Lições de grego
1 Genebra na biblioteca de Saint Gall em vez de na campa de Jorge Luís Borges. A espada entre mim e o mundo.
2 Silêncio. Numa aula com 3 ou 4 alunos, um professor de 30 e tal anos manda ler uma mulher e está não o faz. Quem lê é um outro aluno. O professor observa a mulher e vice-versa. Ela, há uns meses, era professora. Perdeu a fala, o marido, a custódia do filho. Aos dezasseis anos perdeu a fala pela primeira vez.
3 O narrador conta que, com 15 anos, entrou numa livraria e trouxe um livro de Borges sobre o budismo. Nesse ano veio com a mãe da Coreia para a Alemanha. Esteve ali 27 anos.
4 Ela em silêncio nas aulas de grego. O professor fala sobre o grego de Platão.
5 Voz. Um jovem de 15 anos ficou quase cego. Escreve uma carta à jovem que perdeu a audição filha do seu oftalmologista. Amou-a e ama-a. A sua insensatez destruiu a relação. Ama a voz dela. Ela falava quando se conheceram. Ela aprendeu alemão. Ele aprendeu linguagem gestual. Também ele veio da Coreia para a Alemanha, por vezes. Ele um dia disse-lhe que quando cegasse deixariam de poder comunicar, porque ela não falava. E ela respondeu-lhe: FORA, JÁ! E ele amou e ama essa voz. Mas agora ele está na Coreia e ela na Alemanha.
7 Olhos. Ela falava de vez em quando, mas sempre muito baixo. O terapeuta dela. A mãe não queria-te ela tivesse nascido, tomava comprimidos, ela nasceu mesmo não sendo planeada e desejada e isso transtornou-a.
Passa duas horas com o filho de 2 em 2 semanas. Ele diz-lhe que o pai o quer levar com ele durante um ano para longe de Seoul. Ela liga ao ex-marido mas não consegue expressar a revolta e desliga.
Na aula de grego, o professor insiste com ela para que ela lhe mostre a frase que escreveu em grego e ela, perturbada, sai da aula, apesar de ele lhe pedir desculpa.
9 O professor conta, por carta, à irmã Ran, que está em Seoul, o que sentiu quando se apercebeu que a aluna poderia não ouvir nem falar (há 6 meses que frequenta as aulas de grego e nunca falou). O pai dele não gostava muito dele: achava-o mole. O pai dele cegou no final da vida.
10 Sofrer vs Aprender.
11 O apartamento onde ela vive, sozinha, num rés do chão. A cidade solitária, decadente e escura. Tem aulas de grego à quinta-feira. Quando está só ela na sala, o professor parece querer comunicar com ela, mas não o faz e entretanto chegam os outros 2 ou 3 alunos.
14 O narrador, agora quase cego, relembra a morte do amigo alemão Joaquim Grundel, muito novo, com uma doença incurável. O narrador tinha-se mudado para a Alemanha muito novo e sabia o alemão com lacunas, mas era dos melhores alunos em matemática e grego antigo.
17 Ela. O professor pisa e parte os óculos. Vê muito mal sem eles e pede ajuda à mulher que não fala. Vão à cidade comprar-lhe uns óculos novos.
18 Ela leva-o ao hospital porque ele feriu uma mão nos óculos partidos. Comunica com ele com apertões no braço e escreve na mão dele com o dedo.
19 Ela está com ele em casa dele. Ele faz perguntas: porque é que ela estuda grego? Sempre foi incapaz de falar?
Ela lembra o dia em que cortou um pulso para se tentar matar e o marido lhe tirou o filho.
20 Ela foi a casa de manhã e foi visitar o filho à escola, apesar de só no dia seguinte ser o dia dela. Ela volta à casa do professor quase cego para ir com ele buscar os óculos novos. Ele procura-a com a mão e a cara. Beijam-se e abraçam-se.
21 E amam-se
O E ela emite sons sílabas