sexta-feira, 15 de outubro de 2021

As Horas do Fim - Elsa Margarida Rodrigues



Confesso que quando tomo conhecimento de que há um livro novo, de um escritor de renome quase apenas local, numa edição caseira, não consagrada, nascida no seio de um grupo local de amantes da escrita e da leitura ou de uma editora recém-criada, reajo, geralmente, com indiferença ou desconfiança de que a sua qualidade poderá converter a aquisição num investimento inútil, que dificilmente encontrará espaço na estante principal da casa e que, por vezes, nem para oferecer poderá servir.

Quando leio esse livro novo, faço-o já com alguma segurança, resultante do agrado provocado pela leitura de anteriores publicações do autor, ou da curiosidade, que terá sido estimulada por fatores diversos.

Quem opta por este tipo de publicação, indispensável para quem não consegue ser publicado a um nível diferente, certamente o faz por acreditar que tem qualidade suficiente para arriscar. Irá descobrir, depois, se essa pretensa qualidade é reconhecida ou não.

A qualidade literária de um livro mede-se, obviamente, pela quantidade de elogios que os críticos literários venham a publicar e pela capacidade de expressão do sentido crítico de quem o leu. Se o livro se torna, ou não, depois, um sucesso de vendas é uma questão que não é tão facilmente entendível.

Desde o início da leitura do livro “As Horas do Fim”, da Elsa Margarida Rodrigues, editado pela Minimalista, não perdi nunca vontade de o continuar a ler, o que acontece, por vezes, lamentavelmente, com algumas escolhas de leitura, e decidi aceitar o convite tácito de entrar no jogo proposto, de tentar desvendar o mistério e de perceber se se confirmaria o aparente mérito da escolha da estruturação temporal, que na primeira parte é surpreendente (terei visto um ou outro filme assim sequenciado), e na segunda parte delicia pela alteração que sofre. A concentração da ação, que ocorre num período temporal muito breve, é forte e revelou-se no final um dos jokers usados pela autora no jogo diegético.

O final deixou-me a sensação de que a autora não só foi muito esperta, como se terá divertido muito a planificar a teia com que captura o leitor. Foi-me oferecida uma agradável experiência lúdica, que mistura um argumento muito simples com o privilégio de assistirmos ao desfile dos pensamentos e dos pontos de vista descomplexados e polémicos das personagens, habitualmente ocultos, noutras narrativas, relativamente a temas clássicos como o amor ou a busca do sentido dos dias. Claro que algumas mentes são mais merecedoras de serem perscrutadas do que outras, mas o mesmo acontece na vida real.

Serão preponderantes na narrativa estas personagens que se configuram como planas e quase vazias ou, pelo contrário, as que na obra oscilam entre a psicose infeciosa e a lucidez antissética?

Não me agradou o uso e abuso de frases demasiado curtas, apesar de considerar que tal opção permite que a autora divague por pormenores muito curiosos do quotidiano das personagens, que não mereceriam menção numa narrativa mais complexa, subjetiva e longa.

Pareceu-me ler, neste livro, que se defende que a verdadeira e única relação amorosa possível e duradoura é a que mantemos connosco próprios e que a qualidade e a intensidade das relações que estabelecemos com o(s) outro(s) serve apenas os interesses dessa relação egocêntrica. Não partilho esse ceticismo em relação ao amor pelos outros. Mas também não sei se estas ideias que retirei da obra correspondem à interpretação que a Elsa pretendeu induzir.

Apetece-me emprestar “As Horas Finais” aos amigos, para que outros possam usufruir da sua leitura, o que é um bom indicador de que se trata de um livro com qualidade bastante para fazer parte da minha estante, no meio dos meus livros preferidos, porque mesmo que, em possíveis futuras análises, lhe venha a descobrir defeitos, a sua leitura acrescentou agrado a algumas das minhas horas recentes.



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 AS HORAS DO FIM - Elsa Margarida Rodrigues

Notícia breve: um homem foi encontrado gravemente ferido no seu carro, a 50 quilómetros da cidade. Terá sido atropelado e depois metido no carro. Sem documentos de identidade. No bolso uma mensagem: OOSOKO. Foi identificado depois pela esposa. Morreu a caminho do hospital. Ter-se-á relacionado com um empresário acusado de vário crimes.

PARTE 1
4h37m Coma antes da morte.

00h45m O atropelamento e a dor.

22h21m No bar com os dois amigos. Recusara defender um caso de um homem importante e perigoso. Sai, entra no carro e é seguido.

20h38m Vai a casa da amante, ex-namorada de um homem condenado graças à acusação preparada por ele. Já não sente nada por ela, a não ser desejo físico. O ex-namorado saiu da prisão. Sai, despedindo-se definitivamente dela. Ela chora e ameaça-o de que se vai arrepender. Um carro arranca atrás dele, com as luzes apagadas.

18h23m Em casa, à espera da mulher. Ela chega. Pouco têm a ver um com o outro. Raramente fazem amor e quando o fazem é sem grande intensidade. As conversas são tentativas de se dominarem um ao outro. Ele sai, depois de escrever um bilhete que põe ao bolso. Um carro preto segue-o.

16h53m Na psicoterapeuta. Jogo de palavras para analisar o seu desejo de se aniquilar. No carro, a telefonar, não repara em dois homens que ao longe o observam.

14h32m O protagonista recusa defender um caso de um mafioso, que no final da conversa o ameaça de que não irá durar muito tempo. Sai e é seguido por um carro.

12h38m Almoço com a mãe que lhe apresenta a proposta de venderem a empresa do pai, que está internado com uma doença provavelmente terminal, engendrada pelo irmão, o filho preferido da mãe. A mãe sabe que ele tem uma amante. O irmão, com 2 filhos, separou-se da mulher para viver com uma outra com um apelido socialmente sonante, mas sem dinheiro. Ele concorda, mas depois no carro envia uma mensagem à mãe a dizer que mudou de ideias. Acaba o almoço e é seguido.

9h47m Depois de ter ido correr numa floresta num monte, exausto, atrasado, entra no carro, deixa cair o telemóvel e embate num carro de dois meliantes que o ameaçam e lhe riscam o carro. Fixa a matrícula, que não consegue fotografar. Livra-se deles a custo e chega a casa. É observado por vultos.

7h30m Acorda de um sonho disfórico com o pai na escuridão. Terá chorado. A mulher levanta-se e sai. Pouca atenção dão um ao outro. Decide ir, pela primeira vez, correr no monte, no meio da natureza mais ou menos selvagem. Que comece o jogo.

PARTE 2

22h21m
A amante, namorada de um homem condenado graças à acusação preparada por ele. O ex-namorado saiu da prisão e é recebido amorosamente por ela, depois de o protagonista a ter rejeitado, às 22h. Terá perdoado a violência dele, que a levou a acusá-lo.

A esposa do protagonista telefona a uma amante BFF e tergiversa sobre a iniquidade do amor e as vantagens de estar numa relação sem amor, logo, de liberdade afetiva total. Recebe a notícia da morte do marido e chora durante horas.

A psicoterapeuta espera pelo seu amor, que está de passagem, enquanto vê o filme “Beleza Americana” e reflete acerca da sessão com o protagonista e da prevalência da beleza.

O mafioso é preso, na sua vivenda, por, entre outros motivos, ter mandado matar uma Sheylla Marie Resende.

A mãe do protagonista telefona ao outro filho para lhe pedir que vá ao bar ver se está tudo bem com ele. Informa-o de que lhe tentou ligar para conversar come ele sobre uma mensagem que ele lhe enviara a desistir do que tinham combinado. Acorda com um pesadelo às 4h37, hora a que o filho está a morrer.

Os dois meliantes que lhe riscaram o carro…

https://www.regiaodeleiria.pt/2021/07/as-horas-do-fim-um-romance-policial-que-faz-do-leitor-o-detetive/

https://minimalistaeditora.pt/