Mas conheci-o em 1867: hé mirado algo nuevo! Era um dos poetas novos da Modernidade.
Equiparei as suas Lapidárias às Flores do Mal de Baudelaire e ao As Lendas dos Séculos de Victor Hugo.
E quis divulgá-lo e saber mais sobre ele.
Procurei o seu parente Vidigal que me contou que Carlos Fradique Mendes tinha ficado órfão em criança, foi educado pela avó e por um capelão que lhe ensinou latim, o horror à maçonaria e"outros princípios sólidos". A seguir, leu Voltaire, a Declaração dos Direitos do Homem, Kant. Estudou Humanidades em Coimbra e Direito em Paris. Viajou desde Chicago, Jerusalém, Islândia até ao Sara.
Guerreou na Sicília, na Abissínia, conhecido como "o leão português". Visitou Victor Hugo em Guernesey. Foi o eleito de Ama de Léon, a mais bela e culta cortesã do Segundo Império.
E Vidigal levou-me a conhecer Fradique.
II
Conheci-o nos seus aposentos, enquanto o Vidigal foi despachar uma múmia barrada na alfândega.
Então, alegremente, recordando Coimbra, Fradique perguntou-me pelo Pedro Penedo, pelo País, por outros lentes ainda, do antigo tipo fradesco é bruto; depois pelas tias Camelas, essas encantadoras velhas, que escrupulosamente, através de lascivas gerações de estudantes, tinham permanecido virgens, para poderem, no Céu, ao lado de Santa Cecília, passar toda uma eternidade a tocar harpa… Era uma das suas memórias melhores de Coimbra essa taverna das tias Camelas…
Mas desiludi-me: Fradique não só rejeitava o valor das Lapidárias como considerava Baudelaire um cientista da poesia e não um poeta emotivo, como deverão ser os poetas.
III
Em 1871, no Cairo, reencontrei-o na companhia de Teófilo Gautier e de Jeanne Morlaix. A ficção que inventei sobre ele e ela, falsa porque ela estava apaixonada por um tal Sicard, corretor de fundos, agradou-lhe e ficámos amigos.
Depois de percorrermos o Cairo e de me falar do Babismo, Fradique parte, Nilo acima, para Tebas.
IV
Durante anos não tornei a encontrar Fradique Mendes, que concentrara as suas jornadas dentro da Europa Ocidental — enquanto eu errava pela América, pelas Antilhas, pelas repúblicas do golfo do México. E quando a minha vida enfim se aquietou num velho condado rural de Inglaterra, Fradique começava a sua longa viagem ao Brasil, aos Pampas, ao Chile e à Patagónia.
“Com tudo isto falta-lhe na vida um fim sério e supremo, que estas qualidades, em si excelentes, concorressem a realizar. E receio que em lugar do Discurso sobre o Método venha só a deixar um vaudeville».” Escreveu-me, em 1877, Oliveira Martins, sobre Fradique!
Nas alegres temporadas que, com ele, convivi em Paris, em Londres e em Lisboa, de 1880 a 1887, na nossa copiosa correspondência desses anos privei sempre, sem reserva, com a inteligência de Fradique.
V
Dele bem se pode dizer que foi o devoto de todas as Religiões, o partidário de todos os Partidos, o discípulo de todas as Filosofias —cometa errando através das ideias, embebendo-se convictamente nelas, de cada uma recebendo um acréscimo de substância, mas em cada uma deixando alguma coisa do calor e da energia do seu movimento pensante.
Aqueles que imperfeitamente o conheciam classificavam Fradique como um diletante. Não! essa seria convicção (a que os Ingleses chamam earnestness), com que Fradique se arremessava ao fundo real das coisas, comunicava à sua vida uma valia e eficácia muito superiores às que o diletantismo, a diversão céptica que tantas injúrias arrancou a Carlyle, comunica às naturezas que a ele deliciosamente se abandonam. O diletante, com efeito, corre entre as ideias e os factos como as borboletas (a quem é desde séculos comparado) correm entre as flores, para pousar, retomar logo o voo estouvado, encontrando nessa fugidia mutabilidade o deleite supremo. Fradique, porém, ia como a abelha, de cada planta pacientemente extraindo o seu mel: — quero dizer, de cada opinião recolhendo essa «parcela de verdade» que cada uma invariavelmente contém, desde que homens, depois de outros homens, a tenham fomentado com interesse ou paixão.
VI
Crítico da caridade organizada por estatutos e regulamentos. Consciente de que todos nós que vivemos neste globo formamos uma imensa caravana que marcha confusamente para o Nada. Ajudarmo-nos uns aos outros é a única coisa que nos pode dar alguma dignidade e beleza. Morre em 1888.
VII
Para Fradique era uma inutilidade escrever. Só se podem produzir formas sem beleza: e dentro dessas mesmas só cabe metade do que se queria exprimir, porque a outra metade não é redutível ao verbo.
Tudo isto era talvez especioso e pueril, mas revelava o sentimento que mantivera mudo aquele superior espírito — possuído da sublime ambição de só produzir verdades absolutamente definitivas, por meio de formas absolutamente belas.
Por isso, Fradique passou no mundo, sem deixar outros vestigios da formidável actividade do seu ser pensante, que não fossem as cartas que se seguem.
AS CARTAS
II
Mas seriamos nós [homens] desejados pelo «efémero feminino», se não fosse esta providencial brutalidade? Só a porção de Matéria que há no homem, faz com que as mulheres se resignem à incorrigível porção de Ideal, que nele há também — para eterna perturbação do Mundo. O que mais prejudicou Petrarca aos olhos de Laura — foram os Sonetos. E quando Romeu, já com um pé na escada de seda, se demorava, exalando o seu êxtase em invocações à Noite e à Lua — Julieta batia os dedos impacientes no rebordo do balcão, e pensava: «Ai, que palrador que és, filho dos Montaigus!» Este detalhe não vem em Shakespeare — mas é comprovado por toda a Renascença.
V
Mesmo entre os simples há modos de ser religiosos, inteiramente despidos de Liturgia e de exterioridades rituais. Um presenciei eu, deliciosamente puro e íntimo. Foi nas margens do Zambeze. Um chefe negro, por nome Lubenga, queria, nas vésperas de entrar em guerra com um chefe vizinho, comunicar com o seu Deus, com o seu Mulungu (que era, como sempre, um seu avô divinizado) . O recado ou pedido, porém, que desejava mandar à sua Divindade, não se podia transmitir através dos Feiticeiros e do seu cerimonial, tão graves e confidenciais matérias continha... Que faz Lubenga? Grita por um escravo: dá-lhe o recado, pausadamente, lentamente, ao ouvido: verifica bem que o escravo tudo compreendera, tudo retivera: e imediatamente arrebata um machado, decepa a cabeça do escravo, e brada tranquilamente — «parte»! A alma do escravo lá foi, como uma carta lacrada e selada, direita para o Céu, ao Mulungu. Mas daí a instantes o chefe, bate uma palmada aflita na testa, chama à pressa outro escravo, diz-lhe ao ouvido rápidas palavras, agarra o machado, separa-lhe a cabeça, e berra: — «Vai!»
Esquecera-lhe algum detalhe no seu pedido ao Mulungu... O segundo escravo era um pós-escrito...
VIII
Eu casualmente conheci Pacheco. Tenho presente, como num resumo, a sua figura e a sua vida. Pacheco não deu ao seu País nem uma obra, nem uma fundacão, nem um livro, nem uma ideia. Pacheco era entre nós superior e ilustre unicamente porque tinha um imenso talento. Todavia, meu caro Sr. Mollinet, este talento, que duas gerações tão soberbamente aclamaram, nunca deu, da sua força, uma manifestação positiva, expressa, visível!
IX
E tem sido em mim agora um arquejante esforço, para subir a uma perfeição idêntica aquela que, em si, tão submissamente adoro.
De sorte que a minha querida amiga, sem saber, se tornou a minha educadora. E tão dependente fiquei logo desta direcção, que já não posso conceber os movimentos do meu ser senão governados por ela e por ela enobrecidos. Perfeitamente sei que tudo o que hoje surge em mim de algum valor, ideia ou sentimento, é obra dessa educação que a sua alma dá à minha, de longe, só com existir de ser compreendida. Se hoje me abandonasse a sua influência — devia antes dizer, como um asceta, a sua Graça — todo eu rolaria para uma inferioridade sem remição. Veja pois como se me tornou necessária e preciosa... E considere que, para exercer esta supremacia salvadora, as suas mãos não tiveram de se impor sobre as minhas — bastou que eu a avistasse de longe, numa festa, resplandecendo. Assim um arbusto silvestre floresce à borda dum fosso, porque lá em cima, nos remotos céus, fulge um grande sol que não o vê, não o conhece, e magnanimamente o faz crescer, desabrochar, e dar o seu curto aroma... Por isso o meu amor atinge esse sentimento indescrito e sem nome que a Planta, se tivesse consciência, sentiria pela Luz.
E considere ainda que, necessitando de si como da luz, nada lhe rogo, nenhum bem imploro de quem tanto pode e é para mim dona de todo o bem. Só desejo que me deixe viver sob essa influência, que, emanando do simples brilho das suas perfeições, tão fácil e docemente opera o meu aperfeiçoamento.
X
Adeus, minha querida madrinha! Vamos no nosso décimo-oitavo dia de chuva! Desde o começo de Junho e das rosas, que neste país de sol sobre azul, na terra trigueira da oliveira e do louro, queridos a Febo, está chovendo, chovendo em fios de água cerrados, contínuos, imperturbados, sem sopro de vento que os ondule, nem raio de luz que os diamantize, formando das nuvens às ruas uma trama mole de humidade e tristeza, onde a alma se debate e definha, como uma borboleta presa nas teias duma aranha.
XI
Antes de te amar, antes de receber das mãos de meu Deus a minha Eva — que era eu, na verdade? Uma sombra flutuando entre sombras. Mas tu vieste, doce adorada, para me fazer sentir a minha realidade, e me permitir que eu bradasse também triunfalmente o meu — «amo, logo existo!».
“Também fui a Elêusis; pela larga estrada pendurei muita flor que não era verdadeira, diante de muito altar que não era divino; mas a Elêusis cheguei, em Elêusis penetrei — e vi e senti a verdade! ...”
O DIA DE UMA MULHER DE HOJE, EM LISBOA
“Tome V. uma mulher de hoje, em Lisboa por exemplo, e siga-a durante o seu dia. Ergue-se pela manhã, embrulha-se numa robe de chambre e encontra logo nas simples ordens a dar as mil complicações da civilização. É o candeeiro de gás que tem um escape e que é necessário mandar consertar; um telegrama a expedir por causa de um parente que chega no paquete da Madeira; um recado a uma amiga para combinar a hora a que ambas irão à Câmara ouvir falar o Rufino; depois, tem que organizar o menu, porque há amigos a jantar; arranjar flores da Praça da Figueira, fazer almoçar e seguir os rapazes para o liceu; vigiar a criada que anda a espanejar os bibelots na sala; depois, há ainda o Diário de Notícias a percorrer e o Correio da Manhã a ler, a fechar-se no quarto para escrever a sua correspondência, e por último tratar da questão do criado, que se despediu por birra com o cozinheiro... Só então se pode ocupar da sua toilette, e finalmente vai almoçar. Às duas horas chega a amiga, e, metidas numa tipóia, lá vão ambas para as Câmaras. Aí, sessão tumultuosa, eloquência do Rufino, aplausos, olhadelas aos deputados, tagarelice, rosa divina nos intervalos. Finda a sessão, vai até à Baixa, dá uma volta pela Avenida, entra em várias lojas, sobe à modista, e, à última hora, apressa-se para casa onde a esperam mais cuidados domésticos: é uma nova discussão com o cozinheiro, um prato que é preciso substituir e todas as graves preocupações da toilette para o jantar. Por fim, encontra-se à mesa entre os seus convidados: sorrisos, conversa, discussão sobre política, notícias, cancãs, boatos, maledicência. Os homens acendem os charutos — e seguem todos para o teatro, a ouvir a nova opereta. À uma da madrugada, volta sonolenta para casa: chá, romance para adormecer — e marido roncando ao lado, com um lenço de seda amarrado na cabeça. “