quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O lugar do morto - José Eduardo Agualusa

SOBRE CORCUNDAS E ELEIÇÕES -  Léopold Sédar Senghor

Quero contar‐vos uma história africana. Havia numa aldeia remota uma jovem de rosto fino, tensa pele de tantã, voz grave de contralto, mãos de alísios, mãos que curam febres, pálpebras de penugem e de pétalas de aloendro, sobrancelhas secretas e puras como hieróglifos. Os cabelos eram como o fogo a rolar pelo mato à noite. Pérolas brilhavam como estrelas contra a sua pele noturna. Receio já ter utilizado uma ou outra destas imagens em poemas que publiquei enquanto vivia. Perdoem‐me. Inéditas ou não, são imagens que servem na perfeição para descrever a jovem da minha história. Vou chamar‐lhe Vissolela.
Apesar de todas as laboriosas imagens que usei acima para descrever Vissolela, a rapariga não encontrava pretendentes. Porquê? Pois, porque logo que os homens conseguiam afastar os olhos do seu belo rosto davam com a corcunda. Vissolela nascera com um morro de salalé a desfear‐lhe o perfil solene. Definhava ela, escondida a um canto, e entristeciam os pais. Então, certa tarde, chegou à aldeia um forasteiro. Era um homem aprumado, de palavras medidas e justas, olhos fundos e limpos como um céu de verão depois das chuvas. Sendo o primogénito os pais deram-lhe o nome de Nendela.
Nendela viu Vissolela. Viu-a cozinhar, viu-a varrer o terreiro com humilde zelo. Impressionou-o a dignidade daquela mulher, comoveu-o a noite azul do seu coração. Ao fim de alguns dias decidiu falar com os pais da moça. "Quero casar com a vossa filha", disse. O pai estranhou: "Não pode ser. Não temos nenhuma filha escorreita que te possamos entregar." Nendela apontou Vissolela: É aquela que eu  quero."
Os pais concordaram, surpresos mas felizes com a sorte da filha. Nendela voltou alguns dias depois com cinco vacas - para o alembamento - e levou a rapariga. Nessa noite Vissolela chorou, um choro tristíssimo, que assustou o marido.
"Sou feia", lamentou-se. "Como podes gostar de mim?"
"Gosto de ti tal como és", assegurou-lhe Nendela. "Gosto tanto de ti que não consigo ver-te sofrer. Se te horroriza a esse ponto a tua corcunda deixa-me ficar eu com ela."
Mal terminou de dizer isto a corcunda passou para as suas costas e Vissolela endireitou-se incrédula, feliz, mulher de altas pernas, tronco esguio, doce pele de melaço. Durante alguns meses o casal foi feliz. Vissolela, porém, transformava-se. Já não gostava de ficar em casa, a cozinhar, a cuidar dos porcos e das galinhas, enquanto o marido ia fazer o serviço da lavra, caçar ou pescar.
Agora Vissolela passava muito tempo a entrançar o cabelo, a perfurar-se, a amaciar a pele com óleo de palma. Passou-se mais algum tempo e Vissolela começou a ser cortejada pelos homens da aldeia. Um deles encantou-a. Era um sujeito de natureza lábil, esbelto mas furtivo, como um guerreiro perdido nos altos agimos do sono. Disse-lhe o jovem: "O que faz uma mulher bela como tu com um aleijado? Deixa o teu marido e vem comigo." Vissolela concordou. Preparava-se para abandonar a sua casa quando Nendela apareceu, vindo da lavra. "Vou-me embora", disse ao marido. "Não suporto mais viver contigo, um aleijado." Nendela olhou-a com o coração desfeito. "Vai então", concordou, "mas não te esqueças de levar a tua corcunda." Ao dizer isto endireitou-se e no mesmo instante a horrível corcunda regressou às costas de Vissolela.
Foi assim que aconteceu.

in O LUGAR DO MORTO - JOSÉ EDUARDO AGUALUSA


O ACORDO ORTOGRÁFICO - Machado de Assis

Há portugueses aos quais parece incomodar o crescente empenho do Brasil na afirmação internacional do português. Noventa e cinco por cento dos falantes de português no mundo são brasileiros. Não fossem os cento e noventa milhões de brasileiros e o português teria menos relevância que o holandês ou o catalão. Os portugueses deveriam, sim, exigir mais empenho ao Brasil.

Recordo, a propósito, o caso do escritor português de visita ao Rio de Janeiro a quem alguém terá, estupidamente, recriminado o sotaque (querendo, talvez, referir-se à má dicção). Empertigando-se o português retorquiu: «Quem tem sotaque é você, a língua é minha.» Engano o dele. A língua é de todos quantos a vêm criando e recriando, com paixão e ternura, desde que ela se formou, e, mais tarde, se espalhou pelo mundo.

No que diz respeito ao sotaque, o erro não é menor: os especialistas em prosódia têm vindo a comprovar, através de engenhosos exercícios, que o sotaque de Lula da Silva está mais próximo do sotaque de Pedro Álvares Cabral do que o de Cavaco Silva. E não apenas o sotaque. A periferia tende a ser conservadora. Quase sempre muda-se a partir do centro, e terá sido também isso que aconteceu com o nosso idioma. Se, como receiam tantos portugueses, o presente Acordo Ortográfico forçar o português de Portugal a aproximar-se das variantes brasílicas, não haverá nisso tanto de deriva quanto de regresso. Ao aproximar-se do Brasil, está Portugal aproximando-se de si mesmo — está, afinal, a fazer-se mais português. Também nesse sentido o Brasil é o futuro de Portugal.



RESPOSTA A ANA MOURA - Fernando Pessoa

Ana Moura gostava que eu fosse vivo. Vivo, escreveria versos para fados que depois ela cantaria. Disse‐o recentemente em entrevista ao jornal Público
Eu, que nem tenho a certeza de ter estado vivo alguma vez, da mesma forma que não tenho a certeza, agora, de estar realmente morto, escreveria de boa vontade os tais fados, contanto que fosse numa taberna - e não pelos fados, Ana, mas pelo vinho.
Estar ao serviço de Ana Moura, na Mouraria, nem sequer me parece fado atroz, ao contrário de tantos outros que me têm imposto desde que naquele dia trinta de novembro de mil novecentos e trinta e cinco me deixei arrebatar pelo sonho e parti (sempre gostei de sonhar; sonhar sem o receio de despertar, eis a perfeição do sonho). 
A minha silhueta passeia‐se hoje por toda a parte, e serve, sem cobrar nada, a tudo e a todos: promove campanhas turísticas, assinala as retretes masculinas, frequenta galerias de arte e livros para crianças, na sua maioria muito maus. Os meus versos servem a todos os fins. Ouço‐os nas bocas de cardeais e de maçons, nas bocas de mulheres virtuosas e de putas; nas bocas de generais e de outros comprovados canalhas.

in O LUGAR DO MORTO - JOSÉ EDUARDO AGUALUSA



OS PORTUGUESES NÃO GOSTAM DE ASAS - Eça de Queirós

Há tempos passeava eu, placidamente, era um fim de tarde lento e melancólico, junto aos fortes portões do Paraíso, quando vi chegar um português. Via‐se pela alma que fora um homem sem maldade. Também se via, olhando melhor, que fora inteiramente sem maldade, não por um esforço de vontade, mas por pura preguiça. São Pedro recebeu‐o com um fatigado abraço — lembrem‐se que findava o dia — e estendeu‐lhe um par de asas. O português protestou: «E que farei eu com essas asas?» São Pedro, encolhendo os ombros magros: «Ora, filho, voa!» O português recuou, aterrado: «Ah não! Isso é que não pode ser! Fique lá o senhor com as asas que eu se vim para aqui foi para descansar.»
E assim vamos nós.

in O LUGAR DO MORTO - JOSÉ EDUARDO AGUALUSA