sábado, 19 de junho de 2021

A elegância do ouriço - Muriel Barbery


Sou Renée, porteira do prédio 7, rue Grenelle, com oito apartamentos: tenho 54 anos, vivo sozinha, viúva de Lucien, casei aos 17. Adoro o realizador Ozu.

Começo por conversar com o jovem Antoine Pallières, que não sabe nem compreenderia que uma porteira leia.

Ouriço, Paloma, irmã de Colombe, suicidária de 12 anos, filha de pais ricos, o pai é ministro, vive no prédio. Emite “PENSAMENTOS PROFUNDOS” e publica capítulos intitulados “JORNAL DO MOVIMENTO DO MUNDO”.

 

Às terças e quintas, Manuela, a única amiga de Renée, visita-a.


1º andar: vivem os De Broglie, conselheiro de estado

 

2.º andar: 

Vivem os Meurisse. Têm um cão whippet, Atena. Anne-Helène

Vivem os Rosen. 

Vivem os Saint-Nice.

Olympe Saint-Nice quer ser veterinária 

 

3.º andar: 

Vivem os Badoise. O Neptuno é o cão cocker destes. Diane, a filha. Ele é advogado.

 

4.º andar: Bernard Grélier e Violette, governanta dos Arthens, chefe da Manuela, portuguesa amiga da porteira

Os Arthens vão vender o apartamento.

Morto o Arthen vai para lá viver o sr. Kakuro Ozu, de cerca de 60 anos.

 

5.º andar: Vivem os Josse.

 

6.º andar: vivem os Pallières. 

Antoine Pallières: filho, “derradeiro arroto da grande burguesia empresarial”, não consegue compreender como as classes trabalhadoras entendem o complexo Marx. A mãe chama-se Sabine.

 

6.º andar: vivem os Arthens, Pierre

Jean (drogado), Laura e Clémence, filho e filhas dos Arthens

Lotte, filha mais velha da Clémence


CITAÇÕES:

 

P51 Após um mês de leitura frenética, decido com intenso alívio que a fenomenologia (de Husserl) é uma fraude. Tal como as catedrais sempre despertaram em mim esse sentimento muito parecido com a síncope que se sente diante da manifestação do que os homens podem construir em honra de qualquer coisa que não existe, também a fenomenologia consome a minha incredulidade só de pensar que tanta inteligência tenha podido servir para uma empresa tão inútil.

 

P137 a 139 A professora Maigre estava a explicar o adjetivo qualificativo e um aluno perguntou-lhe: “Mas para que serve a gramática?”. E a senhora-mas-pagam-me-para-vos-ensinar-isso respondeu: “Já deveriam saber!”. E o aluno respondeu: “Mas nós não sabemos, nunca ninguém se deu ao trabalho de nós explicar.” A professora suspirou fundo (talvez a pensar: “ainda por cima, tenho de gramar perguntas estúpidas”) e respondeu: “Serve para se falar bem e para se escrever bem.”

Nunca ouvi tamanha inépcia. E com isto não quero dizer que é falso, quero dizer que é realmente inepto. Dizer a adolescentes que já sabem falar e escrever que a gramática serve para isso é como dizer a alguém que terá de ler uma História dos WC ao Longo dos Séculos para saber fazer bem chichi e cocó. Não tem sentido nenhum! Se ainda nos tivesse demonstrado, com exemplos, que se tem de saber um certo número de coisas acerca da língua para a utilizar bem, que saber conjugar um verbo em todos os tempos evita que se cometam erros crassos que nos envergonham diante de toda a gente num jantar. Ou que, para se escrever como mandam as regras um convite para um baile particular em Versalhes é muito útil saber a regra do acordo do adjetivo qualificativo. Mas se a professora acha que a gramática só serve para se falar bem e se escrever bem... Quando nós aprendemos a dizer e a conjugar um verbo antes de sabermos que se trata de um verbo. E se o saber pode ajudar, não acho, ainda assim, que seja decisivo.

Eu acho que a gramática é uma via de acesso à beleza. Quando falamos, lemos ou escrevemos, sentimo-nos bem se construímos, ou estamos a ler, uma bela frase. Somos capazes de reconhecer uma bela construção ou um belo estilo. Mas quando se estuda gramática, tem-se acesso à uma outra dimensão da beleza da língua. Estudar gramática é descascá-la, ver como ela é feita, vê-la completamente nua, em certo sentido. É isso é que é maravilhoso, porque se pensa: “Que bem feito que isto está...”.

Para mim, às aulas de gramática foram sempre sínteses a posteriori e, provavelmente, precisões terminológicas.

Portanto, disse à professora: “Nem por sombras, isso é completamente redutor!”. Fez-se um grande silêncio na sala, porque eu não costumo abrir a boca e porque contradisse a professora. Ela olhou-me, surpreendida, e ficou com cara-de-pau, como todos os professores quando sentem que o vento está a virar para Norte é que a aulazinha pacata sobre o adjetivo qualificativo poderia transformar-se em tribunal dos seus métodos pedagógicos. “Mas o que sabes tu sobre o assunto?”, perguntou ela, em tom acerbo. Toda a turma continha a respiração: todos aguardavam o resultado do combate, que se esperava que fosse sangrento.

“Muito bem”, disse eu, “parece evidente que a gramática é um fim e não apenas um objectivo: é um acesso à estrutura e à beleza da língua, não apenas uma coisa que serve para uma pessoa se desenrascar na sociedade.” “Uma coisa! Uma coisa!”, repetiu ela, de olhos esbugalhados. “Para a Paloma Josse, a gramática é uma coisa!”.

Justamente, se tivesse ouvido bem a minha frase, teria percebido que, para mim, a gramática não é uma coisa.

 

De onde vem o pasmo que sentimos diante de certas horas? A admiração nasce ao primeiro olhar e se descobrimos depois, na paciente obstinação que pomos em descortinar as causas, que toda aquela beleza é fruto de um virtuosismo que só se descobre examinando o trabalho de um pincel que soube dominar a sombra e a luz e restituir, enaltecendo-as, as formas e as texturas, isso não dissipa nem explica o mistério do primeiro deslumbramento.

 

Como nasce a Arte? Nasce da capacidade que o espírito tem de esculpir o domínio sensorial. 

A Arte é a emoção sem o desejo.

segunda-feira, 14 de junho de 2021

A autêntica - Saul Bellow



Harry Trellman, um solitário perseguido pela memória amarga de um amor perdido, Amy Wustrin, viúva que envelheceu nos braços de outros homens.

Com um ar meio chinês, o “Chinoca”, passou a juventude depositado num orfanato, pelos pais, a mãe doente e o pai, carpinteiro, sem posses para o educar. Depois para não dar nas vistas no ocidente, passou 5 anos no oriente, na Birmânia, onde dinamizou negócios chorudos: importar peças chinesas e restaurá-la na Guatemala, com mão de obra barata. Regressou a Chicago, onde tinha assuntos emocionais para resolver, e abriu um escritório na Van Buren Street. Começou a ser convidado como um homem com grande conhecimento do oriente. Instalou-se num apartamento no Lincoln Park.

Num jantar, de Frances Jellicoe, divorciada de Fritz Rourke, que a maltrata, mas a quem ela continua devotada, conheceu os Adletsky, donos de um império financeiro. O objetivo de Frances era tirar uma foto de grupo que ajudasse a reabilitar o pai dos seus filhos, Rourke, socialmente.

Namorou com Amy Wustrin na adolescência. A última vez que a encontrou não a conseguiu reconhecer e ela ficou furiosa. Passaram 30 anos. Ela casou com Jay, um colega deles, e uma vez fizeram uma mensagem a trois. Jay entretanto morreu. Antes, já advogado, tinha-se divorciado por adultério dela e deixou-a sem nada. O seu corpo vai ser trasladado para outro lugar no cemitério.

Amy tornou-se decoradora de interiores e está a trabalhar para os dois idosos Adletsky. Estavam a comprar um duplex de Bodo Heisinger, um bem sucedido fabricante de brinquedos, e Jay fazia a avaliação dos móveis, para oferecerem à caridade e ganharem benefícios fiscais.

O corpo de Jay vai ser mudado do jazigo que tinha comprado ao pai de Amy e onde a mãe dela repousa. O pai de Jay ainda vive, num lar. Jay negociou a mudança com os filhos.

Amy pensa que cedo deixou se atrair o marido. Trellman ainda a acha uma beldade.

Madge Heisinger contratou um assassino para matar Bodo, o marido, mas foi presa. Ele perdoou-a e casou-se com ela de novo, depois de ela passar 3 anos na prisão.

Agora, na reunião para avaliarem os móveis de Bodo, Madge aparece. Amy acha-a atraente. Madge avalia os seus móveis em um milhão e meio de dólares. Adletsky torce o nariz. Madge, ao servir chá, entorna uma grande quantidade no vestido de Amy. Vão ambas à casa de banho e Madge diz a Amy que fez de propósito para conversarem a sós: tinha ouvido as cassetes que Jay usou para provar o adultério de Amy. A seguir, pede-lhe ajuda para conseguir que Adletsky pague o que ela pede: quer montar um negócio de presentes para divorciados, ao Tommy Bales, o homem que esteve preso por ela o contratar para matar o marido.

Amy teve duas filhas de um primeiro marido, Berner, um jogador que perdeu tudo e de quem ela rapidamente se divorciou.

Harry Trellman esteve casado 12 anos, mas admite que sempre amou Amy. Conversam sobre o passado de mal-entendidos que fez com que não tivessem ficado juntos. 

Jay traía Amy com dezenas de mulheres casadas e montou uma armadilha para provar que a adúltera era ela. Jay contava todas as suas aventuras sexuais a Harry.

Porque é que, afinal, Adletsky contratou Harry e lhe chegou a pedir que desse uma vista de olhos às mobílias de Bodo Heisinger, para as avaliar e para confirmar se não seriam imitações sem qualquer valor, escolhidas por Madge?

No dia em que Madge entornou chá em Amy, Adletsky ligou a Harry a sugerir-lhe que ajudasse Amy a efetuar a mudança de Jay no cemitério, ao lado dos pais dele. Na limusine, enquanto observavam os trabalhos, Amy confessou a Harry que esteve apaixonada por ele, na adolescência, mas achava, pelo seu frequente ar sofismático e obscuro, que ele só poderia pensar mal dela.

Harry é que apresentou Amy aos Adletsky. 

Terá o velho Adletsky percebido os sentimentos que Harry sempre nutrira por Amy?

Deverá Amy aceitar a sugestão de Madge?