domingo, 20 de dezembro de 2020

Suicídios Exemplares - Enrique Vila-Matas (Rosa Schwarzer volta à vida)

Morte por saudade: reflexão acerca da ideia de que a única plenitude possível é a plenitude suicida. Quando o narrador era jovem uma vagabunda pede uma moeda às mulheres que passa e sussurra algo; o jovem veste-se de mulher para saber o que ela sussurra “nós somos todas umas ociosas”. Na atualidade, o narrador, ainda jovem, com uma esposa bonita e inteligente e duas filhas, deambula por Lisboa, com tentação suicida; relembra o amigo de juventude, Horácio, cujo avô, corajoso aventureiro, se suicidou com um tiro na boca, e cuja família tinha um longo historial de suicidas.

À procura do duo elétrico: “Não sei lá muito bem o que me aguarda, mas, seja como for, irei até lá a rir-me” - Stubb, in Moby Dick

Rosa Schwarzer volta à vida: uma vigilante do Museu de Dusseldorf fez 50 anos, ignorada pelo marido, que a trai com a vizinha, e pelos dois filhos, sente-se atraída pelo som do tam-tam do país dos suicidas: três hipóteses de suicídio, goradas devido à pena que tem do filho Hans. No dia em que fará um almoço de aniversário, decide entrar sozinha num bar. Aí conhece um bêbedo de 30 anos, também chamado Hans, com quem conversa: conta-lhe os seus desejos suicidas, convida-o para passear pelo parque. Sentiu-se feliz. Quando voltou a casa, nem o marido nem os filhos estavam, nem sequer se tinham lembrado do almoço de aniversário. Novamente solitária. Ao jantar, revolta-se contra o marido e os filhos. No dia seguinte, no museu, engole uma cápsula de cianeto, ou de whiskey, não sabe...

A arte de desaparecer: Anatel, um escritor que se quer manter no anonimato, vai viver para a ilha de Umbertha, onde se casa com Yhma, com quem tem cinco filhos. Nesta ilha, os pesquisadores de talentos ocultos, só estão interessados em possíveis glórias nacionais e descartam os génios estrangeiros...

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 https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,rosa-schwarzer-volta-a-vida,379544

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Manual de sobrevivência de um escritor ou o pouco que sei sobre aquilo que faço - João Tordo

 “Manual de sobrevivência de um escritor ou o pouco que sei sobre aquilo que faço” é, simultaneamente, um livro didático, um registo de memórias, um manual de orientação para os aspirantes a escritores e uma reflexão sobre o universo da escrita. O mais extraordinário é que não foi escrito por um autor já sénior no seu ofício, mas por um escritor que ainda não tem 50 anos (nasceu em 1975). Estamos a falar de João Tordo que, apesar de relativamente jovem, tem já 14 títulos publicados e revela, neste seu “manual”, um pragmatismo, uma maturidade e bom senso na abordagem que, muitas vezes, só são ditados pela idade avançada. A segunda parte do título “ou o pouco que sei sobre aquilo que faço” é reveladora dessa atitude de simplicidade, humildade e abertura. Esta atitude de abertura revela-se quando fala do seu percurso de vida onde não faltam desaires, debates, sofrimento e muitas inseguranças, contadas em histórias curiosas, algumas com humor, todas repletas de autenticidade.

Para além desta nota humanista, este livro pode efetivamente ser um manual que oriente as decisões e dúvidas de estreantes na escrita, sendo constantemente reafirmada a importância do trabalho persistente com a palavra e a capacidade salvadora da literatura. Com ele próprio, com os outros e com o mundo.

Em destaque aqui fica a descrição das suas experiências em residências artísticas em vários países (Índia, Suiça, Canadá, EUA, China), no subcapítulo “Viajar para escrever”, onde se lê:

“Voltarás cansado da viagem, provavelmente, desejoso da tua casa e da tua cama, dos teus objetos do teu quotidiano, com saudades da família. Mas voltarás com mais mundo e com uma inquietude boa. Quando despertares no dia seguinte, encontrarás dentro de ti, uma pequena farpa, que é o resíduo emocional da experiência que acabaste de ter, e desejarás fazer tudo outra vez.” (p.159)

Natália Caseiro