quinta-feira, 17 de março de 2022

O tenente Gustl - Arthur Schnitzler

 

Um Tenente cobarde, vítima de uma ofensa à qual não consegue dar a resposta adequada e esperada para um homem com o seu estatuto, vê apenas no suicídio a única solução para salvar a honra ferida. Mesmo na Viena do séc. XIX em que os duelos ainda tinham lugar, este é um argumento tragicómico aparentemente banal. O que é brilhante neste texto é a forma como o autor consegue que a mente do leitor e a do Tenente Gustl se tornem uma só, partilhando o turbilhão de pensamentos, as dúvidas, os temores, a impotência, a aflição sentida pela personagem principal nas horas que antecedem o seu quase obrigatório suicídio.

O livro é inovador por ser escrito em fluxo de consciência.
Narrativa curta e agradável de Arthur Schnitzler, esta novela, porventura a mais conhecida de entre todas as que Schnitzler escreveu, é igualmente um marco importante na literatura de expressão alemã, que inaugura o fluxo de consciência na literatura alemã. História muito bem escrita de fluxo de consciência ou monólogo interior. O desfecho é levemente surpreendente, como leve é a narrativa, em que pese a todo o tempo o personagem pensar em se matar.
Schnitzler aborda uma temática que já tinha vindo a aflorar em obras anteriores: a crítica social à casta dos oficiais e ao carácter absurdo do seu código de honra e, de um modo mais abrangente, a crítica ao anti-semitismo que grassava em certos meios vienenses.
A história trabalha questões ligadas ao inconsciente e causou mal-estar entre os militares da época, já que critica de maneira ácida a hipocrisia, a masculinidade frágil, o orgulho e a obsessão por poder tão comuns no exército.

terça-feira, 1 de março de 2022

Don Giovanni ou O dissoluto absolvido - José Saramago

 

Don Giovanni ou O dissoluto absolvido
Prólogo
Dona Elvira revoltada por não ser a única e porque Don Giovanni tem o nome dela escrito no livro com os nomes das 2650 amantes, exige a Leporello que lhe dê a página com o nome dela. Como ele recusa, jura vingar-se.
Cena 1
Don Giovanni queixa-se por não ter conseguido seduzir Ana e Zerlina. 
O comendador, morto à espada por Don Giovanni, transformado em estátua, vai a casa dele e exige que se arrependa de ter violado a sua filha Ana. Se não o fizer, irá para o inferno. Não consegue o que quer.
Cena 2
Masetto quer saber se Zerlina está em casa de Don Giovanni. Este diz que não sabe dela. Não a terá conseguido seduzir.
Cena 3
Dona Elvira exige a Don Giovanni que volte para os seus braços. Como ele recusa, ela troca o livro com a lista das duas mil e tal mulheres conquistadas por um livro falso.
Cena 4
Entram Dona Ana, Dona Elvira e Don Octávio. Ana diz que Don Giovanni é impotente. Que a tentou violar a fingir que era Don Octavio. Dona Elvira confirma que se mostrou prazer com Don Giovanni, foi fingido, para se divertir. Ao abrir o livro, repara que todas as páginas estão em branco. 
Don Giovanni mata Don Octavio. Ana queixa-se por Don Giovanni tyer morto o seu pai e agora o amado.
Cena 5
Entra Zerlina e diz a Don Giovanni que viu que olivro verdadeiro foi queimado por Dona Elvira e que esta lhe disse que Don Octavio foi morto por Don Giovanni. Este diz que foi um duelo justo, que teria morrido ele se não matasse Don Octavio. Zerlina entrega-se-lhe por o ver a sofrer e abandonado por todos. A estátua do comendador desfaz-se em pó.

Don Giovanni morre como mito para renascer como homem comum.
E a mulher surge, em Saramago, mais uma vez, como a redenção.
Pela primeira vez, Don Giovanni não escolhe, é escolhido.
In A Estátua Despedaçada, por Eduardo Prado Coelho