quarta-feira, 1 de março de 2017

As velas ardem até ao fim - Sándor Márai

- Tens de responder a duas perguntas - diz o general e inclina-se também para a frente; fala sussurrando, num tom confidencial. - A duas perguntas que elaborei há muito tempo, nas últimas décadas, enquanto esperava por ti. A duas perguntas a que só tu podes responder. Vejo que pensas que quero perguntar se tenho razão, se naquela manhã, na caça, realmente tiveste a intenção de me matar. Não foi tudo isso imaginação minha? Afinal de contas, não aconteceu nada. Mesmo o instinto do melhor caçador pode falhar. E pensas que a outra pergunta seria assim: foste amante da Krisztina? Enganaste-me, como se costuma dizer, e ela enganou-me, no sentido real, vulgar e vil da palavra? Não, meu amigo, essas duas perguntas já não me interessam. A essas perguntas tu respondeste, o tempo respondeu e respondeu também a Krisztina, à sua maneira.

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Envelhecer

Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o sginificado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer... Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreeende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal... e isso é precisamente a velhice. 

Sándor Márai, in 'As Velas Ardem Até ao Fim'