quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Tudo é e não é - Manuel Alegre

"Num brilhante ensaio sobre “Tudo É e não É”, de Manuel Alegre, João Maria André, filósofo e Professor catedrático na Faculdade de Letras de Coimbra, na apresentação do romance na Casa da Escrita, afirmou estarmos perante um livro que acaba por ser uma “vingança dos sonhos ou o reverso de Descartes”. Isto porque, apesar de se tratar de ficção, é uma obra que a partir do dispositivo dos sonhos e da sua interação com a realidade e com a escrita, subverte a lógica binária cartesiana.

João Maria André explicou que “o que Descartes faz é desqualificar o sonho na sua relação com a realidade” e com isso “desqualifica, ao mesmo tempo, toda a realidade que se possa assemelhar ao sonho”, bem como a lógica do sonho, “que não é uma lógica linear nem binária, como a lógica de Parménides e de Aristóteles, mas uma lógica complexa”, em que “o princípio da identidade e o princípio de não contradição deixam de ter a sua validade, para serem substituídos por outros princípios, talvez menos apolíneos e mais dionisíacos”.

Ora, como afirmou, a desqualificação do sonho “é simultaneamente a desqualificação de todos os outros registos discursivos”, “que não se servem da lógica linear e binária, distintiva e excludente, mas de uma lógica copulativa”, “que em vez de assentar no ou…ou assentam no e…e”, “ou seja, uma lógica da coincidência” como a defendida por Nicolau de Cusa, no século XV.

Assim, para João Maria André, “Tudo É e Não É”, logo no título, é, de facto, “uma vingança dos sonhos” e “um retorno da sua lógica copulativa e coincidencial, não apenas no registo dos sonhos, mas também no registo da realidade.”

“Efectivamente”, argumentou, “desde que os homens começaram a substituir o modo do pensar do mythos pelo modo de pensar do logos, ou seja, desde os longínquos séculos VI e V antes de Cristo da antiga Grécia, que o ser e o não ser, na sua exclusão ou na sua coincidência, constituíram o tema central da reflexão filosófica”, com destaque para Parménides, “com a sua célebre afirmação de que o ser é e não pode deixar de ser e o não ser não é e não pode deixar de não ser”. Esta era “a lógica da identidade e da não contradição”, a sobrepor-se “à vida, à lógica do movimento e da existência”.

Mas “o sonho tem o dom de criar realidade”, lembrou. Por isso, “a vingança dos sonhos, revertendo a marcha de Descartes, transpõe para a realidade a lógica dos sonhos”. Assim Manuel Alegre “inverte (…) também a lógica das suas representações, através de uma permeabilidade entre os sonhos e as representações aparentemente desqualificadas da realidade.” E se a escrita é “uma das primeiras representações da realidade”, “neste romance o sonho é uma metáfora da escrita, a escrita é uma metáfora do sonho, ao mesmo tempo que o sonho e a escrita são uma metáfora da existência e da realidade.”

“É o sonho a vingar-se definitivamente”, concluiu João Maria André. “Vinga-se primeiro da realidade e da lógica com que a realidade o pretende aprisionar. Mas vinga-se depois da própria escrita lançando nela a rebeldia e o controle pelo descontrole”, exemplificando com “a primeira das obsessões deste romance”: “uma personagem que faz a mala mas que nunca chega a conseguir arrumá-la, enquanto o autocarro ou o táxi estão sempre a partir. Arrumar a mala seria fechar a mala. Fechar a mala seria fechar o sonho. Partir no autocarro com a mala fechada seria abandonar o terreno do sonho.”

“Com a lógica dos sonhos e a lógica da escrita, é também a lógica das outras artes que, assim, se vinga da lógica linear da realidade” diz ainda João André, na sua leitura das chaves de “Tudo É e não É”, recordando as referências ao cinema, à pintura, à música e à poesia convocadas no livro de Alegre. “O recurso a este elemento intertextual faz entrar na lógica do sonho e na lógica da realidade um dispositivo” a que chamou “pontos de fuga”, que introduzem no livro “um profundo dinamismo que quebra o estaticismo que poderia, a dada altura, caracterizar tanto a realidade como o sonho.”

“Quanto mais avançamos no sonho mais entramos na realidade” diz ainda João Maria André, “porque a lógica dos sonhos, sendo copulativa e coincidencial, não exclui a realidade, mas reclama-a na sua lúcida expressão.” “Por esse motivo, este romance não é um romance em que o poeta militante, Manuel Alegre, troque o mundo da existência pelas oníricas ilusões da terra que não existe”, afirma. “Por esse motivo, não espanta que, recorrentemente, o leitor seja reconduzido ao aqui e agora do seu presente, como quem diz que é aqui, neste espaço, que o sol tem de ser escrito”, conclui.

João Maria André não deixou de assinalar aquilo que, para ele, tem “o sabor de um grito”: “o breve capítulo 14 (p. 17), que constitui mais uma das chaves de todo o livro: ‘Ninguém sabe. E por isso todos somos perseguidos, atacados, cercados, sem saber por quem, inimigos desconhecidos, mão invisível. E se alguém pergunta como não morro, eu lhe responderei: que porque sonho’”.