Um Tenente cobarde, vítima de uma ofensa à qual não consegue dar a resposta adequada e esperada para um homem com o seu estatuto, vê apenas no suicídio a única solução para salvar a honra ferida. Mesmo na Viena do séc. XIX em que os duelos ainda tinham lugar, este é um argumento tragicómico aparentemente banal. O que é brilhante neste texto é a forma como o autor consegue que a mente do leitor e a do Tenente Gustl se tornem uma só, partilhando o turbilhão de pensamentos, as dúvidas, os temores, a impotência, a aflição sentida pela personagem principal nas horas que antecedem o seu quase obrigatório suicídio.
O livro é inovador por ser escrito em fluxo de consciência.
Narrativa curta e agradável de Arthur Schnitzler, esta novela, porventura a mais conhecida de entre todas as que Schnitzler escreveu, é igualmente um marco importante na literatura de expressão alemã, que inaugura o fluxo de consciência na literatura alemã. História muito bem escrita de fluxo de consciência ou monólogo interior. O desfecho é levemente surpreendente, como leve é a narrativa, em que pese a todo o tempo o personagem pensar em se matar.
Schnitzler aborda uma temática que já tinha vindo a aflorar em obras anteriores: a crítica social à casta dos oficiais e ao carácter absurdo do seu código de honra e, de um modo mais abrangente, a crítica ao anti-semitismo que grassava em certos meios vienenses.
A história trabalha questões ligadas ao inconsciente e causou mal-estar entre os militares da época, já que critica de maneira ácida a hipocrisia, a masculinidade frágil, o orgulho e a obsessão por poder tão comuns no exército.