terça-feira, 9 de março de 2010

Contos do Gin-Tonic - Mário Henriques Leiria


A FLÓBER 
Ainda me lembro. O melhor presente que tive foi sem dúvida aquela flóber. Toda a garotada da terra colaborou no meu entusiasmo. Íamos para o campo, pam pam, pardal aqui, pam pam, pardal ali. A única arrelia que tive com ela foi quando um dia, sem querer, pam, acertei em cheio na tia Albertina. Para castigo não me deixaram ir ao enterro. 

EXAGEROS
O Alfredo atirou o jornal ao chão, irritadíssimo, e virou-se para mim: - Estes jornalistas! Passam a vida a inventar coisas, é o que te digo. Então não afirmam que, no Sardoal, foi encontrado um frango com três pernas! Vê lá tu! É preciso ter descaramento. Ajeitou-se melhor no sofá e, realmente indignado, coçou a tromba com a pata do meio. 

NOIVADO
Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos abertas e cheias de ternura. 
- És tu Ernesto, meu amor? 
Não era. Era o Bernardo. Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes. 
É o que faz a miopia. 

A FAMÍLIA
Vamos à pesca
disse o pai
para os três filhos
vamos à pesca do esturjão
nada melhor do que pescar
para conservar
a união familiar
a mãe deu-lhe razão
e preparou
sem mais detença
um bom farnel
sopa de couves com feijão
para ir também
à pescaria do esturjão
e a mãe e o pai
e os três filhos
foram à pesca
do esturjão
todos atentos
satisfeitíssimos
que bom pescar
o esturjão!
que bom comer
o belo farnel
sopa de couves com feijão!
e foi então
que apanharam
um magnífico esturjão
que logo quiseram
ali fritar
mas enganaram-se na fritada
e zás fritaram o velho pai
apetitoso
muito melhor
mais saboroso
do que o esturjão


vamos para casa
disse o esturjão.


in Contos do Gin- Tonic 
Mário-Henrique Leiria

O OBSERVADOR DE CARACÓIS - Patricia Highsmith



O OBSERVADOR DE CARACÓIS 

Certa noite, o Sr. Knoppert entrou na cozinha, à procura de algo para comer, antes do jantar, e reparou que por acaso que um casal de caracóis, que estava na tigela da louça, no bordo de escoamento, se comportava de um modo muito estranho. Mais ou menos erectos sobre a cauda, moviam-se um diante do outro como que dançando e, para todos os efeitos, pareciam duas serpentes hipnotizadas por um tocador de flauta. Viu, momentos depois, os seus focinhos tocarem-se num beijo de intensa volúpia. O Sr. Knoppert debruçou-se mais sobre eles e estudou-os de todos os ângulos. Algo acontecia: uma protuberância, tipo orelha, aparecia no lado direito da cabeça de ambos os animais. O seu instinto disse-lhe que estava a observar um certo tipo de actividade sexual. (...)

 Os nativos das ilhas Matusas dizem que existem caracóis ainda maiores do que os que existem na ilha desabitada de Kuwa, a cerca de quarenta quilómetros das Matusas. Os Matusas afirmam que esses caracóis têm uma casca com um diâmetro de mais ou menos seis metros, e que comem pessoas.

Patricia Highsmith