Passamos a viver numa espécie de patamar mínimo de desejo e felicidade, acantonados nos nossos direitos adquiridos; habituamo-nos a esse patamar mínimo, seguro e previsível, controlável, abdicamos de ambicionar e perseguir uma felicidade esplendorosa, inesperada e possivelmente aniquiladora (talvez avassaladora mas obviamente impossível de manter indefinidamente), para nos acomodarmos a uma amostra de felicidade mínima, mas estável, a uma espécie de serviços mínimos de felicidade, sem risco nem chama nem combustão. procuramos paz e tranquilidade, quando talvez devêssemos ambicionar agitação e desassossego. Dizemos que vivemos cada dia como se fosse o último mas, na verdade, vivemos cada dia como se fosse o antepenúltimo. E habituamo-nos.
Habituamo-nos a tudo.
"Sabes, a acção distrai. Distrai do pensamento, percebes? A melhor forma de contrariar o excesso de pensamento é agir. Não pensar, fazer. Não pensar tanto, fazer mais. Agir. E enquanto se age, não se pensa. Percebes o que te estou a tentar explicar, filha?"
Percebia. Mudar de zero-acção para só-acção. Fazer mais e lamuriar-se menos.
Como se me adivinhasse os pensamentos, disse: "Não acho mal que uma pessoa se queixe um bocado, que se sinta uma desgraçada e o diga. Sabes porquê? Porque a lamúria é o primeiro passo para a mudança. Primeiro queixas-te, depois cansas-te dos lamentos e começas a fazer algo para que aquilo que causou a lamúria mude. É assim que funciona, acho eu. Como quando se vai ao médico, tens de dizer onde te dói, o que está mal; queixar-te. O problema é quando se fica preso na lamúria. Está sempre a acontecer, todos conhecemos pessoas assim. Queixam-se e queixam-se e não saem disso. Não agem. Gente insuportável essa. Mas se a lamúria for o ponto de partida para algo novo, parece-me bem, parece-me uma coisa boa. É como fazer um diagnóstico. É um início."