pelo Norte de Itália. Visitou Ferrara, Bolonha.

FLORENÇA, A CIDADE DO CONHECIMENTO

Em maio, o cavaleiro alojou-se em Florença antes de se dirigir a Génova.

Admirou a arquitetura e arte.

EM CASA DO BANQUEIRO AVERARDO

Ficou hospedado em casa do banqueiro Averardo, com uma biblioteca enorme e maravilhosos quadros. 

Ao jantar ouviu homens sábios a falar sobre a astronomia, pintura, arte.

GIOTTO

Ouviu Filippo a contar as maravilhosas histórias do pintor Giotto e do seu mestre Cimabue, o primeiro pintor de Itália: este descobriu os desenhos nas rochas pintadas por Giotto, um pastor de 12 anos, e levou-o para Florença para o ensinar. 

DANTE E BEATRIZ

Ouviu também a história de Dante, o maior poeta de Itália e do amor deste por Beatriz, desde os 9 anos. Ela era a mais bela menina de Florença, de olhos verdes e cabelos louros, prematuramente falecida.

O poeta começou então uma vida de aventuras e erros. 

Um dia, em abril de 1300, o poeta encontrou três animais (um leopardo, um leão e uma loba) e a sombra de Virgílio, um poeta romano morto há mais de 1000 anos, que o guiou ate ao lugar onde a irá encontrar. Passaram pelos abismos do inferno e chegaram ao Purgatório e depois ao Paraíso, onde Dante viu de novo Beatriz, num carro puxado por um ser metade leão e metade pássaro. 

A “Divina Comédia” é o livro poema que Beatriz pediu a Dante que escrevesse a narrar tudo o que viu no submundo, para ensinar os homens que o mal é mau e o bem é bom.

O banqueiro convidou a Cavaleiro a ficar, mas este recusou.

GÉNOVA

Em seguida, o Cavaleiro tentou tomar um navio em Génova, mas adoeceu antes de chegar a esta cidade, por causa do sol ou da água insalubre, recolhendo-se num convento, onde esteve quase a morrer, mas foi tratado pelos monges com ervas e plantas naturais, durante um mês e meio.

É só um mês depois, já em fins de setembro, conseguiu chegar a Génova, já todos os barcos tinham partido para a Flandres.

REGRESSO A CAVALO

O Cavaleiro decidiu então retomar, a cavalo, a sua viagem de regresso, em direção ao norte, Bruges. 

Atravessou os Alpes, a França e chegou à Flandres já era inverno.

ANTUÉRPIA

Em Antuérpia, foi recebido por um negociante amigo de Averardo. 

Num jantar, conheceu um capitão que lhe mostrou três cofres: um com pérolas, outro com ouro, e o terceiro com pimenta, todos trazidos de uma viagem da rota dos Portugueses pela África.

A seguir o capitão narrou as suas viagens, nomeadamente nas caravelas portuguesas que desceram a costa africana, passando pelo Bojador, capitaneadas por Pêro Dias, e os encontros com os nativos negros. Contou por fim a luta de morte entre Pêro Dias e um negro e o espanto por o sangue de ambos ser da mesma cor.

Também o negociante convida o Cavaleiro a ficar e a capitanear um dos seus navios, mas este recusou.

Decidiu partir, por terra, já que o inverno impedia os barcos de navegarem.

DE NOVO NA DINAMARCA, PERTO DE CASA

No dia seguinte, o Cavaleiro, já muito atrasado, partiu a cavalo e, depois de longas semanas de sacrifício, no dia 23 de dezembro, véspera de Natal, chegou a uma povoação a poucos quilómetros da sua casa.. 

Aqueceu-se na casa de uns conhecidos, na floresta e, quando já estava a anoitecer, partiu com intenção de cumprir a sua promessa. 

Mas o escuro e a neve, que entretanto tinham caído, apagaram todos os trilhos dos caminhos e o Cavaleiro perdeu-se naquela floresta que tinha mudado naqueles dois ano de ausência.

Conseguiu chegar a uma aldeia de lenhadores que o reconheceram e ajudaram.

Numa noite escura, onde apenas se distinguiam os olhos dos lobos e se ouvia o som de um urso que se aproximava, o Cavaleiro pediu ao urso uma trégua, naquela noite santa de Natal, e ele afastou-se. Por isso, o Cavaleiro avançou, mas, como não encontrava a casa, começou a rezar.

E viu ao longe uma claridade que pensou ser uma fogueira feita por algum lenhador. 

Mais animado, prosseguiu a viagem e, ao aproximar-se, verificou que a claridade, que se tornava cada vez mais intensa, iluminava tudo à sua volta. Foi então que o Cavaleiro deparou, muito surpreendido, com a sua casa e com o grande pinheiro/abeto do seu jardim iluminado, em forma de cone, que os anjos tinham enfeitado com milhares de estrelas para lhe mostrar o caminho.

Foi assim que nasceu a tradição do pinheiro de Natal, decorado e iluminado, que a família do Cavaleiro, em memória daquela ajuda divina, passou a fazer todos os anos. 

Da Dinamarca, este costume espalhou-se para o resto do mundo.

Vida Seguintes - Abdulrazak Gurnah


UM

Khalifa tinha 26 anos quando conheceu o comerciante Amur Biashara. Trabalhava num banco dos irmãos guzerates, de quem era como se fosse parente, porque o seu pai era de Guzerate.

O pai chamava-se Qassim; era indiano e a mãe africana. Qassim era pobre mas estudou e tornou-se guarda-livros de sucesso e quis que Khalifa seguisse o seu exemplo. Qassim nunca mais voltou a Guzerate.

Dos 12 aos 17 anos K aprendia com 3 outros alunos com um professor. Vivia lá aquando da revolta de Abushiri, contra os alemães. 3 anos depois, terminava os estudos e começou a guerra com os Hehes. Quando foi contratado pelos irmãos Guzerates, vivia com o pai e a mãe, Mariamu, na quinta do proprietário rural onde o pai era guarda-livros. 

Trabalhou 11 anos para os banqueiros guzerates. Um dia foi ligeiramente subornado por Amur. Quando os irmãos banqueiros mudaram para Mombaça, Amur contratou-o como guarda-livros. Trabalhava há 3 anos para este comerciante nada escrupuloso, quando morreu a mãe. Quatro dias depois, morre o pai, com malária. De regresso ao trabalho com Amur, este oferece-lhe a sobrinha Asha Fuadi, em casamento. Ela tem 20 anos e ele 31. Está-se em 1907.

Asha está ressentida com o tio por ter ficado com a casa dela. O pai dela tinha morrido e a mãe está doente. Asha aborta 3 vezes. Tem ascendente sobre Khalifa. Amur morre de doença e o filho carpinteiro, Nassor, de 18 anos herda a casa. O que irá acontecer agora a Khalifa e a Hesha?

2

Ilyas chega para trabalhar para Amur antes de ele morrer. Torna-se amigo de Khalifa. Confessou a Khalifa que fugira da sua aldeia em criança e foi raptado por um askari (mercenário ao serviço do exército alemão) e educado numa escola, pelos alemães; durante anos, para sobreviver, fingiu ser cristão. Khalifa convence-o a ir visitar os pais à aldeia onde já não vai há anos. Pelo caminho fica em casa de Karim. Chega à aldeia. A Mãe tinha morrido e o pai antes de morrer tinha dado uma sua irmãzinha, por ser muito pobre: chamava-se Afiya. Ilyas vai visitá-la. 

Ela vivia com um casal a quem chamava tios e dois “irmãos” que a maltratavam e exploravam. Tinha 10 anos. Ilyas leva-a consigo e ensina-a a ler. Vivem numa casa de pessoas que têm miúdas da idade dela.

No presente, Khalifa e Ilyas conversam sobre a personalidade de Nassor e sobre a sua decisão de também não devolver a casa a Asha. 

Ilyas decide alistar-se na Schutztrupp para ajudar os alemães contra os ingleses. Passado um ano de estar feliz com o irmão, quando ele parte para o exército, Afiya tem de voltar para os “tios” e os “primos” que a maltratam. Um dia, ela está a escrever e o tio chicoteia-a na mão porque acha que uma mulher não pode fazer tal coisa. Ela escreve um bilhete a Khalifa e ele manda um criado buscá-la. Afiya passa a viver com Khalifa e Asha.

DOIS

3

Hamza está voluntário na recruta da Schutztruppe, o exército askari ao serviço dos alemães, e tem dúvidas. Treina e adapta-se. Acaba por ser escolhido por um oficial alemão como criado pessoal, provavelmente por ser bonito e para fins pouco desejados por ele.

4

Afiya cresce com uma mão aleijada. Dorme no chão do quarto dos novos  “tios”, Khalifa e Asha. Aprende a ler. Vai com Khalifa para o escritório, onde ele trabalha com Nassor Biashara. Conhece a mulher dele, Khalida.

Faz 12 anos. Começa a usar uma canga, porque os seios começam a crescer.

As lutas da Schutztrupp eram cruéis, sanguinárias. Andavam sempre a incendiar aldeias e a matar e roubar. A guerra contra os ingleses e outros países europeus parecia não ter fim. 

Hamza é o único sobrevivente dos voluntários que entraram pra os haskaris. O oficial que o escolheu como criado ensinou-o a falar alemão e que um dia lerá Schiller.

Hamza vai-se sentindo estranho, inútil, desesperado, por vezes.

6

Durante muitas semanas falou-se que os alemães tinham ganho a guerra de Tanga de 1914 contra os ingleses, mas estes vingaram-se bloqueando o comércio marítimo, com a Royal Navy. Começaram a faltar mantimentos e os comerciantes como Nassor começaram a escondê-los com medo de os alemães os confiscarem. Nassor estava ainda a pagar dívidas do pai e tinha comprado mercadorias. Khalifa contrabandeia mercadorias também.

O exército britânico desembarca novamente em Tanga em 1916.

Afiya, com 15 anos, era controlada e censurada por Asha. Está quer casá-la o mais rapidamente possível.

7

Um destacamento do oficial e de Hamza chega a uma missão alemã chamada Kilemba, para reabastecer. A Schutztrupp foge e esconde-se dos ingleses. Os Askaris que sobreviveram começam a pensar em abandonar as tropas esfarrapadas. Hamza é ferido por ser acusado de incentivar os Askaris a fugir. Fica a recuperar do ferimento em Kilemba, por ordem do oficial, que lhe deixa um livro e parte com o exército que sobra. É um livro de Schiller.

TRÊS

8 e 9

Hamza desembarca na cidade e procura trabalho. É contratado por Nassor e Khalifa, como ajudante. Khalifa oferece-lhe guarida num anexo. Hamza conhece a família de Khalifa. 

Afiya tem 19 anos e recusou casar com dois homens mais velhos.

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Hamza começa a trabalhar como carpinteiro e apaixona-se por Afiya.

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Hamza e Afiya apaixonados e amantes.

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Hamza conta que em criança foi dado ao tio Hashim devido a uma dívida do pai e que fugiu para ir para a guerra, ser Hakari. (Ver PARAÍSO: Yusuf e o tio Aziz; Khalil e a irmã Amina). Khalifa diz que depois que ele fugiu, o criado e a irmã fugiram com o dinheiro do cofre de Hashim. A casa e o jardim foram comprados por um homem rico e demolidos para dar lugar a uma mansão.

Hamza e Afiya casam e vivem num quarto em casa de Khalifa e Asha. Hamza não se sente à vontade com Asha.

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Afiya aborta de uma primeira gravidez e engravida de novo. Asha morre com cancro nos rins.

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Afiya dá à luz. O filho Ilyas cresce até aos 11 anos como bom estudante, mas solitário. Hamza torna -se chefe da nova carpintaria de Nassor.

Ilyas começa a ser alvo de conversas por andar pelos campos a falar sozinho.

Os italianos invadiram Addis-Abeba em 1936. Receiam-se novas mobilizações.

Afiya encontra o filho no chão a tapar as orelhas e a dizer que era a voz outra vez que o atormentava. E a partir daí Ilyas passa a ser atormentado por uma voz de velha que pergunta onde está Ilyas.

Em novembro de 1938, Hamza escreve a Frau Pastor para tentar averiguar o paradeiro de Ilyas o irmão de Afiya que desaparecera na guerra.

O jovem Ilyas depois de uma cerimónia de expulsão da voz que pareceu inútil, continuou a estudar e dedicou-se obsessivamente à escrita de histórias.

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Hamza é chamado à esquadra. Frau pastor tinha respondido à sua carta e a polícia inglesa desconfiou daquela troca de correspondência com uma alemã. Ilyas estaria vivo na Alemanha.

Em 1942, o jovem Ilyas alistou-se no KAR (King's African Rifles, regimento colonial britânico de soldados locais recrutados pela África Oriental Britânica de 1906 a 1960). Foi para Dar El Salam e tornou-se professor.

Em 1960, a TANU e a Nyerere eram 98% dos membros para o Parlamento. Em 1961 a Tanzânia torna-se independente. 

Em 1963 Ilyas, já radialista, mais do que professor e escritor, recebeu uma bolsa de estudos para passar um ano em Bona. Tinha 38 anos.

Foi lá que descobriu o que acontecera ao tio Ilyas.


sábado, 18 de fevereiro de 2023

A nossa parte da noite - obra-prima de Mariana Enriquez (POR LER)


A Nossa Parte da Noite, o aguardado livro da argentina Mariana Enriquez, é um romance épico, gótico, múltiplo, uma mescla de géneros e tradições literárias e onde as personagens atravessam mundos e submundos. Os temas universais da família, do poder e da eternidade cruzam-se com os de sociedades secretas e seres obscuros que procuram redefinir a natureza da vida e da morte - o terror sobrenatural entrecruza-se com terrores muito reais. Em tempos de ditadura militar, um pai e um filho atravessam a Argentina de carro, desde Buenos Aires até às cataratas de Iguaçu. Pelo caminho há operações de controlo militar e o clima geral é de grande tensão. O pai tenta proteger o filho, Gaspar, de um destino que parece estar traçado. A mãe morreu em circunstâncias pouco claras. Tal como o pai, Gaspar foi chamado a ser médium numa sociedade secreta, A Ordem — já com séculos de existência —, dominada pela poderosa família da mãe de Gaspar. O destino do médium é cruel, pois o seu desgaste físico e mental é rápido e implacável.


Desta inicial viagem de carro partimos para uma outra viagem alucinante - com passadiços que escondem monstros inimagináveis; interiores de casas que comportam abismos e mudam subitamente sem a intervenção humana; com enigmáticas liturgias sexuais; andanças pela Londres psicadélica dos anos sessenta; a ditadura militar, os desaparecidos; e a incerta chegada da democracia.

Considerado pelo júri do Prémio Herralde «o novo «grande romance latino-americano», na senda de Rayuela, Paradiso, Cem Anos de Solidão ou 2666, A Nossa Parte de Noite é um romance total e deslumbrante que consagra Mariana Enriquez como uma escritora fundamental das letras latino-americanas do século XXI.

sábado, 4 de fevereiro de 2023

Katherine Mansfield

Con­tem­po­rá­nea nues­tra

Hace casi exactamente un siglo, el 9 de enero de 1923, Katherine Mansfield murió después de un gran vómito de sangre. Su marido había venido a visitarla al sanatorio de Fontainebleau en el que estaba recluida y Mansfield subió delante de él las escaleras hacia su habitación con tanta impaciencia que sus pulmones enfermos no pudieron resistir el esfuerzo. Esa impaciencia nerviosa contra el infortunio y contra cualquier clase de imposición era un rasgo de su carácter, un principio rector de su vida. Había cumplido 34 años solo unos meses atrás, en octubre de 1922. Llevaba cuatro años enferma de tuberculosis. Para hacerme una idea de su juventud no debo pensar en una mujer muerta hace 100 años, sino en las personas de la generación de mis hijos. Solo así puedo calibrar lo prematuro y lo injusto de la muerte de Katherine Mansfield, y también la precocidad de su talento, y la amplitud de la promesa que no pudo cumplir, todo lo que habría escrito si no hubiera muerto tan joven.

Dos meses antes que ella murió Marcel Proust, a los 51 años. También fue una muerte temprana, pero Proust sabía que su novela inmensa estaba terminada en lo esencial, que había culminado el gran trabajo de su vida. Mansfield sentía la angustia de lo inacabado, de lo malogrado, de lo que se quedaría sin hacer, el remordimiento de no haber emprendido libros de mayores dimensiones, de haberse limitado al formato del cuento, “pequeñas historias como pájaros en jaulas”, decía ella misma. Hay personas, a la vez inseguras y temerarias, dotadas de una gran capacidad para socavarse a sí mismas. Katherine Mansfield tenía la destreza de comprimir duraciones y amplitudes de novela en las 15 o 20 páginas de un relato, igual que era capaz de fijar el pormenor de un instante en una sola frase de fluir liviano y armadura musical. Pero las jerarquías oficiales de la literatura actúan pesadamente incluso sobre aquellos que se han atrevido a romperlas, y el cuento era entonces, y sigue siendo ahora, un género menor, más aún si quien lo cultivaba era una mujer, y si trataba en apariencias de asuntos superficiales o mundanos, escenas domésticas, fiestas en jardines, episodios fragmentarios de vidas que empezaban de golpe, como sin previo aviso, y terminaban de manera abrupta, en el aire, en la ambigüedad de lo no dicho o de lo indeciso.

T. S. Eliot aplicó el adjetivo letal de “femeninas” a las historias de Katherine Mansfield. Virginia Woolf mantuvo con ella una amistad difícil, y confesó en su diario que el único escritor hacia el que sentía celos era ella. En el ambiente de enrarecido clasismo de Bloomsbury, Mansfield era una presencia lateral y algo exótica, una rareza, un agente doble. Venía de una familia acomodada de Nueva Zelanda, y ese origen colonial le vedaba una plena pertenencia. Traía consigo una leyenda de promiscuidad vivida con una desenvoltura muy ajena a las maneras formales tras las que escondían los fieles de Bloomsbury sus propias disidencias eróticas. Su gran amor en el internado había sido una princesa maorí. Tocaba el violoncelo. Trabajó de extra en películas mudas. Se había casado y su matrimonio había durado solo un día. Había estado embarazada de un hombre que no era su marido fugaz, y estaba sola cuando perdió a su hijo poco antes del parto. Se casó por segunda vez con un crítico de origen obrero, John Middleton Murry, que había logrado una beca para Oxford, pero que no había perdido un acento que lo delataba sin remedio en los salones literarios de Londres. Mansfield y su marido, junto a D. H. Lawrence y su esposa, fundaron una especie de doble pareja abierta escandalosa que estalló al cabo de unos meses de convivencia imposible. Había probado “toda la variedad”, anotó no se sabe si con desconcierto o envidia Virginia Woolf. Decía de sí misma que era “a very MODERN woman”, acentuando el adjetivo con mayúsculas.

Era moderna en su pelo muy corto y en el flequillo sobre las cejas, en la ropa desenvuelta que vestía, en una vida afectiva en la que el impulso de la soberanía personal chocaba muchas veces con la necesidad del amor, igual que su instinto de nomadismo y desarraigo se correspondía con el deseo y la añoranza de una quietud doméstica, de un lugar tranquilo y seguro en el que dedicarse a la escritura, curarse de la enfermedad y sentir abrigado el corazón. Su inteligencia no era ideológica, sino narrativa y poética. La radicalidad de sus principios está en su comportamiento cotidiano y en su observación a la vez compasiva e implacable de las vidas humanas, las de las mujeres y también las de los hombres, las de las niñas y los niños, los ancianos, los ricos, los criados, en una prodigiosa variedad que incluye hasta los animales y las plantas, los gatos, los perros, los insectos, una polilla que entra por una ventana abierta a la noche de verano, una mosca que cae en un tintero. Lo que escribe sobre una de esas mujeres solitarias que pueblan sus cuentos, Miss Brill, lo está diciendo de sí misma: “Se había convertido en una verdadera experta en escuchar como si no escuchara, en quedarse sentada durante unos minutos en las vidas de otras personas mientras hablaban a su alrededor”.

Nunca olvidada, Katherine Mansfield siempre ha estado un poco al margen. 2022 fue un año de centenarios imponentes, el de Ulises, el de La tierra baldía, el de Proust. En esa lista no se ha incluido nunca, que yo sepa, el centenario de The Garden Party, que es el último libro de Katherine Mansfield publicado en vida, y que incluye alguno de sus mejores relatos, no inferiores en originalidad o en altura literaria a cualquiera de las revelaciones más celebradas de aquel año. A su aire, Mansfield participa del gran proyecto modernista de despojamiento de las prolijidades, las sobreabundancias, los amontonamientos abrumadores a los que habían llegado las artes hacia 1900: un mismo empeño de simplicidad y limpieza alienta en los arquitectos, en los compositores, en los pintores, en los diseñadores de muebles y de ropa, en los escritores. Los cuentos de Katherine Mansfield están tan limpios de excrecencias decorativas como una fachada vienesa de Adolf Loos, un bodegón de Juan Gris, una partitura de Erik Satie. Desde la primera frase ya estamos plenamente en el interior de una historia, un poco aturdidos, porque la autora no nos ha cargado con ninguna información previa. El aturdimiento lo disipa la alerta, porque como recién llegados tenemos que fijarnos en todo tipo de detalles significativos que se disiparán en un instante. Escribió en una carta: “No debe haber ni una sola palabra fuera de lugar, o una palabra que pueda quitarse”.

Dice Proust que una obra innovadora crea su propia posteridad, al ir seduciendo uno por uno a lo largo del tiempo a los aficionados capaces de apreciarla y de difundirla, y a los artistas que sigan su ejemplo. Nuestra sensibilidad de un siglo después se reconoce en las historias de Katherine Mansfield porque ellas mismas han estado irradiando con sigilo su influjo, durante más de 100 años, a varias generaciones de lectores y escritores. Así se ha difundido su irreverencia hacia las formalidades y las tonterías sociales, su atención a los ignorados, a los débiles, a los solitarios, sus retratos de las rebeldías secretas o abiertas de las mujeres, la precisión casi botánica de su estilo, la urgencia entre exaltada y angustiada de su celebración de la belleza de las cosas, contempladas con la plena conciencia de que su vida joven estaba acabándose.