Sou Renée, porteira do prédio 7, rue Grenelle, com oito apartamentos: tenho 54 anos, vivo sozinha, viúva de Lucien, casei aos 17. Adoro o realizador Ozu.
Começo por conversar com o jovem Antoine Pallières, que não sabe nem compreenderia que uma porteira leia.
Ouriço, Paloma, irmã de Colombe, suicidária de 12 anos, filha de pais ricos, o pai é ministro, vive no prédio. Emite “PENSAMENTOS PROFUNDOS” e publica capítulos intitulados “JORNAL DO MOVIMENTO DO MUNDO”.
Às terças e quintas, Manuela, a única amiga de Renée, visita-a.
1º andar: vivem os De Broglie, conselheiro de estado
2.º andar:
Vivem os Meurisse. Têm um cão whippet, Atena. Anne-Helène
Vivem os Rosen.
Vivem os Saint-Nice.
Olympe Saint-Nice quer ser veterinária
3.º andar:
Vivem os Badoise. O Neptuno é o cão cocker destes. Diane, a filha. Ele é advogado.
4.º andar: Bernard Grélier e Violette, governanta dos Arthens, chefe da Manuela, portuguesa amiga da porteira
Os Arthens vão vender o apartamento.
Morto o Arthen vai para lá viver o sr. Kakuro Ozu, de cerca de 60 anos.
5.º andar: Vivem os Josse.
6.º andar: vivem os Pallières.
Antoine Pallières: filho, “derradeiro arroto da grande burguesia empresarial”, não consegue compreender como as classes trabalhadoras entendem o complexo Marx. A mãe chama-se Sabine.
6.º andar: vivem os Arthens, Pierre
Jean (drogado), Laura e Clémence, filho e filhas dos Arthens
Lotte, filha mais velha da Clémence
CITAÇÕES:
P51 Após um mês de leitura frenética, decido com intenso alívio que a fenomenologia (de Husserl) é uma fraude. Tal como as catedrais sempre despertaram em mim esse sentimento muito parecido com a síncope que se sente diante da manifestação do que os homens podem construir em honra de qualquer coisa que não existe, também a fenomenologia consome a minha incredulidade só de pensar que tanta inteligência tenha podido servir para uma empresa tão inútil.
P137 a 139 A professora Maigre estava a explicar o adjetivo qualificativo e um aluno perguntou-lhe: “Mas para que serve a gramática?”. E a senhora-mas-pagam-me-para-vos-ensinar-isso respondeu: “Já deveriam saber!”. E o aluno respondeu: “Mas nós não sabemos, nunca ninguém se deu ao trabalho de nós explicar.” A professora suspirou fundo (talvez a pensar: “ainda por cima, tenho de gramar perguntas estúpidas”) e respondeu: “Serve para se falar bem e para se escrever bem.”
Nunca ouvi tamanha inépcia. E com isto não quero dizer que é falso, quero dizer que é realmente inepto. Dizer a adolescentes que já sabem falar e escrever que a gramática serve para isso é como dizer a alguém que terá de ler uma História dos WC ao Longo dos Séculos para saber fazer bem chichi e cocó. Não tem sentido nenhum! Se ainda nos tivesse demonstrado, com exemplos, que se tem de saber um certo número de coisas acerca da língua para a utilizar bem, que saber conjugar um verbo em todos os tempos evita que se cometam erros crassos que nos envergonham diante de toda a gente num jantar. Ou que, para se escrever como mandam as regras um convite para um baile particular em Versalhes é muito útil saber a regra do acordo do adjetivo qualificativo. Mas se a professora acha que a gramática só serve para se falar bem e se escrever bem... Quando nós aprendemos a dizer e a conjugar um verbo antes de sabermos que se trata de um verbo. E se o saber pode ajudar, não acho, ainda assim, que seja decisivo.
Eu acho que a gramática é uma via de acesso à beleza. Quando falamos, lemos ou escrevemos, sentimo-nos bem se construímos, ou estamos a ler, uma bela frase. Somos capazes de reconhecer uma bela construção ou um belo estilo. Mas quando se estuda gramática, tem-se acesso à uma outra dimensão da beleza da língua. Estudar gramática é descascá-la, ver como ela é feita, vê-la completamente nua, em certo sentido. É isso é que é maravilhoso, porque se pensa: “Que bem feito que isto está...”.
Para mim, às aulas de gramática foram sempre sínteses a posteriori e, provavelmente, precisões terminológicas.
Portanto, disse à professora: “Nem por sombras, isso é completamente redutor!”. Fez-se um grande silêncio na sala, porque eu não costumo abrir a boca e porque contradisse a professora. Ela olhou-me, surpreendida, e ficou com cara-de-pau, como todos os professores quando sentem que o vento está a virar para Norte é que a aulazinha pacata sobre o adjetivo qualificativo poderia transformar-se em tribunal dos seus métodos pedagógicos. “Mas o que sabes tu sobre o assunto?”, perguntou ela, em tom acerbo. Toda a turma continha a respiração: todos aguardavam o resultado do combate, que se esperava que fosse sangrento.
“Muito bem”, disse eu, “parece evidente que a gramática é um fim e não apenas um objectivo: é um acesso à estrutura e à beleza da língua, não apenas uma coisa que serve para uma pessoa se desenrascar na sociedade.” “Uma coisa! Uma coisa!”, repetiu ela, de olhos esbugalhados. “Para a Paloma Josse, a gramática é uma coisa!”.
Justamente, se tivesse ouvido bem a minha frase, teria percebido que, para mim, a gramática não é uma coisa.
De onde vem o pasmo que sentimos diante de certas horas? A admiração nasce ao primeiro olhar e se descobrimos depois, na paciente obstinação que pomos em descortinar as causas, que toda aquela beleza é fruto de um virtuosismo que só se descobre examinando o trabalho de um pincel que soube dominar a sombra e a luz e restituir, enaltecendo-as, as formas e as texturas, isso não dissipa nem explica o mistério do primeiro deslumbramento.
Como nasce a Arte? Nasce da capacidade que o espírito tem de esculpir o domínio sensorial.
A Arte é a emoção sem o desejo.