Na nota de autor que encerra o livro, João Pinto Coelho escreve: “No dia 10 de Julho de 1941, em Jedwabne, pequena cidade do nordeste da Polónia, um grupo de cidadãos, na sua maioria cristãos, reuniram à força os seus vizinhos judeus na praça principal e, num festim de violência, conduziram-nos até um celeiro próximo que incendiaram, queimando vivas centenas de pessoas, incluindo muitas crianças. Nos dias que se seguiram, sucederam-se as pilhagens e apagaram-se para sempre os traços seculares da presença judaica na cidade“. Mas, apesar de o livro ter a ver com esses momentos da história ocorridos há oitenta anos, é um livro de ficção.
A narrativa decorre em Paris no início deste século e acompanha alguns meses da vida de Yankel, um velho judeu cego proprietário da Livraria Thibault. A rotina da sua vida de livreiro com a presença de Fidelia, a actual companheira que faz dos seus dias “maratonas de leitura”, de Armand, o cão, para além dos dias da semana na livraria, é interrompida pela visita de Eryk. Eryk que Yankel não vê desde 1941, fora seu amigo de infância e é actualmente um escritor famoso em Bruxelas, sob o nome de Paul Lestrange. Este reencontro há muito ansiado tem agora a urgência da vida que está quase a chegar ao fim. Eryk quer escrever o seu último livro, quer acabá-lo, mas para isso precisa das informações que só o seu amigo Yankel tem, apesar de cego e que ele não foi capaz de captar. Isso obrigá-los-á a recordar a infância e a terra natal no nordeste da Polónia, na segunda metade dos anos 30 e nos primeiros anos dos anos 40 do século passado, quando a sua terra – “o círculo perfeito” – era habitada por uma comunidade dividida entre judeus e cristãos. Vivienne, a mulher de Eryk e sua editora, será o elo de ligação entre os dois homens.
É clara, desde o início, a tensão entre os dois velhos polacos. Os seus diálogos são cínicos, mordazes, percebe-se que há questões por resolver, que há um ajuste de contas, mas por fim Yankel acede em contar para um gravador a sua história na primeira pessoa, a qual depois será reescrita e editada por Eryk e Vivienne. O/A leitor/a vai assim acompanhando entre a Polónia e Paris o desenrolar da história dos dois amigos e de Shionka, a jovem muda filha de Dreide, a bruxa da aldeia. E fica desde logo preparado/a para um crescendo na narrativa, pois se o preâmbulo e os primeiros capítulos são sobre a inocência, o final será obsceno.
Almerinda Bento, 4 de agosto de 2018, in esquerda.net
Almerinda Bento, 4 de agosto de 2018, in esquerda.net